O ballet é a mais divina das artes.
É mesmo? Um comentário como esse pode, no muito, despertar alguma discordância. Mas acontece que para tudo há hora e lugar. Todo mundo sabe disso. E eu, por desrespeito a coisa tão banal, quase me estrepei.
O lugar foi um boteco, em meio a amigos, nem todos inclinados às coisas do espírito, muito menos à saltitante arte de rodopiar na pontinha dos pés. A hora? Foi num intervalo de luta do Anderson Silva, ou do Minotauro, ou do Cigano, sei lá. Trem de macho, véi! E a minha infeliz opinião saiu justamente no momento em que limpavam o ringue ensopado de sangue.
Os botequeiros, ouvindo tal comentário, entenderam-no totalmente fora de propósito. O que tem a ver ballet com UFC? E este infeliz escrevente só pensa em confrontar arte x selvageria. Eles não percebem. O silêncio é constrangedor e inquisidores olhares massacram minha arrependida figura.
- Esse aí, sei não... pensam, enquanto me encolho atrás da mesa.
Ah, os preconceitos... Recorda-me velha piada do Chico Anísio. Um de seus personagens fala das ideias pré-concebidas sobre a arte da dança.
- Qual o problema de homem dançar ballet? É uma arte como outra qualquer. Idiota quem pensa o contrário. Se eu, por exemplo, souber que um filho meu tenciona ser bailarino, não penso duas vezes: mato o desgraçado.
Pois é, leitor, deveria ter ficado em silêncio. Principalmente naquele lugar e naquela hora. Mas às vezes os afoitos lábios traem as mais sensatas intenções. E o desastrado comentário escorregou-me do cérebro, pulou-me da boca e se esparramou pelo atônito e incrédulo ambiente: Será que o Luiz?...
Não é nada disso. Apenas não consigo entender como, após Jesus, Francisco de Assis, Nelson Mandela e outros terem passado por nossas vidas, as pessoas consigam vibrar com um esporte cujas regras parecem se resumir em ?quem morrer primeiro perde?. Os lutadores, em pleno Século XXI, lembram os gladiadores que faziam, nos tempos pagãos, o delírio das turbas. E a mídia que promove as disputas ? endeusando a violência ? é a mesma mídia que se horroriza diante da selvageria das torcidas no futebol. Vá entender. Mas como gosto não se discute, fiquem eles por lá enquanto por aqui fico eu, lixando-me para quem pensa que homem que gosta de ballet... sei não.
Ah, não posso terminar esta crônica sem antes responder, com todas as letras, à pergunta que, mineiramente, dá título a este Papo di Buteco. Anotem aí: a despeito da admiração que nutro pela arte de Nureyev, da Margot Fontaine, da Ana Botafogo e da nossa querida Marla, informo, solenemente, que sou espada, bicho. Meu negócio é rabo de saia. Adoro a mulherada, cara. Embora (que tristeza!) quase todas não tenham a mínima quedinha por mim.
Luiz Alves
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