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HAJA PACIÊNCIA...

HAJA PACIÊNCIA...

19/03/2015 10h50
Por: Glaucia Melo Clark

Luiz Alves

Nossa imensa admiração pelos que decidem com calma, consultando cuidadosamente os travesseiros. Nem sempre é saudável pensar rápido e decidir como um raio. Quem assim age não raras vezes se arrepende. Há que se ter serenidade para ver as coisas como são e fazê-las como devem ser feitas.

Mas tem gente que exagera.

Lembro-me com saudade do Tio Zezé, também conhecido como ?Pirulito?. Engraçado, folgazão, violeiro assumido, grande pessoa. Rapazola ainda, encontrou em Roça Grande, onde a família morava, uma garota que, imaginou ele, um dia seria sua legítima esposa, como se falava naquele tempo. Moça cheia de prendas, educada, tímida e amada por todos. Não havia outra igual para fazer um homem feliz na vida a dois.

Para alegria geral, num dia de Santo Antônio ficaram noivos. Naquela época ficar noivo era como jurar que o trem do casório já apitava na curva. Acontece que o meu tio não era dado a correrias. Agia no ritmo da natureza. E o segredo da mãe natura é a paciência.

- Calma, gente. Vejam a natureza. Ela é perfeita porque não dá saltos. Milhões de anos nada representam para ela - ensinava ele, olhando as nuvens.

Mas o noivado se arrastava. Muito. Não por milhões, mas por 35 anos, tempinho mais que suficiente - convenhamos - para alguém decidir se troca, ou não, a aliança de mão. Isso para nós, pobres mortais, não para o Tio Zezé.

A noiva um dia acordou cedinho, abriu a janela, assuntou o tempo e desconfiou que o Tio Zezé de fato parecia estar demorando um pouco para transformar o noivado em algo mais consistente. Chamou-o até um canto.

- Zezé, começo a supor que nosso noivado está se alongando um tiquitinho. Quando você me pediu a mão, eu era uma moçoila guapa, lépida e fagueira, que brincava de pique ao redor do santuário de Santo Antônio, aqui em Roça Grande. Hoje, o tempo já tingiu de neve meus cabelos. A garota que vivia saltitando agora geme ao simples levantar-se de uma cadeira. E o Santo Casamenteiro, mesmo tão próximo, sequer levantou um dedinho para resolver o problema. Resumindo o papo: a gente casa ou não casa, seu pilantra?

Meu tio arregalou os olhos.

- Minha filha, casamento é coisa séria, não é decisão para se tomar tão de repente. Todos sabem que a mulher deve se casar, e isso o mais cedo possível. Acontece que é obrigação do homem permanecer solteiro o maior tempo que puder. Manjou o conflito? Sossegue o facho. Ainda não estamos prontos. Nada de decisões precipitadas. Pensemos um pouquinho mais.

Passaram-se mais 20 anos e o titio morreu. Solteiro e pensando.

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