No aniversário da cidade, a Folha traz as histórias de uma das travessias mais importantes da cidade, a Rua Dom Pedro II; antiga Rua Direita.
Sabará completa neste mês 341 anos de histórias e 305 anos de elevação a Vila Real. Foram diversos os acontecimentos marcantes no município ao longo de sua fundação. A cidade se modernizou, mas mantém viva, registrada e conservada, suas raízes. Na edição que comemoramos o aniversário da cidade, a Folha traz a importância e a beleza da tradicional Rua Dom Pedro II, antiga Rua Direita.
Existente em diversas cidades históricas Brasil afora, a Rua Direita recebe este nome por ser considerada a primeira ou a mais importante do município; representa a entrada da cidade. Em Sabará a tradicional Rua Direita, ou Travessia Direita, era a ladeira na qual chegavam à cidade todos os viajantes, corte, família de renomes, cargas, entre outro. Como não poderia ser diferente, é também nesta ladeira que fica os principais prédios da cidade, como a prefeitura (antes Câmara Municipal), secretarias, órgãos públicos, escolas de renomes, casarões importantes, sobrados e solares, o primeiro hotel da cidade, teatro, etc.
O historiador sabarense, Zezinho Bouzas, que também nasceu, foi criado e ainda é morador da Rua Dom Pedro II, nos ajuda a entender a relação entre os personagens que por esta ladeira passaram e os que nela ainda residem.
“Sabará é uma cidade que teve uma importância significativa na historia da Província e da Capitania de Minas Gerais por vários motivos; um deles é que aqui se extraíam uma quantidade significativa de ouro. Com isso, a cidade foi recebendo muitos moradores de toda parte do Brasil, justamente pela busca de riquezas. Isso fez com que o município se desenvolvesse de uma forma urbana quase que sozinha, as casas foram sendo construídas em fileiras, formando pequenas vilas e ruas. Com o passar do tempo os arraiais foram se juntando e formando o que conhecemos hoje como Centro Histórico, que ia até a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. A Rua Direita foi se criando a partir dos comércios e dos moradores mais importantes que foram construindo aqui os seus casarões, como padres, capitães, coronéis, senhores de escravos, etc”, explica.
Paredes de História
Atrás das paredes simples de marcos de madeira colorida, existem diversas histórias que fazem da rua um ponto ainda mais especial. São prédios que carregam mais que beleza, mas a política e a cultura de Sabará, desde o início de sua criação.
“O Prédio onde atualmente recebe a Prefeitura Municipal foi construído por volta de 1750 pelo Padre José Correia da Silva. Mais tarde o prédio passou a ser a casa do Barão de Catas Altas; em 1831, o Barão foi o responsável por receber Dom Pedro I. Cinquenta anos depois, em 1851, quando a casa já pertencia ao Coronel Jacinto Dias, o mesmo local serviu como estadia por dois dias para Dom Pedro II. A casa já recebeu também a Câmara Municipal por muitos anos”, relata o historiador.
Outra curiosidade da Rua é que o prédio onde hoje é a Secretaria Municipal de Educação, curiosamente foi à primeira Escola Pública de Primeiras Letras de Sabará, gerenciada com recursos da Província. Mais tarde, o local foi ainda sede do Jornal Gazeta Sabarense - de acordo com registros talvez este tenha sido o primeiro jornal oficial da cidade.
Outro ponto de destaque na Pedro II é a chamada “Casa Azul”, em frente a Prefeitura; segundo Zezinho a mansão pertenceu ao Padre Antônio Correia da Silva que seria o irmão do antecessor, Padre José Correia. Ainda hoje é uma das mais impecáveis construções do local. “Esta casa guarda grandes histórias; na parte inferior existe uma capela interna e um armário de copa espetacular, e todas as suas repartições e assoalhos ainda são originais; sua portaria é de estilo rococó”, disse. Esta casa já foi ainda uma agência do INSS e também já recebeu a escola da famosa professora sabarense, Dona Augusta Azeredo. Atualmente ela é de propriedade da família Munaier e está fechada.
Em cada sobrado, uma relíquia; são fatos verídicos que enriquecem ainda mais a Rua. Por exemplo, a “Casa da Tia Chiquinha”, reformada para receber as viúvas do desastre da Gameleira, em Belo Horizonte na década de 70; e mais embaixo, o imponente “Sobrado Dona Sofia”, datado de aproximadamente 1920/1930. “Dona Sofia era a filha de Coronel Jacinto; quando o prédio da família passou a abrigar a Câmara da cidade, a família do Coronel, filhos e irmãs, foram morar na casa que pertenceu mais tarde a Sofia. O solar também já foi Biblioteca Pública e hoje é a sede da Secretaria Municipal de Cultura”, ressaltou Zezinho Bouzas.
