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“O amor que os professores têm pelos alunos é maternal ”

“O amor que os professores têm pelos alunos é maternal ”

04/05/2016 10h46
Por: Glaucia Melo Clark
“O amor que os professores têm pelos alunos é maternal ”

Isabel Moreira Januário Lourenço, ou simplesmente, Zazinha, foi professora, diretora, é cantora e poetiza, mãe de três filhos, e responsável pela educação de centenas de crianças que durante 43 anos passaram por sua escola. Em quatro décadas educando, ela diz que considera um pouco mãe de cada um daqueles meninos que em seus primeiros anos de educação estiveram com ela.

Dona Zazinha é de uma família de 11 filhas. “Minha mãe teve 11 meninas, nenhum homem, devido a ela fui muito tocada pelo lado maternal, então eu queria repassar para meus filhos tudo de bom que me passou. Sempre fui enérgica, mas criei com muito amor e procurei incentivar cada um naquilo que escolheu para a sua vida”, diz.

Esse lado maternal aflorado e o amor materno não ficaram só para seus filhos Luciomar, Sônia e Cleber, mas foi repassado para todos que estiveram nos bancos da Escola Infantil Chapeuzinho Vermelho e depois Instituto Educacional Mestra Ritinha.

A escola sempre funcionou na casa de Dona Zazinha, o objetivo era trazer mais conforto para as crianças. “Eu queria que eles sentissem que a escola fosse uma continuidade do lar deles. E eles sentiam isso”.

O fato de ter a escola dentro de casa aproximava muito os alunos. ”Quando estava fazendo o almoço, muitos chegavam para mim depois e elogiavam o cheiro da comida. Então prometi que cozinharia para eles”. Ela lembra que quando chegou a Semana da Criança resolveu fazer um almoço especial para os alunos. Só que antes perguntou, em particular, o que cada um gostava de comer. Então, como qualquer mãe faz, preparou diversos pratos diferentes para agradar a todos.

Eram muitas as datas comemorativas na escola, mas o Dia das Mães, era um dia especial. “A gente tinha festas lindíssimas para o Dia das Mães. Todo ano comemorávamos com uma canção escrita por mim”, conta.

No primeiro ano de comemoração, Dona Zazinha fez uma letra em homenagem à sua mãe, em cima da melodia de “Gondoleiros do Amor”, de Vicente Celestino. Outra canção que a professora se lembra de ter feito, foi uma nova versão da trilha sonora do filme Romeu e Julieta de 1968, composta pelo italiano Nino Rota. Ela diz que sempre pegava a melodia de uma música já conhecida e colocava a letra homenageando as mães.

Para ela, o amor que os professores têm pelos alunos é maternal. “A parte da minha maternidade, em meu ser mãe com os meus filhos, eu sinto que eu consegui passar uma parcela boa para os alunos, porque afinal de contas, a criança na escola é filho da professora. Eu extravasava muito amor para meus alunos”, diz.

Dona Zazinha sempre foi apaixonada pela escola e hoje essa super mãe e educadora diz que foi com pesar que fechou a sua escola, mas sua maior felicidade é encontrar com seus ex-alunos. “Minha maior alegria é encontrar com meus alunos e eles me chamarem de Tia Zazinha. Na forma como eu vivo a minha vida, acho que aprendi demais com essas centenas de crianças que passaram por aqui, porque cada um me ensinou uma forma diferente de viver”.

Na escola, Dona Zazinha, conseguia colocar em prática tudo que sempre amou. “O barulho que as crianças faziam o dia inteiro em minha casa era uma música para mim. A minha escola era embalada por música. Meus meninos brincavam, cantavam e recitavam poemas. Tudo que sempre gostei”.

Letras,

poesias, canções

e acrósticos ...

Amante das palavras e das canções desde menina, Zazinha sempre gostou de cantar e declamar poemas. Sua primeira declamação foi ao seis anos na Escola José Bonifácio, em Belo Horizonte, o poema era sobre Chapeuzinho Vermelho, dali pra frente aquela esperta criança nunca mais parou de declamar. Já estudando na Escola Estadual Paula Rocha, a pequena poetiza não faltava em nenhuma comemoração sequer, era sempre chamada para declamar. “Aquilo até me atrapalhou no quarto ano, porque muitas vezes eu deixava a sala de aula para ensaiar, passei com a nota mínima. Meu pai me castigou, por causa da nota baixa e no dia da formatura não participei da festa, só assisti. Eu chorava no camarote, as lágrimas desciam, porque eu amava o palco”, lembra.

Apesar da eterna lembrança, o castigo não a desanimou e Zazinha continuou a ser figura constante nos eventos municipais.

Talvez de todas as declamações que já fez até hoje, a que mais a marcou foi a do poema, “Férias Líricas em Sabará” de Oliveira Ribeiro Neves.

Era aniversário de Sabará, na época Zazinha estava com 21 anos e foi chamada por Sofia Dias, a proprietária do Solar Dona Sofia, onde, hoje funciona a Secretaria de Cultura, para declamar o poema no Teatro Municipal. Ela conta que Dona Sofia tinha muito apreço pelo poema que havia sido feito para Sabará, mas a citava. A professora lembra que ao chegar a casa de Dona Sofia, a idosa senhora chegou com um livro nas mãos, já desgastado pelo tempo, e disse: “ Isabel, há muito tempo eu procuro um pessoa em Sabará para me dar um presente, eu não queria morrer sem levar esse presente comigo, que é a declamação de um poema escrito em minha homenagem. Será que você me daria esse presente?”, recorda. Dona Zazinha aceitou o pedido na hora. Chegado o grande dia, a jovem professora teve uma surpresa, ao chegar em Sabará, pois estava morando na capital, soube que Dona Sofia havia sofrido uma queda e machucou muito, por isso provavelmente não estaria no teatro. Mas mesmo assim foi preparada para a apresentação. Quando entrou no teatro, avistou em cima do palco, Dona Sofia, toda engessada. “Eu já declamei esse poema milhares de vezes, mas igual aquele dia! Na hora que me chamaram, eu estava com minha alma toda ali. Declamei. Quando terminei, fui abraçá-la e nossas lágrimas se misturaram”.

O dia foi tão marcante, não só para Zazinha e Sofia, mas para todos que estavam presentes, tanto que 50 anos depois, em 2002, também no aniversário da cidade, no mesmo teatro, a professora foi homenageada com um quadro entregue pelo prefeito da época, pela declamação do poema.

Foram várias posses de prefeitos, aniversários da cidade e diversas festividades, que ainda contam com a presença Dona Zazinha com os seus tradicionais acrósticos.

O acróstico é uma composição literária normalmente poética em que as letras iniciais, do meio ou do fim formam nomes ou palavras em concreto. Em seus quase 600 acrósticos, Dona Zazinha homenageia filhos, netos, amigos, datas especiais para Sabará e para os sabarenses, além de momentos importantes em sua vida. E com seus 83 anos, essa senhora cheia de luz e criatividade, continua nos encantando com suas palavras e canções.

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