Em uma madrugada qualquer chegaríamos bem antes do carnaval; acomodaríamos em qualquer banco de praça, em qualquer coreto, ainda nesta cidade. Mendigaríamos comida, água, roupa, calçados; andaríamos às vezes juntos, às vezes em dupla, mas nunca sozinhos. Não aceitaríamos teto ou quaisquer proteção; evitaríamos permanecer por muito tempo num mesmo local; manteríamos sempre a nossa fala coloquial, portanto nada de política, nada de polêmicas, nada de fanatismo ou passional. Respeitaríamos as autoridades, jamais envolveríamos com os moradores de rua, suportaríamos ao máximo a mesma roupa imunda. Será mister alguns desmaios, alguns vômitos ou falar consigo mesmo coisa com coisa; essa atitude convencerá bastante os transeuntes, quanto a nossa demência, exceto o atentado ao pudor!
Quiçá estaríamos presentes em quase todas as manifestações públicas, como se tudo fosse uma festa, importunaríamos a todos com a nossa presença “embriagados” de água camuflada em garrafa de aguardente. Se for para cantar, cantaremos desafinados, atropelando as estrofes em falsetes ou coisa parecida, dançaríamos até a exaustão uma coreografia improvisada por nós, porém, descompassada e hilária. Nisso, cada qual observaria o outro vigiando a nós mesmos. Será uma maneira de proteger nossa integridade física.
Lembrem-se que, o relento será a nossa proteção além de Deus. O céu será o nosso telhado. Nossa sentinela nosso esteio. De vez em quando forjaremos uma contenda entre nós, porém, sem fraturas ou contusões. Não acumularíamos bugigangas, sem documentos, bastaríamos somente um radinho de pilha.
E quando o carnaval chegar cataríamos latinhas de alumínio pela avenida central, pediríamos um trocado, um cigarro, algo pra comer, infiltraríamos nos blocos dos sujos e certamente seríamos iguais na multidão, devido a nossa insignificância e a indiferença dos foliões, enquanto durar a festa momesca, sendo assim, estaríamos acima de qualquer suspeita, se quisermos atingir o nosso objetivo.
*Por Sérgio Pacheco Artista plástico e poeta
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