Tunicão chega ao bar do Miller. Dá bom dia e se prepara para uma rodada. O sogro do dono do bar, o folclórico Sô Silva, vivia, infelizmente, seus dias finais no meio da gente. Não falava mais nada, pouco dava conta do que lhe acontecia ao redor. Mas num último lampejo, lá de longe ouviu a voz do Tunicão. Então, abriu os olhos, chamou o Miller e pronunciou as derradeiras palavras:
- Não vende fiado pro Tunicão!
Transmitido o derradeiro conselho, Sô Silva descansou em paz.
Tunicão adorava pedir carona. E que a carona fosse completa. O folgado exigia que fosse deixado na porta da sua casa. O João Bomba me conta que foi numa dessa que aconteceu o causo com o Dr. Fernando, Juiz de Direito de Sabará por quase uma década. Gente fina, homem super-simpático. Mais que magistrado, um amigão.
Um dia Tunicão saiu por aí e, quando deu conta, o sol já ia alto. Tão alto que o Dr. Fernando já se deslocava para o fórum a fim de começar a rotina de seu douto trabalho. Tunicão não perde tempo: pula na frente do carro e pede carona.
Dr. Fernando, gente boa, atendeu. E o Tunicão fez o que qualquer um que o conhecia poderia prever: pediu que o Juiz o levasse até sua casa. Aquela carona era um verdadeiro achado. Ela iria unir o útil ao agradável. Ganharia a tal carona e, em companhia tão ilustre, duvidava que a patroa lhe desse a bronca que merecia receber. Dr. Fernando segue dirigindo e interroga com a habitual paciência:
- Onde você quer que o deixe?
Tunicão vai mostrando a rota. Pouco depois, chegam à porta da casa do caroneiro. Logicamente, aguardava-o a esposa, armada até os dentes. Tunicão se vira pro Dr. Fernando e cochicha:
- Chii! Lá está a jararaca, e de bote armado. Segura as pontas, doutor.
Sai do carro com aquela carinha de cachorro que quebrou panela e fala para a indignada patroa:
- Amorzinho, este aqui é o nosso Juiz. Dá pra sair um cafezinho, como só você sabe fazer?
Dona Encrenca, bufando de raiva, berra de lá.
- Vão os dois procurar café na pouca vergonha do lugar donde saíram!
Tunicão rebate desesperado:
- Calminha, mulher! Respeite o meu amigo aqui. Afinal, ele é o nosso Juiz.
- Não me interesse se é juiz, bandeirinha, gândula ou o diabo! Que se danem vocês! Vão pedir café pras vadias com quem estavam.
Dr. Fernando virou o carro, desejou bom dia a todos e saiu meditando naquele sábio provérbio popular que diz:
?Diga-me com quem anda que eu lhe direi quem você é.?
E foi julgar os nossos processos, o que deve ter feito com muita benevolência. Afinal, estamos todos soltos por aí.
Luiz Alves