Agosto... um mês que já foi visto como um sombrio, agourento. Num passado não tão distante assim, costumava se dizer: “Agosto mês de desgosto!” Originalmente a expressão era: “Casar em agosto traz desgosto”. A frase surgiu em Portugal por época das grandes navegações quando as caravelas costumavam partir neste mês para o Novo Mundo. Aí, as moças que se casavam em agosto, acabavam nem fazendo lua-de-mel e as noivas corriam o risco de ficarem viúvas antes mesmo do casamento.
No Brasil, alguns fatos contribuíram para reforçar a má fama do mês de agosto. No dia 24 de agosto de 1954, a notícia do suicídio de Getúlio Vargas mergulhou o país em profunda tristeza, em 25 de agosto de 1961 o Brasil vivia a renuncia de Jânio Quadros e em 22 de agosto de 1976, morria Juscelino Kubitschek, outro presidente muito amado pelo povo brasileiro, vitima de um estranho acidente automobilístico.
FOLCLORE
Mas, nem só de tragédias e desgostos se faz o mês de agosto. Também temos muita alegria, cores, deliciosas histórias, pratos não menos deliciosos... enfim, há muito da alma brasileira neste mês. Afinal é em agosto que se comemora o Dia do Folclore! Numa definição bem simplificada pode-se dizer ser o conjunto das expressões populares que englobam aspectos da identidade de um povo. São exemplos mitos, lendas, brincadeiras, danças, festas, comidas típicas e demais costumes que são transmitidos de geração para gerção.
O Dia do Folclore, 22 de agosto, é comemorado em todo o mundo e se refere a data em que, em 1846, a palavra “Folklore” foi apresentada pelo seu criador o escritor inglês William John Toms. Ele fez a junção de “folk” (povo, popular) com lore (cultura, saber). No Brasil o dia foi oficializado em 1965 e o texto do decreto determina o ensino do folclore como sendo de importância fundamental para a cultura do país. Hoje, ao folclore talvez não seja dada a dimensão que merece. Lendas e “casos de assombração” ganham destaque sempre que se fala do tema. Mas nosso folclore abrange um campo muito maior.
CHARADAS
?Além das lendas e das histórias fantasmagóricas, além das brincadeiras de rua e da magnifica culinária, um costume bastante curioso fazia parte da vida sabarense: as charadas. Além de aproximar as pessoas, as charadas criavam um clima de diversão na cidade, clima de bom humor e alegria. Cada nova charada surgida na cidade percorria praças, bares, restaurantes, barbearias, engraxates, campos de futebol, mercados... toda a cidade corria atrás da resposta, tentando “matar a charada”, como se dizia. O enigma se baseia na construção de uma frase da qual se deve descobrir através da substituição de palavras chaves por outras semelhantes, sinônimos ou relacionadas. As palavras que substituirão aquelas do enigma, devem ser compostas por um determinado número de sílabas o que determinará a resposta oculta numa expressão denominada conceito. Entendeu? Não, né?
Vamos a um exemplo: “A pedra do moinho e o abano foram carregados pelo menino levado “. 1 - 2 (A resposta – conceito – é uma palavra formada por três sílabas. 1 + 2). Assim, temos Pedra do Moinho com uma sílaba = MO + Abano com duas sílabas = LEQUE. Menino Levado = MOLEQUE.
Nô Viana, charadista de carteirinha, me contou essa: “Um olhar frio” 2 – 1. Me disse que foi criada pelo professor Tim Sepúlveda – Professor Joaquim Sepúlveda, patrono da Biblioteca Pública Municipal.
Bem, vamos matar a charada do professor Tim. UM com duas sílabas = CADA, OLHAR com uma sílaba = VER, FRIO que é o conceito ou resposta = CADÁVER. A nossa gente era tão dona desta saudável brincadeira que se permitia criar as suas próprias charadas.
Essa correu pela cidade há muitos anos e acho que ouvi do Elmo, outro charadista do papo amarelo: “EXISTE NO PUXADOR DE ÁGUA, NA PONTA DE CIGARRO E NAS MULHERES DO SAPO UM ATLETICANO AUTENTICO” 1 – 2 – 2 – 1. EXISTE = HÁ, PUXADOR DE ÁGUA = RODO PONTA DE CIGARRO = GUIMBA, MULHERES DO SAPO = RÃS, ATLETICANO AUTENTICO = HARODO GUIMBARÃS. Ou seja, HAROLDO GUIMARÃES, saudoso atleticano tradicional e amigo que nos deixou há pouco tempo e vive hoje na nossa memória e no nosso coração. Fizemos uma pequena adaptação no conceito, ou resposta, da charada para torna-la... digamos mais simpática.
Outra charada engraçada, creio que também produzida pelo povo de Sabará é esta: “O ANIMAL NO ALTO DA TORRE ESTÁ DOENTE” 2 – 2. ANIMAL = TATU, NO ALTO DA TORRE = SINO, ESTÁ DOENTE = TATUSINO. Essa vem de outro charadista muito conhecido na cidade, que também nos deixou há alguns anos, o Miguel Caquinho: “No mar, no “currar” tem no bar” 1-2. Resposta; No mar = “sar”, no “currar” = gado, tem no bar = “sargado”, assim me contou Elmo Tudé, outro charadista tradicional da cidade. Viva a criatividade da nossa gente!
Nesse agosto, reúna a família e conte as histórias que você ouvia dos seus pais e avós... conte lendas e “causos”, priorize as histórias de Sabará. Prepare um prato típico da nossa cidade, estoure pipocas na panela, faça um doce tradicional... fale do nosso folclore! Preserve a nossa história!
Viva o folclore brasileiro! Viva o povo sabarense!
Tente matar essa:
“Eu PRECISO contar ao MONARCA que COMI GULOSAMENTE TUDO” 2-1.
(Em memória da minha mãe, D.Eunice Silva – D. Neném – que tinha imensa facilidade em “matar” charadas).
Colaboração: Sérgio Alexandre Silva.
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