O Teatro Municipal de Sabará recebeu, no último dia 22, um evento que devolveu aos sabarenses a história de um personagem fundamental para a cidade e para Minas Gerais. O concerto-lançamento do livro Racismo, Constante Como o Tempo, do escritor e violoncelista Carlos Márcio, lotou a casa e apresentou ao público a trajetória de Bento Epaminondas — advogado negro, abolicionista e provedor da Santa Casa de Misericórdia de Sabará entre 1894 e 1904.
Misturando música, projeções, monólogo e manifestações da cultura afro-brasileira, o espetáculo contou com a participação da Guarda do Congo Real de Nossa Senhora do Rosário de Sabará e do Bloco Afro 13 de Maio. A realização foi da Academia de Artes e Ciências de Sabará, presidida por Bernardo Lopes, que também apresentou o evento.
O homem que a cidade esqueceu
Por meio de uma narrativa pessoal, Carlos Márcio conduziu o público até a história de Bento Epaminondas, figura central do movimento abolicionista em Sabará. O advogado enfrentou a poderosa mineradora Morro Velho nos tribunais e conseguiu a libertação de mais de 300 pessoas mantidas ilegalmente na escravidão.
Em 1894, Bento assumiu a provedoria da Santa Casa de Misericórdia de Sabará e promoveu mudanças significativas, ampliando o acesso de trabalhadores e pacientes negros à instituição e firmando o primeiro convênio com o poder público de Belo Horizonte. Em reconhecimento, trabalhadores encomendaram um retrato seu para o salão principal da Santa Casa. Meses depois, a obra foi retirada pela administração seguinte.
O apagamento da memória
Um dos momentos mais marcantes da noite foi a apresentação das pesquisas que apontam como a memória de Bento Epaminondas foi gradualmente apagada da história oficial da cidade.
Segundo o livro, o historiador e ex-provedor da Santa Casa, Zoroastro Viana Passos, dedicou páginas à gestão de Bento em publicação de 1929, mas foi o único dos provedores da época que não teve seu retrato reproduzido na obra. Pesquisas apontam que esse apagamento ocorreu de forma sistemática ao longo do tempo.
Cultura, resistência e ocupação
O concerto também foi marcado por apresentações musicais e manifestações culturais que reforçaram o tema da resistência negra. A entrada da Guarda do Congo Real pelo corredor central do teatro emocionou o público, assim como a participação do Bloco Afro 13 de Maio, que encerrou a noite com a canção O Que Se Cala, eternizada por Elza Soares.
Para Carlos Márcio, a presença do bloco no palco do Teatro Municipal teve um significado especial. Segundo o autor, foi a primeira vez que o grupo se apresentou naquele espaço em seus mais de 40 anos de existência.
Um nome que precisa ser lembrado
Ao final do espetáculo, Carlos Márcio destacou que ainda não existe em Sabará uma rua, praça, escola ou monumento que homenageie Bento Epaminondas, considerado um dos maiores abolicionistas da história de Minas Gerais.
Em sua mensagem final, o autor fez um apelo ao público:
"Conclamo todos os sabarenses a colocar em seu vocabulário o nome Bento Epaminondas. Que sua imagem não seja mais apagada da nossa memória."
O livro Racismo, Constante Como o Tempo foi publicado pela Editora A Arte da Palavra e recebeu o Prêmio Resistência. O concerto-lançamento iniciou em Sabará uma série de apresentações que segue por outras cidades mineiras.





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