Luiz Alves
Somos aprendizes. Sempre. Basta pôr atenção em tudo que nos rodeia. Ver e ouvir as pessoas com humildade e sabedoria. Assim viramos gente.
Certa feita fui a uma pescaria. Na viagem de ida um dos companheiros bebera um pouco e tornara-se deveras inconveniente. Falava muito, permitia-se brincadeiras e comentários indevidos, exigia absoluta atenção para si. Senti pena do pobre colega que dividia o banco do ônibus com ele. Viagem longa. Como descansar ou apreciar a bela paisagem? Numa das paradas, não pude deixar de comentar com o companheiro que sentara ao lado do chato.
- Que barra o senhor está enfrentando, hein?
O tal companheiro se chamava José Maria Alves, uma das pessoas mais finas que conheci. Este sorriu e, educadamente, apenas comentou.
- Ele é um bom amigo.
Não precisava dizer mais nada. Corei de vergonha. Seu comentário me fez ver que a tolerância é virtude das maiores. Deduzi que não podemos preconceituar nada e, principalmente, ninguém. Assim que a minha cara vermelha recuperou a natural palidez, procurei me aproximar do ?chato?. Ao voltar da pescaria, além de umas piabinhas, trouxe comigo a certeza de que conseguira um novo e precioso amigo, como dissera o Zé Alves.
Um papo puxa outro. A Copa do Mundo está servindo para ensinar-nos a exercer a sadia convivência com pessoas diferentes. Mas às vezes a gente esquece isso e, como fiz na pescaria, permitimo-nos atitudes das quais devemos nos envergonhar. Assim aconteceu no jogo do Brasil com o Chile. No encontro entre as duas seleções, nossa torcida vaiou estrondosamente o hino chileno. Vilipendiou, pisou, cuspiu num dos símbolos mais sagrados que representam a nacionalidade de um povo: o seu hino. Desmoronei de vergonha, mesmo não estando no estádio. E comecei a suar frio quando teve início o hino brasileiro. E se os chilenos fossem milhares de Zé Alves vestidos de vermelho? Se o fossem, iriam ouvir nosso hino de pé, respeitosamente, e no fim o aplaudiriam. Felizmente, o povo andino agiu como a deseducada torcida brasileira presente e vaiou também o nosso hino. Nivelou-se por baixo.
Emocionamo-nos no Pará ao ouvir o povo continuar o ?Ouviram do Ipiranga?, mesmo após a execução ter sido interrompida na metade. Foi lindo. Em Minas, foi lamentável o espetáculo que demos ao vaiar o hino chileno. Foi ultrajante. Ah, como é curta a distância que separa o orgulho da vergonha...
Sejamos polidos. Caso os chilenos nos dessem o tapinha de luvas que o Zé Alves um dia me deu de modo tão educado, talvez aprendêssemos a ser mais civilizados. Vale ainda dizer que não é o povão que frequenta os jogos da Copa. A grosseria veio da classe que tem grana. E deveria ter berço.