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Causo Sobrenatural

Causo Sobrenatural

19/03/2015 10h50
Por: Glaucia Melo Clark

É coisa de arrepiar os cabelos. Se o leitor tem nervos frágeis, fica impressionado facilmente, melhor nem ler. Do contrário, senta aí e presta atenção.

Aconteceu há anos, e o malandro com quem o causo se deu ainda hoje dirige táxi. Gente boa, bem casado, só tem um defeito: é mulherengo!Vive prometendo à esposa que vai mudar de vida. E começa a voltar cedo pra casa. Vê o noticiário, as novelas e vai dormir. Mas costuma ter recaídas. Naquela noite, por exemplo, saiu atrás de um rabo de saia e perdeu feio a hora.Voltou ao sagrado reduto do lar quase meio-dia. Meio-dia! A esposa esperava-o no portão e o bandido deu as explicações:

- É o seguinte, benzinho: fui fazer a última corrida lá pras bandas de Raposos. Estrada de terra, veja só. A hora estava avançada. Pensei até em recusar o serviço e vir correndo para casa, pois morria de saudades de você. Mas a gente precisa de dinheiro, não é? Na volta, já de madrugada, passando pela Paciência, dei com o bar do Murilo Pena aberto e cheio de gente. Alguém me gritou lá de dentro. Era o João bomba, que comemorava aniversário. Ele me parou e obrigou-me a tomar uma cerveja com ele.

A esposa estava escutando.

- Tive que entrar. Papo vai, papo vem, as horas foram passando e a turma foi saindo devagarinho. Restaram poucos. Quando dei conta, o dia estava amanhecendo. Falei pro João que precisava sair, mas ele disse que o Murilo estava preparando mais um franguinho especialmente para mim e não ia admitir que eu lhe fizesse a desfeita de não comê-lo. O Murilo até gritou lá da cozinha que o tira-gosto já estava quase no ponto. Era mentira pura. Ia demorar.

E a esposa escutando.

- Só lá pelas dez horas da manhã o raio do frango apareceu. Nós comemos, tomamos a saideira, batemos mais um papo e aqui estou, cheio de amor para dar.

A esposa, mãozinha na cintura e batendo compassadamente o chinelinho no chão, deixou que ele concluísse o caso. Então assumiu a palavra:

- Então foi isso que aconteceu, né? O Murilo só lhes serviu o frango hoje, ás dez horas da manhã. Não foi assim, seu pilantra?

- Eu juro, minha nega! Foi isso! Pergunta pro João Bomba. A cozinheira tinha ido embora e o próprio Murilo foi para o fogão. E de carinha boa, tadinho...

A patroa não aguentou. Pegou o malandro pela goela e berrou-lhe nas fuças:

- Pois fique sabendo, seu safado, que o Murilo Pena morreu ontem e foi enterrado hoje, às dez horas da manhã. Justamente na hora em que, milagrosamente, lhes servia o frango. Que coisa extraordinária, hein? Por certo foi a boa alma do Murilo que veio do além só para atender a um bando de cachaceiros. Não foi isso?

Deve ter sido. Essas coisas acontecem. É só ligar a televisão nos programas religiosos que a gente dá de cara com um monte de milagres. Pra Deus nada é impossível. Mas dizem que o pau comeu solto, pois a descrente Dona Encrenca duvidou que, no caso em pauta, tivesse ocorrido qualquer intervenção divina.

Eu, humilde temente a Deus, amigo do taxista, do João Bomba e do saudoso Murilo Pena, não duvido. Coisas sobrenaturais acontecem, leitor. Ai que medo!...

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