A destruição da estátua de Borba Gato em São Paulo dá-nos um belo exemplo do tamanho da hipocrisia humana. Alegaram que os bandeirantes não devem ser homenageados, pois escravizavam e matavam índios. Então, delicados paulistas, com grandes tratores e cívicos ardores, jogaram por terra a estátua do pobre Borba.
Os bandeirantes martirizaram mesmo os pobres índios. Mas este país, pelo Tratado das Tordesilhas, seria uma titica não fosse o atrevimento daqueles rudes homens, suas botas e seus chapelões. Eles traçaram o mapa deste Brasilzão. Não fossem eles, os espanhóis plantariam por essas bandas dúzias de países. Quando se demarcaram as atuais fronteiras, valeu o Uti Possidetis: seria Brasil onde houvesse brasileiros usando a terra. E os bandeirantes plantaram vilarejos do Oiapoque ao Chuí.
Mas os índios não prestavam mais. Era mais lucrativo escravizar os descendentes de Cã, aquele filho indiscreto de Noé. Aí pode, né? E hoje perpetuam-se em ruas, praças, becos, estradas, prédios e avenidas muitos nomes de “heróis” que encheram navios negreiros ou se omitiram diante da infame escravização africana.
A ação dos “sensíveis” quebradores de estátuas paulistas pode nos levar à dedução de que merecem homenagens apenas cidadãos, ou cidadãs, de moral imaculada. Ah, é? Se assim fosse, deveríamos destruir todos os bustos do nazista Getúlio Vargas, amiguinho de Hitler, que entregou ao ditador a Olga, esposa alemã de Prestes. Ela foi mandada por Getúlio aos nazistas e enviada a um campo de concentração. Estava grávida e foi torturada até à morte, após ter dado à luz uma filha. Mas o Getúlio foi importante para nossa história, dirão. E daí? Os bandeirantes também o foram. Aproveitem e lancem ao esquecimento o nome do grande Monteiro Lobato, pois o maior escritor de literatura infanto-juvenil do mundo era um racista de primeira. Perguntem à Tia Nastácia. Euclides da Cunha? Ele batia na esposa. O Pelé rejeitou uma filha. O Garrincha tomava suas pingas. Fora com os dois dos anais do futebol! Daqui para frente, homenagens só aos perfeitos: Rua Francisco de Assis, Avenida São Vicente de Paula, Travessa Mahatma Gandhi, Praça Irmã Dulce... Imagino s estátua de Santa Teresa de Calcutá cavalgando fogoso alasão, espada em riste, afrontando as procelas em praças dos puritanos paulistas. Como, minha senhora, Beco Luiz Alves? Não pode. Quando criança eu dava bodocadas em passarinhos...
É certo que há 300 anos os bandeirantes cometeram pecados. Há 300 anos, minha gente! Mas ajudaram a fazer este nosso mal amado Brasilzão. Eles não tiveram essa visão de futuro, claro. Mas agiram! E à custa de muito sangue, suor e saudades.
P.S.: Uma perguntinha: será que esses intelectuaizinhos derrubadores de estátuas devotam o mesmo furor cívico contra os que hoje massacram os índios, roubam suas terras, devastam suas matas, destroem suas tradições apenas para alargar pastos ou implantar garimpos? Será? Duvido.
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