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Nos 50 anos do golpe militar, a Folha traz uma entrevista com um sabarense vítima da repressão que assolou o país por mais de duas décadas

Nos 50 anos do golpe militar, a Folha traz uma entrevista com um sabarense vítima da repressão que assolou o país por mais de duas décadas

19/03/2015 10h50
Por: Glaucia Melo Clark
Nos 50 anos do golpe militar, a Folha traz uma entrevista com um sabarense vítima da repressão que assolou o país por mais de duas décadas

Na segunda-feira, 31 de março, o Golpe Militar de 1964 completou 50 anos, um dos dias mais fatídicos da recente história do Brasil. Depois daquela ação, ocorrida verdadeiramente na madrugada de 1º de abril, dia da mentira, o país viveria 21 anos de um regime autoritário militar, que foram tristemente cravados pela censura, exílio, repressão policial, tortura, mortes e ?desaparecimentos?.

Para marcar essa data que deixou cicatrizes na trajetória brasileira e manter viva a memória para que tais atos não se repitam no Brasil, a Folha traz nesta edição uma entrevista com Sálvio Penna, 71, sabarense militante, que sofreu no corpo e na alma os horrores desses tempos difíceis nos porões da ditadura militar. Na época do golpe Sálvio tinha 21 anos, estudava na então Escola Técnica Federal de Minas Gerais, era solteiro e morava com seus pais em Sabará. Confira abaixo esta surpreendente história de coragem e superação:

Folha: A princípio, o que o golpe representou para o senhor? No dia que João Goulart foi deposto o senhor e outras pessoas já tinham noção do que estava acontecendo ou essa percepção só aconteceu depois de um tempo?

Sálvio: Entrei para a esquerda em 1962, ajudei a fundar uma organização política chamada Ação Popular (AP). Tinha (eu, pessoalmente) uma vaga ideia da organização do golpe militar. Acompanhei a fundação do Grupo dos 11 em Sabará, um esforço ligado ao Brizola para reagir ao golpe. O movimento social avançava e conquistava vitórias, esperávamos uma reação.

Folha: Quando começou a lutar contra os militares? Sua luta contra eles foi apenas ideológica ou o senhor chegou a participar da ?luta armada??

Sálvio: Após o golpe, a AP, cuja origem era cristã, passou a estudar o marxismo-leninismo e a acompanhar a revolução chinesa, o pensamento de Mao Tsé-tung, líder chinês. No final da década de 60 a AP mudou seu nome para APML (Ação Popular Marxista Leninista) e passou a organizar uma reação armada ao golpe militar. Eu era, então, operário metalúrgico, trabalhava na Cia. Sid. Belgo Mineiro, em Contagem. A ação era o recrutamento de operários para a organização. Propúnhamos uma ação militar a partir do campo, parecida com a revolução chinesa. Não cheguei a participar de ações armadas. A tática da AP não propunha ações nas cidades. Depois da tomada do poder nossa proposta era a construção de uma sociedade socialista nos moldes da literatura marxista.

Folha: Por qual motivo o senhor acredita que a população não resistiu à intervenção dos militares?

Sálvio: Não tínhamos organização popular suficiente para reagir ao golpe.

Folha: Quando e como foi preso?

Sálvio: Fui preso no dia 7 de dezembro de 1971, em minha casa, no Bairro JK, em Contagem. Trabalhava na Trefilaria da Cia. Sid. Belgo Mineira. Os militares não precisavam de justificativa, prendia-se todo e qualquer um que se opunha ao regime. Fui encaminhado às dependências do DOI-CODI (na sede do antigo Dops, na Av. Afonso Pena) e torturado durante todo o dia. Posso descrever a tortura como: pau de arara (o preso fica dependurado num cavalete de cabeça para baixo, em geral completamente nu), choques elétricos, aplicação de palmatória pelo corpo, água ou refrigerante jogados no seu nariz, humilhações de todos os tipos, tortura psicológica (ameaça a você e sua família) e queimaduras de cigarro pelo corpo. Fui preso com minha mulher, Ana Lúcia e meu filho Rodrigo, que tinha na época cinco dias de nascido. A Ana Lúcia estava com 33 pontos internos e externos, pois o Rodrigo nasceu com o uso de fórceps, o que era comum na época, para evitar cesariana. Saí em abril de 1973, voltando imediatamente à luta contra o regime militar e à organização do movimento social. Não voltei mais a militar na Ação Popular Marxista Leninista. No movimento metalúrgico, para o qual voltei, ajudei a fundar a Oposição Sindical Metalúrgica de Belo Horizonte e Contagem. Participei também do Movimento Feminino pela Anistia e Comitê Brasileiro de Anistia. Participei da fundação do Partido dos Trabalhadores e intensamente na Campanha pelas Diretas Já.

Folha: Como é para o senhor, 50 anos após o golpe militar, ver no poder uma presidente que lutou contra a ditadura e que assim como o senhor, foi presa e torturada?

Sálvio: Ver Dilma na presidência me dá a certeza da justeza de lutar pela democracia.

Folha: A resistência, da qual o senhor fazia parte consumou assaltos a bancos, inclusive a bancos em Sabará.

Por quê e para quê ?

Sálvio: A minha organização política não propunha ações do tipo expropriações a bancos, não participei deste tipo de ação, como disse. Nossa proposta era uma resistência armada popular, organizada a partir do campo.

Folha: Para muitos brasileiros o golpe militar, que completa 50 anos, parece algo distante. O que ela representa para o senhor?

Sálvio: Os 50 anos do golpe devem ser lembrados principalmente para nos atentar sempre da importância da democracia. De uma sociedade ética, democrática e com justiça social.

Folha: Há poucos dias aconteceu em algumas capitais brasileiras a chamada ?Marcha da Família com Deus pela Liberdade?, que pede a intervenção militar nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Como o senhor enxerga essa manifestação? Fica assustado em ver que ainda existem pessoas que desejam a volta dos militares ao poder? O que falaria com essas pessoas?

Sálvio: A princípio assusta sim saber que há cidadãos e cidadãs que querem a volta de um regime de ditadura. Mas serve pra lembrar que a luta pela democracia não acaba, é cotidiana, sem tréguas.

Folha: Como o senhor enxerga a participação política da sociedade atualmente?

Sálvio: A participação dos jovens é fundamental. Eles não estão esquecidos ou à parte. Estão ainda na nossa memória as lutas de junho de 2013. Estão aí as ocupações nas cidades, a luta por melhoria do transporte público, o movimento estudantil, os movimentos culturais. O jovem não para.

Folha: O senhor acredita que os jovens, de uma forma geral, têm a real noção do que a ditadura representou para o país?

Sálvio: Sobre o que a ditadura representou para o Brasil, acho que a história está sendo escrita. Isso requer paciência. Passar sabedoria é uma longa e demorada construção.

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