Para celebrar o Dia Mundial da Água, comemorado no último dia 22, a Folha traz um artigo do historiador Zezinho Bouzas falando sobre os valiosos chafarizes sabarenses. Estes monumentos acompanham a história da cidade e são referência de uma época em que não se pensava na água como hoje. Por isso, vamos fazer essa viagem no passado para que o futuro não seja seco como a maioria dos chafarizes da cidade estão atualmente.
Por Zezinho Bouzas
Os chafarizes foram os primeiros equipamentos públicos implantados nas antigas vilas mineiras, para atender uma das suas principais necessidades, o abastecimento de água. Com o passar dos anos, foi criado um sistema de abastecimento de água domiciliar, e os chafarizes perderam sua função principal inicial, passando a ser elementos que embelezavam os espaços públicos com suas belas formas escultóricas.
Os chafarizes de Sabará são hoje bens tombados, registrados e preservados pelo Patrimônio Histórico Nacional e Municipal, para as futuras gerações, incorporados à tradição secular da cidade.
Chafariz
do Corte ReaL
É uma pequena construção em pedra, com data de 1809, localizada na antiga rua do Corte Real, na realidade uma rua que cortava outra, maior; a rua de São Pedro. O bebedouro público recebia, antigamente, água proveniente de uma nascente na Chácara do Lessa, hoje uma reserva natural municipal.
O singelo chafariz viu passar parte da história de Sabará e de Minas, quando desfilaram à sua frente às tropas derrotadas de Teófilo Otoni, do Movimento Liberal de 1842, em direção ao Paço do Conselho no Largo do Rosário. Na praça onde está o chafariz, repousam simbolicamente os ex-pracinhas sabarenses da FEB, representado em um monumento de cimento, construído pela municipalidade.
No naquele bebedouro, não se vê mais a cruz colocada no centro, ao alto, característica dos bebedouros das cidades mineiras, e de sua única bica não jorra mais água, mas a construção está lá, intacta, para testemunhar a história de Sabará e sua própria história.
Chafariz do Rosário
Esta é uma bela construção, de grande porte, com características do século XVIII, em pedra sabão rosada, com pintura em tinta ocre, detalhes barrocos nas colunas torsas laterais, encimadas por pequenas torres, com a tradicional cruz ao alto, tendo no centro uma tarja sem dizeres, mas com uma bela coroa de Nossa Senhora em pedra sabão esverdeada, e uma mesa ou bacia para receber água das duas estranhas gárgulas.
Recebia água também de nascente na Chácara do Lessa, mas já no final do século XIX estava seco e passou a armazenar água canalizada, na enorme caixa atrás da construção. Hoje não jorra dele o precioso líquida que ajudou a matar a sede de impetuosos matutos e comerciantes que desciam pelo caminho real o ou do boi, das damas e cavalheiros da sociedade sabarense que esperavam a saída da imagem do Senhor dos Passos da Igreja do Rosário na Semana Santa, ou dos negros escravos da Irmandade dos Homens Pretos do Rosário, suados e cansados de tanto dançar, a noite toda, nos folguedos de São Benedito, nas folias de Natal, nos congados do Rosário, dos foliões e folionas que desfilavam graciosas, nos antigos blocos do Mundo Velho, no Cravo Vermelho ou Crisantêmo, nos carnavais do Largo do Rosário ou no Curro que existia próximo ao Bar Ponto Chic.
O belo e imponente chafariz, que dizem ter vindo desmontado de outro lugar, talvez do São Francisco, é hoje, como a Irmandade do Rosário, apenas uma lembrança dos velhos tempos. Mas continua lá, no antigo Largo do Rosário, atual Praça Melo Viana, teimoso, contando e vendo passar a história, sempre elegante e garboso.
