Há 25 anos a “Casinha” é o pilar das famílias da Vila Barraginha
“... Uma lata, alguns legumes, dois pacotes de macarrão e uma chama acesa em alguns gravetos de lenha” – não precisa muito para ascender à esperança em uma comunidade que às vezes passa despercebida aos olhos de muita gente. E com pouco, muito pouco, iniciou o trabalho social de Tia Cecil na comunidade da Vila Barraginha.
Em 1993, Cecil Adair Góes de Andrade realizava trabalhos sociais no bairro Roça Grande e na Santa Casa da Capital. De religião espírita, ela sempre se preocupou com o bem estar do próximo, foi quando “uma voz” mostrou que ela tinha muito a oferecer aos moradores da Vila Barraginha – conhecido na época como Pedreira.
“Passava na estrada todos os dias e observava esta comunidade, eu sabia que uma força maior me incentivava entrar neste bairro, a espiritualidade me dizia que alguma coisa precisava ser feita. Com pouco dinheiro e uma vontade imensa de ajudar, comprei alguns legumes e pedi em uma casa próxima dois pacotes de macarrão. No quintal de uma das casas, usei um latão de armazenar óleo num fogão a lenha improvisado; e ali fiz a primeira sopa para os moradores”, disse.
Aquela foi à primeira quarta-feira de muitas outras que Tia Cecil se entregaria para aquela comunidade que tanto precisava, e ainda precisa. Casada, mãe de um filho, Dona Cecil morava no bairro Eldorado, em Contagem; enfrentava dois ônibus para ir até a Barraginha, pois sabia que em seu coração soava um pedido de socorro. “Era como se essa voz espiritual me mostrasse algo, me guiava até as mulheres, homens, meninos e meninas que aqui estavam. Era um pedido de ajuda e eu estava pronta para ajudar”, lembra emocionada.
Meses se passaram, e Cecil continuava com a mesma garra, matando a fome daqueles que às vezes, não tinha um pão para o alimento do dia. A sopa ainda era servida na rua, mas ela sabia que algo maior aconteceria, foi quando surgiu a Casinha da Tia Cecil.
Uma Casinha,
uma esperança!
Foi em 1994 que a Casinha – Núcleo Assistencial Caminhando com Jesus; passou a oferecer aos moradores da Barraginha, além de alimentação, esperança. O terreno foi doado por um advogado que se sensibilizou com o projeto. No início o local, ainda com poucos voluntários, mas com muitos necessitados, realizava brincadeiras com as crianças para que as mães pudessem trabalhar e distribuía algumas roupas – todas adquiridas através de doações.
Assim como as necessidades aumentavam, a gratidão e a bondade também. Mais e mais voluntários foram chegando. A comunidade que antes era passiva à sua realidade social, passou a trabalhar junto com Dona Cecil e os demais tarefeiros - ajudantes. Hoje, a Casinha atua ainda como fortalecimento familiar. O local funciona de segunda à sexta-feira e passou a oferecer mini cursos como aulas de balé, culinária e percussão.
“Tudo foi realizado através de um trabalho em conjunto onde ao longo dos anos cada um ajudou em alguma coisa. Vivemos de doações e graças a Deus, o pouco se torna muito. Sou feliz pelo que fiz e fico feliz em ver hoje aqui mais de 15 voluntários e mais de 200 pessoas atendidas todos os dias, além das crianças. Agora com a ajuda da Prefeitura, estamos prevendo um atendimento ainda melhor para todos aqueles que nos procuram”, finaliza Tia Cecil.
Promoção social,
voluntários da vida
Todos sabem que a saúde, educação e saneamento é um direito do cidadão, mas isso não significa que todos tenham de fato um mínimo desses direitos garantidos. Para que projetos sociais como este funcione e se multiplique, são precisos pilares que acabam sendo os próprios voluntários. Na Casinha, além de dona Cecil, existem diversas pessoas que são importantes para o funcionamento do local, como Ilma, Solange, Eustáquio e Vilma.
Vilma Tavares é Dona Branca, ela é a atual responsável por preparar a sopa que é servida para aqueles que frequentam a Casinha. “Tem mais de dez anos que estou aqui, comecei participando das reuniões e hoje sou cozinheira; acompanho o projeto desde que começou, quando a sopa era servida ainda embaixo de lonas no quintal de uma casa. Hoje tem criança que passa o dia inteiro aqui com a gente, fico feliz em poder fazer algo pela comunidade“, disse.
Ilma Ferreira dos Santos é a vice-diretora da Casinha, ela acompanha o trabalho de Tia Cecil praticamente desde o início, entrou em 1994. Segundo Ilma, tem dia que o local recebe mais de 50 crianças. “É maravilhoso fazer esse atendimento com a comunidade. Fico emocionada ao falar desse projeto, a gente pensa que está ensinando, mas na verdade estamos é aprendendo. Mesmo com as dificuldades que já presenciei aqui, me encho de orgulho desta casa. Tia Cecil é abençoada”, relata Ilma que, com duas crianças no colo, se emociona.
O aposentado Eustáquio Tadeu de Melo, é daqueles voluntários que prefere o anonimato; ele diz que a ajuda é “silenciosa”. Com uma kombi, Tadeu recolhe as doações que são feitas na Mesa Brasil – (Banco de Alimentos SESC de Belo Horizonte). “Meu papel é pequeno diante do trabalho social realizado na Casinha. Uma vez por semana recolho alimentos, material de limpeza e brinquedos - que são doados ao Mesa Brasil por hipermercados e comércios de várias cidades Mineiras; e levo até as entidades filantrópicas da Capital e Região. Aqui na Barraginha, entrego uma vez por semana. Esse projeto consegue matar a fome de muitos moradores dessa comunidade, tamanho a sua importância”, ressalta.
Segundo a psicóloga, Solange Bastos, a Casinha se tornou um pilar na Vila Barraginha. Ela classifica o local como uma obra divina. “Cecil foi uma guerreira; pelas mãos dela nasceu a esperança nessa comunidade. A Casinha, que antes era assistencialista, passou a ser um espaço de promoção social. Agora, os jovens conseguem se qualificar e entrar no mercado de trabalho através dos cursinhos que a casa está oferecendo. Com isso, eles usam o tempo ocioso para se profissionalizar, começam a perceber outras prioridades, onde o desejo de crescer e melhorar de vida fala mais alto”, explica.
Ainda de acordo com Solange, a Prefeitura através das Secretarias de Desenvolvimento Social e de Educação, está estudando uma estratégia para que o imóvel possa ser ampliado para melhor conforto da comunidade “É preciso mais espaço para atender o tamanho deste projeto. Tudo que os moradores locais recebem de bom é através da Casinha. Esse espaço é abençoado na vida dessas pessoas”.
Além da Casinha, Dona Cecil cuida de outros projetos sociais em prol daqueles que precisam. Nas manhãs das quintas-feiras uma sopa também é servida na “Casinha da Tia Ivone”; e ainda é voluntária no “Projeto Nossa Senhora do Rosário”, em Roça Grande. Quando perguntada sobre as dificuldades de ser voluntária em tantos lugares, com sorrisos ela conclui; “Não me canso; quem nasce para servir, multiplica a solidariedade”.
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