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“Quem conta um conto, aumenta um ponto!”

“Quem conta um conto, aumenta um ponto!”

09/09/2015 17h49
Por: Glaucia Melo Clark
“Quem conta um conto, aumenta um ponto!”

Lendas centenárias perpetuam entre moradores de Sabará

Já imaginou virar a esquina e encontrar um lobisomem? Quem sabe ver um rapaz saindo de uma fonte nas sextas-feiras de lua cheia. Ah! Que tal ficar na frente da igreja e ver uma linda noiva atravessar a rua e sumir nos túmulos do cemitério. Causos como estes são contados há décadas por moradores da cidade. Já que no último sábado, dia 22, comemoramos o Dia do Folclore Brasileiro, vale a pena voltarmos ao passado e relembrarmos, junto aos moradores sabarenses, alguns de seus tradicionais contos.

Sabará, assim como as diversas cidades históricas do país, tem em sua memória algumas lendas urbanas que tem sido passadas através de gerações. Algumas delas enriquecem a história do município, outras atraem pesquisas de curiosos que vem a cidade para desvendar os mistérios que rodeiam essas lendas que, acreditem; consideradas verídicas por alguns moradores.

Quem nos ajuda a contar um desses causos é o funcionário da Biblioteca Pública Municipal de Sabará, Sérgio Alexandre Silva, o Serjão. “As lendas embelezam a nossa cidade de certa forma, que atrai a atenção mesmo de quem nunca aqui morou”. Explica Serjão que é quem nos conta a lenda do Kaquende – um dos pontos turísticos mais visitados na cidade. Segundo ele, essa é mais que uma lenda; é uma belíssima história de amor.

“Os antigos contam que um rapaz mulato se apaixona por uma donzela rica. Um amor proibido devido às diferenças sociais – o casal tenta viver esse amor e fugir, mas a moça foi enviada à Portugal, para estudar em um convento. A tristeza toma conta do rapaz que morre de amor. A lenda diz que ele passou a habitar o Kaquende; e todas as sextas-feiras de lua cheia ele sai da fonte á procura de um amor”.

O Kaquende é um ícone da história de Sabará, carrega com ele a fama de “Quem toma sua água, um dia volta à cidade”; de acordo com Serjão, a lenda agrega a ele ainda mais importância. “Os moradores mais antigos do município acreditavam em alguns desses causos. Tanto que essas histórias vêm sendo contadas por anos. Hoje tem alguns que não dão valor e acham, claro, que é mentira. Mas outros, como eu, enxergam a beleza desses contos que são sublimes para a cidade”, explica.

Além de Serjão, outros moradores também carregam consigo as lendas da cidade, como o causo do homem que mora ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Ó, um dos cartões postais de Sabará, e vira lobisomem nas noites de lua cheia. Tem ainda a lenda da "Procissão das Almas" contada e publicada pela professora sabarense, Maria de Lourdes Guerra Machado, no arquivo: “Assombrações, Minas de Ouro, Anedotas e Tipos Populares de Sabará”.

“Morava na Rua Nova uma mulher, Maria Leocádia, solteirona, costureira, que havia perdido os pais e seus irmãos se mudaram, acontecendo dela ficar só. Ela ficou sabendo que, aqui em Sabará, às segundas-feiras, à meia-noite, uma procissão de pessoas vestidas de branco, carregando velas acesas, saía da Igreja Grande, passava pelo Morro da Intendência, Rua Nova, Largo do Rosário, até a Igreja de São Francisco. Maria sentiu curiosidade de assistir à tétrica procissão, que chamavam de "Procissão das Almas". A noite foi para a janela e não demorou muito para que ela visse a procissão se aproximando e uma das almas lhe entregou um presente na janela – uma vela. No dia seguinte, foi ver o que ganhara: em lugar de vela, encontrou um osso humano”. Por Maria de Lourdes.

De acordo com o historiador Zezinho Bouzas, lendas são narrativas populares transmitidas de geração em geração, principalmente de forma oral. São histórias que não podem ser comprovadas cientificamente, pois a maioria delas parte da imaginação das pessoas. Ele diz que todos os causos têm um tom de verdade, como a historia da Lagoa da Reta, que nos conta.

“As pessoas contam que a lagoa carrega uma maldição. Havia uma casa branca que pertencia a um Padre Chiquinho, na parte alta da lagoa. Por lá passava também todos os anos a procissão da quarta-feira de cinzas. Havia uma regra de que não se podia dançar carnaval após a meia noite desse dia. Contrariando as ordens do Padre e da Igreja, a população dançou a folia nesse dia cantando e fazendo muito barulho.

Ao passar pelo local, o padre contrariado amaldiçoou aquele lugar e ao levantar o crucifixo, a casa branca começou a afundar na lagoa, levando junto todos que participavam daquela festa. Como durante vários anos muitas pessoas morreram afogadas acidentalmente neste local, criou-se a lenda que a lagoa é amaldiçoada”, explica Bouzas.

Verdades ou não, as lendas sabarenses ultrapassam os limites da cidade. Assim como a história contada por Maria de Lourdes, Zezinho e Serjão; muitos outros contos já foram publicados por diversos artistas e espalhados Brasil afora. Como “quem conta um conto, sempre aumenta um ponto”; essas lendas parecem ganhar vida a cada ano, sempre com detalhes novos originados pelas falas daqueles que às estão narrando. Fatos ou não, esses contos contribuem para a memória da cidade e do povo sabarense.

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