* Cláudia Andrade
Buscamos a mesma fonte ao chegar as nossas casa ao final das labutas diárias: paz, aconchego, compreensão. Se pensarmos bem, antes mesmo de visualizarmos as tarefas que ainda nos esperam ou os individuais confortos possíveis como a comida, o chuveiro, a TV ou a cama, nosso coração, por um segundo já anuncia um alívio quando estamos quase chegando ao lar..
Aí vem a nossa mente como um raio cortando este céu de esperança e revela os possíveis incômodos que nos aguardam: o parente difícil ou a geladeira do final do mês ou a incompreensão dos companheiros ou a solidão de viver só sem um gato sequer, enfim, uma enxurrada com toda a sorte de frustrações que podem melindrar a alegria de retornar. Mas retornamos, invariavelmente.
O que acontece em seguida é que atravessamos a porta, possuídos pela ansiedade, pelo temor, pela intolerância, prontos pra qualquer defesa ou ataque e tudo isso, é claro, regado pelo imenso cansaço nosso de cada dia.
Na verdade não deveríamos nos espantar com as reviravoltas diárias vividas junto à família. Pra meio de conversa, a palavra família, segundo alguns estudiosos, deriva do termo em latim fames que significa fome e para outros vem de famulus, que quer dizer servo.
Sendo assim, a palavra para conceituar o grupo de pessoas que vivem juntas por laços de compromisso afetivo e ou consanguíneos, já carrega em si um sentido poderoso que agrega o servir e o lidar com a fome de cada um dos envolvidos em todas as suas dimensões.
Interessante como esquecemos a alegria de servir. Basta que estejamos justificados por esta montanha que carregamos nos ombros ao final de cada dia para exigirmos ser servidos em nossas mínimas expectativas. E tome reis e rainhas de todas as idades dentro de cada lar, decretando sentenças e as fazendo cumprir!
Como somos previsíveis! E infantis. O óbvio nos escapa: igualmente como eu, o outro em casa também se sente exausto e age de forma exigente. Caos instalado, só nos resta atravessar os portões de casa para a batalha.
Qual não é a nossa surpresa quando as piores expectativas são frustradas por um sorriso inesperado do mal humorado de plantão que resolveu contar um caso engraçado, ou quando a filha nos espera com um bolo que aprendeu a fazer ou ainda uma notícia de auxílio financeiro no meio de um aperto? Nem sabemos como reagir, não é mesmo? Chegamos prontos para a briga, lança em punho, cara trancada e... o sorriso quase dói pra sair, tamanha a decepção.
Servos tolos que somos, pois as bênçãos das alegrias inesperadas nos visitam diariamente e quase não conseguem se instalar em meio a tanto entulho acumulado para se defender. Ah...o que a gente quer mesmo é estar disponível pra melhorar as relações em casa! Melindre é pra quem insiste em receber quando já tem de sobra pra distribuir.
E você, qual dos dois lobos tem alimentado com mais frequência?
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