Chafariz da
Confraria
Assim chamado por ter sido construído pela Confraria ou Irmandade do Amparo, a mais velha instituição da antiga vila Real, que funcionava na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no arraial da Igreja Grande, bem ao lado daquele templo. A construção é simples, do século XVIII, em pedra, com uma grande bacia para receber água, duas pequenas torres laterais, sem a indefectível cruz ao alto, que deve ter sido destruída pelo tempo, e ao centro uma pequena tarja sem inscrições.
O velho chafariz que não vê jorrar água por muito tempo, como a Confraria, que não existe mais, deve ter visto também, como seus pares espalhados pela cidade, muitas histórias, muitas festas, como a do Divino, com seus ?passeios, danças e contradanças?, cavalhadas, levantamento de mastro com a bandeira do Espírito Santo, dos foguetes, das meninas e meninos correndo atrás dos busca-pés, das bandinhas tocando deliciosas marchas, do grande sino anunciando, da torre, a chegada da procissão no Largo da Matriz. Hoje, apesar do silêncio de sua garganta, continua a ver tudo isto e a receber procissões e turistas no largo da Matriz, atual Praça Getúlio Vargas.
O Largo do Jogo da Bola e o seu Chafariz
O Chafariz do Caquende (Kakende ou Kaquende), construído em 1757, em pedra, com duas pequenas torres e a tradicional cruz ao alto, com uma grande bacia, desgastada pelo tempo, tem na parte posterior um canal fechado, também em pedra para receber a água. Recebe este nome por causa da sua proximidade com a região onde existiu o antigo Mercado de Escravos, uma construção semelhante à que ainda se encontra em Diamantina. Ali podia se comprar e vender açúcar, sal, carne, mandioca, cachaça, fumo, rapadura, cavalos, burros, mulas, etc, mas o seu forte era o comércio de escravos, vindos pelo Rio das Velhas, transportados em antigas barcaças, pequenos barcos e navios, ou às vezes, mas muito raramente; a pé, pelos caminhos reais.
Uma das tradições sabarenses explica que, na linguagem popular, resultado da miscigenação portuguesa, africana e indígena, a denominação do local, comumente chamado pelos mercadores como ?onde se vende?, passou pela forma mineiramente simplificada de ?Caa se vende, ? e daí para ? Caquende? foi um pulo. Até bem pouco tempo, na tarja central do chafariz, em pedra sabão esverdeada, havia uma inscrição com 5 letras e uma data: ?PSDAD 1757?, que transcrito em latim dizia: ?Populum Sabarensis Donatio Anno Dominum 1757?, gravada debaixo de onde existia uma coroa com as armas portuguesas ? destruída após a independência do Brasil -.
Traduzindo, significa: ?O Povo Sabarense doou no ano de Jesus Christo de 1757?.
Esta informação foi extraída de uma cópia de uma anotação encontrada dentro de um livro da escritora Lúcia Machado de Almeida, ?Passeio a Sabará?, mulher do Dr. Antônio Joaquim de Almeida. O Largo do Jogo da Bola, onde está o chafariz, é uma denominação do início do século XX, pois com base em documento da Câmara, até meados do século XIX, o local era chamado simplesmente: largo ?Atras do Xafaris?. Convenhamos; o nome dado no século XX é bem mais bonito e gracioso!
A água do Caquende é captada próximo ao chafariz (+- 150 m.), em um ?beco? que vai para o São Francisco, parcialmente preservado - dos poucos que sobraram na cidade -, merecendo por isso um tratamento condizente com a sua condição de herdeiro de outros charmosos becos que aqui existiam. Diz uma lenda que sua nascente está bem embaixo do alta-mor da igreja franciscana. Podemos acreditar nisso, porque é um milagre mesmo até hoje o famoso chafariz jorrar, sempre no mesmo volume, água pura e fresca pelas duas gárgulas, matando a sede do povo sabarense e dos turistas. Diz à tradição que, depois de beber o seu precioso líquido, o visitante voltará sempre à cidade.
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