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“Na vida a gente não pode dar espaço para tristeza”

“Na vida a gente não pode dar espaço para tristeza”

14/04/2016 11h05
Por: Glaucia Melo Clark
“Na vida a gente não pode dar espaço para tristeza”

Com uma memória surpreendente e uma saúde de ferro, Dona Agripina chega aos 98 anos dizendo que o importante na vida é ser feliz e não carregar nenhum tipo de tristeza.

Atualmente, essa quase centenária mora com a sobrinha Maria, mas até 2013 ela morava sozinha. Aposentada desde 1990, Agripina Teixeira da Silva confessa que não quis saber de trabalhar depois da aposentadoria, queria viver tranqüila e assim está nos últimos 26 anos. “Eu fico à toa, gosto muito de ler e fazer minhas orações, mas também não leio nada que possa perturbar minha cabeça, trazer problemas. Sou muito religiosa e devota de todos os santos. Leio mais sobre esses assuntos”, diz sorridente.

Agripina Teixeira da Silva nasceu em 15 de abril de 1918 em Santana dos Ferros, hoje simplesmente Ferros, próximo a Itabira. Filha dos lavradores Vitório Texeira de Arruda e Realina Eredes da Silva, a lida começou cedo em sua vida. ”Nós éramos criados como adultos. Desde quatro anos nós íamos para a lavoura ajudar meu pai. Ele fazia uns balainhos e nós colhíamos com ele”.

Dessa forma para estudar era complicado, Dona Agripina estudou apenas quatro anos. Além do trabalho na lavoura, a cidade era distante e para continuar os estudos ela teria que mudar para a cidade ou caminhar por sete horas até chegar à escola. Então aprendeu o básico, suficiente para nutrir sua admiração pela leitura.

Ela e a família chegaram em Sabará na década de 1930. Agripina que estava com aproximadamente 15 anos veio para fazer companhia para irmã, que tinha casado e o marido havia sido transferido para Sabará, para trabalhar na Belgo Mineira. Em pouco tempo, todos os parentes também vieram para a cidade, os pais e os outros seis irmãos.

Seu primeiro emprego foi como copeira no chamado Cassino da Belgo Mineira que na verdade era uma sede social que recebia todos os representantes do ferro brasileiro. Depois de um tempo passou a trabalhar em casa de família. Trabalhou na casa de um dos diretores da Belgo, Fernando Stronger, em seguida foi trabalhar com a família de Antônio Gel.

Em 1950, mudou para São Paulo para trabalhar com a neta do senhor Antônio, Maria da Conceição Juliane de Lima que acabara de se casar com Gilvan Juliane. Na capital paulista ficou até 1990, foram 40 anos dedicados àquela família. Ajudou na criação dos filhos e netos dos patrões. Mas as visitas em Sabará eram constantes, afinal a patroa também era da cidade.

Agripina conta que tem muita saudade do tempo em que viveu em São Paulo e de todos da família, mas ressalta que apesar da distância, eles sempre a visitam em Sabará.

Depois que se aposentou voltou à cidade que adotou como sua, diz que percebeu muitas mudanças, mas seu amor por Sabará continuou o mesmo.

Foi morar sozinha em um apartamento que comprou na Morada da Serra e apesar de não trabalhar mais, tinha seus problemas e se ocupava em resolvê-los, mas sempre tinha algum sobrinho por perto. Assim viveu até dia 15 de abril de 2013, ressalta bem a data, quando foi morar com a sobrinha Maria, diz que a coluna já não estava muito boa, então achou melhor morar com alguém.

Aliás a coluna é seu único problema. “Não toma remédio nem pra dor de cabeça”, diz a sobrinha.

Agripina conta que vai ao médico só uma vez por ano e seus exames estão sempre bons, tem uma saúde de ferro. “Gosto muito de doce. Tudo meu tem que ter açúcar, não gosto de adoçante. Sempre tive medo de diabetes, mas graças a Deus está tudo bem”, conta feliz.

Um período de

tristeza e uma vida de alegrias

Dona Agripina fala que um dos momentos mais difíceis de sua vida foi quando seu irmão, que era arrimo de família, foi para a Força Expedicionária, em 1942, seis meses após a morte de seu pai. A situação ficou muito difícil para a família e ela ficou sozinha cuidando de sua mãe. E ainda ajudando a cunhada a criar três filhos.

Sendo assim, o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), também se tornou um tempo de aflição para a jovem Agripina. Seu maior medo era do irmão ir para a linha de frente, mas segundo ela, o comandante disse que isso aconteceria só em último caso. Dessa época, a aposentada lembra detalhes. “Em dezembro de 1944, eu recebi uma carta dele dizendo que em janeiro de 1945 eles embarcariam para a Itália. Pediu para que eu não falasse nada para mamãe, pra ela não sofrer”, recorda.

A partir daí foi só sofrimento, Dona Agripina não teve mais notícias do irmão, até que em 1º de junho de 1945 finalmente recebeu um telegrama dele dizendo que estava tudo bem e que ele iria voltar. “No dia 15 de junho eu estava no cassino, andava em direção à mesa quatro para servir um café, foi quando meu chefe chegou e me disse: ‘ Agripina pode ir embora’. Assustei e pensei que ele estava me despedindo. Então ele me disse: ‘ Não, seu irmão chegou e está em sua casa. Pode ir e ficar com ele por uma semana, se precisar de alguma coisa me fale’”, relembrou com detalhes. E para a surpresa de Dona Agripina, o irmão nem mesmo tinha chegado a sair do Brasil, ficou todo esse tempo em uma base no Paraná, mas não teve como mandar nenhum tipo de aviso.

Para Agripina esse foi o único período de sofrimento, mas no mais, ela diz que foi muito feliz durante sua vida. “Eu tenho orgulho de tudo que já passou na minha vida. Eu não posso dizer qual foi a maior alegria, pois para mim toda a vida é motivo de felicidade. Do dia em que eu nasci até a data de hoje”. E ainda sobre a felicidade ela diz: “A gente não pode ficar guardando tristeza. Pensamento ruim, na minha cabeça, isso não entra. Quero ter minha vida livre. Nunca dei espaço para a tristeza. Não gosto muito de chorar por fora, já chorei por dentro, mas não guardo nenhum sentimento agudo de dor”.

Dona Agripina sempre foi uma pessoa mais quieta, frequentava poucas festas, era mais de comemorações familiares. Nunca casou e nem teve filhos, mas confessa que os namoros aconteceram. Já amor de verdade, traz dois na lembrança, porém não diz muito sobre eles.

“Na vida a gente tem que ter força e coragem para enfrentar. Já pulei, dancei e dei conta de tudo. É assim, a gente trupica daqui, levanta dali e vai levando, graças a Deus!”.

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