Sem maestro, sem cultura; Sinos centenários dormem no esquecimento de sua tradição
O Toque dos Sinos em Minas Gerais é uma forma de expressão sonora produzida pelas igrejas católicas com o objetivo de anunciar rituais religiosos e celebrações, como festas de santos e padroeiros, Semana Santa, Natal, atos fúnebres e marcação das horas, entre outras comunicações. A estrutura dos toques, ocasião ou acontecimentos que determinam a maneira de se tocar esse instrumento: com o sino parado são pancadas, badaladas e repiques; com o sino em movimento se tocam os dobres (reviravolta dos sinos); em celebrações festivas os ritmos devem ser acelerados; já em ocasiões fúnebres toques mais lentos e solenes – compassados.
A pessoa que se dedica ao saber do toque dos sinos e a prática de operar esse objeto é chamadas de sineiro. O Ofício de Sineiro foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Os sineiros são, portanto, os detentores e os responsáveis pela reiteração e transmissão da habilidade e conhecimento da arte de tocar esse instrumento, pois essa prática não se aprende na escola. Dessa forma, quando uma cidade não conserva a tradição, a arte de tocar os sinos com sabedoria acaba; assim aconteceu em Sabará.
Na cidade, rica na cultura Barroca, a arte de tocar os sinos mantendo o significado das melodias foi levada junto com o tempo. Antes as badalas traziam músicas e som para Sabará, os sinos imperavam respeito. Hoje, apenas se ouve diariamente o badalar do relógio da Igreja Nossa Senhora do Carmo ou o toque tímido do relógio da Igreja São Francisco de Assis. Às vezes, um ou outro repique fúnebre também é transmitido das torres do Carmo. Na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, se ouve dois ou três repiques desafinados avisando os fiéis sobre o início da missa. O glamour da melodia, o badalar anunciante, o som imperativo: tudo acabou. Os sinos se calaram na cidade.
Segundo o padre Rogério Messias, existem diversos motivos para que a tradição dos sineiros tenha acabado na cidade, como a falta de interesse e, principalmente, as peças danificadas pelo tempo. “Os sinos conseguem conversar com a comunidade, cada badalada traz um significado, uma ação. As batidas têm acontecido apenas na Igreja do Carmo; na Igreja São Francisco e na Igreja das Mercês os sinos estão estragados. As peças estão rachadas e não aguentam badalar. Como são obras históricas gerenciadas pelo IPHAN, ainda estão aguardando uma oportunidade de restauração”, disse.
Do piso até o final das torres da Igreja São Francisco são quase 30 metro de altura. O sino principal está com a beirada quebrada, o pêndulo não é mais o original, o objeto datado de 1830 está visivelmente danificado pelo tempo. Os outros sinos precisam de restauração na madeira e também estão rachados.
Ninguém liga:
os sinos morrem!
De acordo com o historiador, Zezinho Bouzas, a tradição dos sineiros acabou na cidade há cerca de 40 anos. Ele acredita que o motivo seja a falta de interesse da igreja e seus responsáveis. “Há uma comodidade nesta cidade que me impressiona; se uma peça estraga demoram-se anos para consertar, a própria igreja não se move em benefício de suas obras. Os sinos estão realmente estragados; hoje infelizmente não tem ninguém aqui no município que entenda sobre os toques. E pior, os sinos se calaram e as pessoas não ligam para isso, deixaram a tradição morrer”, disse.
Zezinho atualmente é o responsável pelo patrimônio da Ordem Terceira do Carmo, irmandade na qual pertence à Igreja Nossa Senhora do Carmo. O monumento possui cinco sinos, porém, segundo o historiador, a base de madeira que segura o sino principal está comprometida, por isso o instrumento não pode badalar. “Como sou responsável por este patrimônio vou procurar uma pessoa que possa resolver este problema. No caso dos sinos das demais igrejas, antes de tudo, tem que haver interesse da comunidade; depois é preciso informar o IPHAN sobre o problema. Somente teremos como reviver a tradição das melodias se os sinos estiverem em bom estado”, ressaltou.
No momento, no centro da cidade, a igreja São Francisco e a Igreja do Carmo são as únicas que tocam os sinos de hora em hora. Os toques acontecem através de um mecanismo automático: o aparelho do relógio da igreja São Francisco é de 1881 – o relógio já foi conhecido como Regulador Municipal. Já o mecanismo da igreja do Carmo é de 1780.
A Secretaria
de Cultura
Em nota, a Secretaria de Cultura informou que não foi feita qualquer comunicação formal, por parte da Arquidiocese de Belo Horizonte, quanto ao estado de conservação dos sinos, porém o órgão diz estar ciente dos problemas. “No 2º semestre de 2014, a Secretaria conversou e se reuniu com diversos sineiros do Centro Histórico (igrejas de São Francisco, Rosário, Mercês, Carmo e Conceição) com a finalidade de se informar a respeito da situação do ofício hoje e, a partir disso, elaborar um projeto para a salvaguarda desse bem imaterial. No projeto, estão previstas ações de documentação, conservação e transmissão do ofício. No que diz respeito às condições materiais para sua perpetuação, foram incluídas ações de diagnóstico sobre o estado de conservação dos sinos; de manutenção de cinco cabeçotes e torres sineiras; e de restauração ou refundição de ao menos um sino. O projeto foi aprovado em chamamento público do IPHAN para a salvaguarda de bens Registrados como Patrimônio Cultural do Brasil e aguarda hoje a assinatura de termo de convênio com o órgão para liberação da verba”, informou a Secretaria.
Ainda de acordo com o órgão, em março deste ano, por ocasião da Semana Santa, o historiador da Secretaria realizou visitas técnicas a três igrejas (São Francisco, Rosário e Carmo) e uma capela (Pilar) do Centro Histórico, nas quais os sinos também foram observados. Um relatório sobre a Igreja do Carmo (por esta ser, em todos os aspectos - inclusive o dos sinos -, a mais preocupante) foi encaminhado à Superintendência do IPHAN-MG na mesma época.
O IPHAN
De acordo com a coordenadora do Plano de Salvaguardo do Toque dos Sinos e do Ofício de Sineiro em Minas Gerais, Corina Rodrigues Moreira, do IPHAN MG; os sinos não estão reconhecidos como patrimônio cultural do Brasil, mas sim os toques dos sinos (a linguagem dos toques, como forma de expressão) e o ofício de sineiro (o saber tocar os sinos). Ela esclarece ainda que, para que esse patrimônio seja salvaguardado - os toques e o saber -, é essencial a boa manutenção de sinos e torres, e na medida do possível o órgão tem estado atento às suas condições, especialmente em igrejas tombadas ou em área de tombamento federal e, sobretudo, quando é notificado sobre essas condições.
Ainda segundo a coordenadora, o IPHAN não foi notificado sobre os problemas dos sinos em Sabará - e se o foi, não está encaminhado junto ao setor técnico da autarquia. Corina diz ainda que não há, no momento, nenhum projeto que vise a revisão das melodias dos sinos.
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