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Mentirinhas

- Ô, Jacaré, me empresta uma caneta aí!

31/08/2021 11h22
Por: Glaucia Melo Clark Fonte: LUIZ ALVES

Há vários tipos de mentiras. Algumas se tornam um santo dever, como aquelas que inventamos para levantar o moral de certas pessoas. “Você quase não mudou. Está cada vez mais nova e bonita.” Santa mentira... Existem também as mentiras cabeludas que aprendemos nas escolas. Afinal, já disseram que a História não passa de um monte de lorotas escritas por alguém que não estava lá. Mas falemos das inocentes mentirinhas com que os pobres maridos tentam ludibriar suas castas esposas. Aliás, nem mentiras são; melhor dizendo, são verdades fantasiadas.

Este fato aconteceu com um dos meus amigos taxistas. Diz ele que a coisa estava ruim. Uma corridinha mixuruca aqui, outra ali, tempão parado no ponto, e as contas só chegando. Desanimador, bicho. Um dia ele não aguentou: 

- Pra mim chega. A manhã inteira aqui na praça, e nada. Paradeiro desgraçado! Vou mandar tudo às favas e tomar uma no Bar do Jacaré. Tirar a tarde para a cervejinha gelada, o bom tira-gosto, o papo legal com amigos e pronto! Pernas pro ar que ninguém é de ferro, pô! O negócio é sentar e esperar a maré ruim passar.

Bar do Jacaré. A turma chegando. A conversa cada vez mais animada, e a cerveja rolando, geladíssima. Dava até para esquecer as dificuldades. Foi quando o celular tocou. Do lado de lá, uma conhecida vozinha feminina. 

- Alô, benzinho. Onde você está?

- Rodando feito louco, meu anjo. (Era a jararaca, cara!) Não paro um minuto. A coisa tá difícil. Pra pagar nossas contas, estou matando jacaré a beliscão. 

Falou, piscou o olho pra galera e virou mais um copo, estalando a língua. Jacaré, o dono do bar (e não o dos beliscões, é lógico) já chegava com o tira-gosto.

- Pobrezinho - pensou a iludida. Mas anime-se, pois nossa vizinha quer te contratar para uma longa corrida amanhã. Bom, né? Anota aí o telefone dela.

- Oba! Até que enfim! Um minutinho só, amor - diz o eufórico marido. 

 Ah, companheiros e companheiras, pra quê... Os orixás das esposas são implacáveis. O infeliz corre até o balcão, estufa o peito e berra para o dono do bar:

- Ô, Jacaré, me empresta uma caneta aí!

Imagine você como foi a volta do pobre taxista ao lar. O grito de “Jacaré” revelara à esposa onde estava o marido, aquele safado! Pois é, se as mentiras têm mesmo pernas curtas, como dizem, as pernas de algumas até que são curtinhas demais.

 

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