Ao reler a 1ª edição da Folha de Sabará, em suas páginas amarelecidas pelo tempo, saio viajando. Há 25 anos entra num gabinete que eu ocupava, certa jovem mui bela e hermosa.
Era filha do Bernardino, grande vereador e das melhores pessoas com quem Deus me deu o privilégio de conviver. A moça era jornalista. Trazia debaixo do braço um monte de papel que depositou sobre minha mesa. No seu dizer, era a ?boneca?, um projeto de jornal que pretendia trazer para nossa cidade. Aqui nós tínhamos a ?Gazeta Sabarense?, jornal bem simples mas de suma importância. Mas o ?Grilo? já se preparava para abandonar este mundo e nos deixar órfãos de imprensa escrita.
A moça ia falando, mostrando projetos, sua maneira de atuar e eu, sabedor da importância de um jornal na comunidade, pois sem imprensa não existe democracia, ia prestando atenção. Ela acabou a exposição, botou a papelada de volta debaixo do braço e ficou me olhando. Aí uma ?vozinha? sussurrou na minha cabeça:
- Entra nesse barco que tudo vai dar certo.
- Tô nessa. Bola pra frente, falei, acreditando na ?vozinha?
Fiz bem. A ?vozinha? estava certíssima. Não se tem notícia de um jornal que tenha resistido tanto tempo em Sabará. E de forma tão influente.
Continuando a reler a 1ª. Edição, constato que o carinho com nossas tradições, o compromisso com a verdade, o interesse pelos problemas continuam o mesmo. Aliás, na 1ª. Edição, há uma ampla reportagem sobre a encenação que o Cena Aberta fez das "Cenas da Paixão?, naquela 6ª. Feira Santa de 89. Grande coincidência, pois se não fosse a prestimosa intervenção da referida jornalista, talvez a encenação não ocorresse neste ano de 2014.
Ao escutar pelas nossas barrocas ruelas opiniões favoráveis (muitas) e desfavoráveis (algumas) sobre a Folha, fico deveras satisfeito. Alguém já disse que toda unanimidade é burra. No caso da imprensa, a coisa preocupa mais, pois a unanimidade pode ser adquirida através de um polpudo cheque. E, quando vejo a Fanny reclamando de dificuldades financeiras, fica-me a certeza de que este é o preço que pagamos pela nossa independência.
Vou deixar uma crônica prontinha para os 50 anos da Folha de Sabará. Certamente não me encontrarei mais aqui. Mas o jornal, com certeza, estará circulando com a mesma responsabilidade, exercendo sua bendita função de mostrar o que é bom, apontar mazelas, incentivar a cultura, preservar tradições, vestir a camisa de Sabará. E vocês lerão a crônica de um defunto autor. Ou autor defunto.
Vou caprichar. Quero, lá do outro lado, escutar os lisonjeiros - se bem que imerecidos - elogios que hoje meus bondosos leitores me tem dispensado.
Luiz Alves
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