Segundo alguns pesquisadores o rádio chegou oficialmente no Brasil em 7 de setembro de 1922. Durante uma exposição no Rio de Janeiro, vários empresários americanos que vieram ao país trazendo com eles a tecnologia de radiodifusão, instalaram uma estação de 500 W e uma antena no pico do morro do Corcovado e deu ao público a oportunidade de ouvir o pronunciamento do então presidente da república, Epitácio Pessoa, e a ópera O Guarani, de Carlos Gomes. De lá para cá esse objeto sonoro fez história no nosso país.
Poucos sabem, mas as telenovelas eram na verdade radionovelas. Músicas eram conhecidas apenas nas estações de rádio que mantinham seus programas ao vivo e com transmissão, através do rádio, para a população.
O tempo constrói histórias, mas também apagam memórias e defasam objetos; assim aconteceram com os rádios. Hoje, nos resta encontrar pessoas que se dediquem a preservação desses objetos que ajudaram a escrever a trajetória do país, é o caso de Fabiano Starling,
Nascido em Londrina, no Paraná, Fabiano veio para Sabará com 3 anos de idade. Hoje com 38 anos e formado em técnico de eletrônica, foi apresentado à arte da restauração de eletrônicos através do trabalho do restaurador sabarense, Fernando Casas. Muito além de um simples trabalho, Fabiano aprendeu a arte de restaurar histórias: ele passou a consertar rádios antigos, que já estavam desligados há anos por seus donos.
“Prestava serviço de informática para uma amiga e ela me apresentou o Fernando. Um dia conversando com ele surgiu um assunto sobre válvula e eu nem sabia o que era. O Fernando Casas foi um dos maiores colecionadores de rádios a válvula do Brasil. Ele me mostrou para que servia cada peça desses aparelhos e imediatamente eu me apaixonei por esse tipo de trabalho que, para mim, é preservar histórias”, explica.
A loja de Fabiano “Technology Soluções em Tecnologia”, já existe há oito anos, mas o trabalho de restauração só começou há pouco menos de um ano. Além dos consertos dos rádios, o técnico em eletrônica oferece ainda serviços para concessionárias de energias em todo o Brasil.
O trabalho de conserto e restaurações é realizado dentro da própria loja, assim como a fabricação dos moldes e das peças que já estão inexistentes no mercado. Apenas as configurações dos objetos, como antena e sintonias, são feitas na casa de Fabiano; e seu trabalho já vem ultrapassando terras sabarenses.
“Os clientes são de todo Brasil, já recebi pedido de consertos de rádios de São Paulo por exemplo. Acho o máximo, pois minha intenção é preservar a história que esses objetos representam para os seus donos. Tenho visto as pessoas falando ‘radio velho pode jogar fora’; isso me corta o coração, pois esses eletrônicos fizeram parte da história não só do país, mas das pessoas também. Trazer esses rádios de volta a vida é muito gratificante”, ressalta.
Ainda de acordo com Fabiano, a dificuldade de encontrar profissionais que executam esse tipo de conserto, também faz com que as pessoas optem pela compra de um aparelho novo e acabam aposentando o rádio antigo. “As reformas desses eletrônicos quase sempre requer um serviço exclusivo para cada aparelho; como por exemplo, o trabalho de marchetaria - que são várias folhas de madeira mescladas. Isso da um visual único, parecido com as caixas originais desses objetos. Então realmente é difícil achar quem faça esse tipo de trabalho e por isso nem todo mundo opta pela restauração”, disse.
Além de colocar os aparelhos em perfeito funcionamento, Fabiano preserva as marcas que os rádios trazem com o tempo de uso; mantendo assim, a relação do objeto com seu dono. “Eu prefiro deixar certas marcas do tempo, para que fique registrada a história do rádio. Não faz sentido restaurar os aparelhos e deixá-los parecendo que foram comprados hoje. Como a eletrônica permite a atuação em diversas áreas, faço também manutenções eletrônicas em equipamentos de estética fisioterápicos. Mas o trabalho de restauração que me deixa mais feliz, não pelo retorno financeiro, mas pelo prazer de manter a história dos rádios no Brasil”, conclui.
Logomarcas, peças interiores, botões, antenas, a caixa de madeira; tudo é refeito pelas mãos de Fabiano Starling. Ao passar por sua loja, as vitrolas deixam de ser meros bibelôs na estante das salas, e ganham novamente a voz em seus alto falantes renovados. Sucatas datados de 1955 ou 1920, valendo apenas 200 reais no mercado, são entregues aos donos com valores que ultrapassam os cinco mil reais.
Starling trabalha sozinho em sua loja que fica na Rua Marieta Machado, no centro de Sabará. Além do local, os contatos também podem ser realizados través da página da loja no Facebook.
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