Luiz Alves
Quando a gente adormece definitivamente, como num passe de mágica nossos defeitos desaparecem e as pessoas começam a se lembrar das coisas boas que espalhamos por aí. É verdade. Mas isso não acontece de graça. É apenas ensaio do que ocorrerá quando acordarmos do outro lado.
Depois que a gente se manda, Papai do Céu nos limpa das imperfeições da carne. Então passamos, de fato, a viver apenas as coisas boas aprendidas neste vale de lágrimas. O Machado de Assis continua lá no seu cantinho, rabiscando maravilhas; o Portinari também lá está, todo lambuzado de tintas; o Aleijadinho, liberto de suas dores, segue cortando a pedra, enquanto o Ray Charles toca o seu piano e sussurra canções de amor. Lá, meu irmão, só há espaço para beleza. E o Valdir, despertado do sonho libertador - a que chamamos morte ? dará prosseguimento ao que de bom andou fazendo aqui para nós. E não foi coisa pouca.
A saudade me pega pelo braço e mostra o garotão Valdir atrevendo-se em meio a craques experientes. Um dia o vi enfiando um bolão pro Flávio, lá na ponta direita. O Flávio cruza para o Nonô Tarzã e... gol do alvinegro.
E não era só bola.Também neste nosso pedaço de chão havia vários e excelentes conjuntos musicais: o Miller, o Snob, o Candelabro de Ouro... Acabada a primeira sessão de cinema, corríamos para a Praça Santa Rita. As garotas girando pelo passeio, e os marmanjos se acotovelando ao redor. Ah, os nossos olhares babões... Terminado o ?footing?, os felizardos levavam as meninas para os clubes. Os conjuntos estavam lá, prontinhos para embalar os namoricos ao som de boleros, sambas-canções, rocks-baladas, twists e chá-chá-chás. No palco o Valdir, calça branca, gravatinha e um sobretudo (Virgem, que palavra mais antiga) brilhante de lamê amarelo (céus!). Como o cara soprava bonito o seu saxofone! E a moçada rodando pelo salão, ouvindo coisas que evocavam Perez Prado, Ray Connif, Bert Kaempfert, Glenn Muller, Billy Vaughan, Românticos de Cuba, Orquestra Tabajara... Que pena ter acabado.
Acabou aqui. Do outro lado, o Valdir já se prepara para entrar em campo. Ansioso, o Flávio aguarda aquela bola que erguerá para o Nonô Tarzã empurrar para as redes. E, depois de mais uma vitória do Farol, ele correrá para o chuveiro, vai vestir a roupinha brilhante de lamê amarelo e subir ao palco. Lá o esperam o Maurício, o Orlando, o Lili, o Zé Moraes... pois a festa continua.
Quando a gente aparecer por aí, mostre-nos onde será a hora-dançante. Receba-nos com a ?Cerejeira Rosa?. Reserve-nos uma mesinha. De preferência logo na entrada da pista, como você e a Neusa ficavam no ?Cravo e Canela?. Se nos for permitido, bebericaremos um cuba libre, em louvor aos velhos tempos. E deixe o resto conosco. Atravessaremos o vasto salão celestial e não deixaremos aquelas mocinhas bonitas tomando chá-de-cadeira. Haveremos de nos inclinar diante delas, que se renderão à nobreza de nosso gesto. A contra-dança estará garantida. E a orquestra angelical ? com Valdir no saxofone ? explodirá em sons divinais.
E então giraremos pelo salão.
Eternamente.