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Cultura Conversa de Esquina

Paulo “Bode”

Paulo “Bode”

05/03/2018 16h57
Por: Glaucia Melo Clark

O Paulo foi atleta do Siderúrgica e depois dono de bar. Então veio a maldita doença. Ele aposentou-se da cervejinha. Mesmo assim, sempre aparecia para um papo. Brindava-nos com sua companhia. Agradável e honrosa companhia.

Se alguém falasse uma asneira (o que não era raro) ele exclamava de lá:

- Cala a boca, burro ignorante!

- Que exagero, Paulo. Basta dizer só burro ou ignorante, dizia o Serjão.

- Se eu exagerei é porque esse idiota aí me fez perder a calma. E o exagero é a verdade que perdeu a calma.

Se o Paulo jogasse bola como filosofava, o Siderúrgica era sempre campeão.

Um dia, um dos fregueses do boteco da dona Tereza conta um caso terrível.

- Estava pintando a casa de certa senhora. Aí ela deu falta de um dinheiro. E jogou a culpa em mim, a maldita! Chamou a polícia e me apontou o dedo incriminador. Lá fui eu arrastado para a delegacia. Que vergonha!

Todos os que estavam no bar abriram a boca, indignados.

- Pois é. Jurei de pé junto minha inocência. Que era pai de família, trabalhador, cidadão honesto. Que revirassem meus pertences, poxa! Nada adiantou.

- Conta outra, berrou o delegado. Você sai para almoçar. Garanto que escondeu a grana ou já gastou tudo com cachaçada, ladrãozinho safado!

Ouvindo a palavra cachaçada, a galera pediu mais uma rodada. Dona Tereza atendeu. O narrador tomou a pinga e continuou. E a platéia atenta, olhos arregalados.

- Não teve jeito. Ganhei uns safanões e me soltaram, dizendo que era réu primário. Fiquei ofendido. Réu primário uma ova. Tinha feito o quarto ano do ginásio, pô! Mas fiquei calado, pois já estava bastante encrencado. Dias depois, me chamaram no fórum. Ouvi poucas e boas do juiz. Tremi quando ele se levantou para ler a sentença que me condenaria a bons anos de cadeia. Foi aí, gente, que eu acordei.

Silêncio no boteco. Todo mundo com cara de besta. Paulo pediu a palavra:

- Amigo, somos pessoas finas, de bom trato. Conte isso em outro lugar e vão quebrar seu focinho, como eu desejo fazer neste exato momento, seu verme ordinário!

Querem outra? Paulo estava em seu bar. Tomava umas, na espera dos primeiros clientes. Foi quando pulou em seu colo uma gata, que lhe merecia grande estima. Paulo acariciou a doce felina e iniciou este interessante monólogo:

- Bichinha (falou mansinho) entendo sua situação. Você vem aqui, se enrosca nas pernas dos fregueses, miando uma sobra do tira-gosto. Boa mãe que certamente é, vai levar a comidinha para os seus rebentos. Acontece, minha gatinha, que eu também tenho filhos. Só marmanjões, que comem pra valer. Com a grana dos fregueses é que lhes encho a pança. E você – alterou o tom, agora vociferando agressivo – você está afugentando a turma! Tem dó, sua gatuna interesseira! Casca fora!

Dizem que a gata ronronou um compreensivo tá legal e lá não mais apareceu.

O Paulo viajou fora do combinado. Ao vê-lo com seu bigodinho sempre bem tratado, todo bonitão, esperando a hora da caminhada derradeira, ficou-me a certeza de que sua ausência vai deixar um buraco na vida da gente.

Vamos sentir saudades, amigo Paulo. Muitas saudades.

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