O local onde atualmente é a Promotoria Pública de Sabará também foi de pessoas de nomes importantes para o município. A casa pertenceu ao militar da guarda nacional que participou da guerra do Paraguai, Coronel Pedro Maria Carmo do Couto, que é bisavó de Zezinho Bouzas. “Essa casa sempre foi da minha família; depois do meu bisavô ela passou para as mãos de meu avô, o Mestre Antônio Arcanjo, professor, músico com composições e melodias conhecidas no Estado, além de poeta e engenheiro. Atualmente ela está alugada e recebe a Promotoria”, disse.
Como nos dias atuais, a Rua Dom Pedro II sempre foi uma ladeira considerada comercial; muitos matutos, sertanejos, caixeiros, tropeiros, entre outros; passaram por esta rua vendendo e trocando mercadorias.
As raízes da Casa de Opera
A Casa de Opera de Sabará, hoje Teatro Municipal, também é mais uma das riquezas da Rua Direita. Construído ainda no século XIX, em 1770 e reconstruído em 1819, o local foi de propriedade particular durante muitos anos, pertenceu ao padre Variano Souza Silvino junto com o Coronel Pedro Gomes Nogueira. O Teatro ficou ainda mais importante quando recebeu a visita de Dom Pedro II. Em meados de 1828 o prédio foi novamente reformado, recebendo diversas peças e operetas. Mas como nem tudo são glórias, mais de cem anos depois a Casa de Opera se encontrou novamente em ruinas, com seu telhado quase vindo abaixo. Na década de 1960 o local foi novamente restaurado e passou a ser administrado pelo Governo do Estado, através do Palácio das Artes; já na década de 1990 passou em definitivo para as mãos da Prefeitura Municipal, na qual se encontra atualmente.
A maior perda da Rua: a derrubada da Santa Rita
A rua traz alegrias em sua história, mas também carrega desrespeito e tristeza: estamos falando da Igreja Santa Rita. De acordo com Zezinho Bouzas, o templo católico foi construído por volta de 1713, sendo considerada a Igreja Matriz da cidade. A construção ficava onde hoje é a atual Praça Santa Rita e foi demolida em 1939. “A igreja foi literalmente empurrada pelo crescimento da cidade. Na época, esta rua era o acesso por onde entravam grandes carretos na cidade em direção a Fábrica Belgo Mineira. O prefeito da época, o médico Homero Machado Coelho, considerou que a igreja atrapalhava o crescimento da cidade, devido sua localização e o impedimento dos transportes de grande volume e pediu a sua demolição”, explica o historiador.
O Relatório de Demolição da Igreja está guardado no arquivo do Museu do Ouro com uma série de pontos que justificariam a derrubada do templo. A destruição foi liberada pela Arquidiocese, através de Dom Cabral, bispo da época. Nunca se soube o que fez o bispo assinar tal documento. “A Matriz Santa Rita era administrada pela Irmandade da Misericórdia. Inclusive, segundo registros, era nesta igreja que acontecia a última missa de condenados a morte, a chamada ‘Missa do Perdão’ – a pessoa participava da cerimônia antes de ser levada em cortejo até o local onde seria enforcada. A destruição da igreja é uma perda irreparável”, ressalta Bouzas.
Outros pontos importantes
O sobrado da esquina da Rua Dom Pedro II com Rua Luís Cassiano, que atualmente é o Depósito de Construção e Acabamentos, já recebeu um dos primeiros hotéis da cidade, o Hotel Brasil – o local era a principal casa de hospedagem de Sabará. Um pouco mais acima, onde é a Padaria e Confeitaria Vila Real era o espaço onde aconteciam o embarque e desembarque da “Jardineira do Olavo” – único transporte, além do trem, que fazia o trajeto de passageiros entre Belo Horizonte/Sabará/Caeté.
Ainda na parte superior da Rua, segundo Zezinho, o sobrado onde atualmente é a Loja de Tecidos Marília, já recebeu a primeira Farmácia de Manipulação Sabarense. O comércio pertencia ao sr. Joãozinho Ferreira, que em 1930 foi nomeado como primeiro prefeito de Sabará. Joãozinho também foi o dono da “Fábrica de Mármore Cor de Rosa”, sendo na época considerado um dos homens mais respeitados da cidade.
A casa do historiador Zezinho Bouzas, abaixo da sede da Promotoria, também tem suas histórias; o local foi a primeira sede do Correio de Sabará. E mais abaixo, a última casa da Rua, onde atualmente é o Conselho de Arte, já recebeu a primeira e única Fabrica de Vassouras de Sabará.
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