“(...) Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, (...)” – Liberdade, poema de Fernando Pessoa in Cancioneiro.
Quando podemos assistir uma criança pequena brincando sem que ela nos perceba, temos a rara chance de contemplar um ser inteiro no que faz. Seja o brinquedo uma cantiga inventada na hora ou um objetozinho qualquer, lá está ela, toda fulgurante em sua plena atenção no brincar. E é aí que tudo pode acontecer: A maneira como ele coloca toda essa aceitação e perseverança em alguma coisa é justamente a chave da formação deste ser.
Muitas vezes, a maioria de nós, os adultos ocupados, nem mesmo nos damos conta desta metamorfose lenta e quase definitiva que acontece embaixo do nosso nariz. As crianças transformam seus interesses em objetos do desejo e se dedicam com afinco a viver intensamente todos os momentos possíveis com eles. Passado algum tempo, o que era ‘o máximo’ deixa de sê-lo e é abandonado quando algo ‘incrível’ ocupa o seu lugar.
Aliás, muito parecido com os adultos...
O que desejo iluminar aqui, é que neste processo, o que vai sendo elaborado é o desenvolvimento do sentimento através das sensações e emoções que são legítimas, soberanas e que pertencem à criança em toda a sua extensão. Esta é a maneira que cada uma tem de se relacionar com o objeto do desejo.
Temos o hábito de invadir este espaço acreditando que podemos controlar a essência do outro e perdemos a gigantesca oportunidade de observar quais são as inclinações e índole inerentes a esta pessoa em desenvolvimento. Simplesmente não enxergamos a criança, mas sim o que nos agrada ou desagrada em sua maneira de ser. Julgamos e agimos de forma automática e condicionada. Deixamos de auxiliar para dominar.
É preciso que respeitemos a verdade desta pessoa em pleno desenvolvimento, auxiliando e intervindo em setores secundários deste processo. O que podemos e devemos é esclarecê-la e dizer não (mais vezes do que sabemos) a algumas escolhas de objetos do desejo que chegam antes da hora certa. O ‘não’ para ‘o que’ e não para ‘o como’. Orientar enfim, não castrar.
Apesar de ser a nossa maior expectativa, amar não implica em receber recompensas. Por ser dinâmico, o amar trás o que se dá, nas não no tempo e do jeito que exigimos. Ao contrário, a única condição do amar é estar pleno e inteiro para realmente ver o outro como ele é e se prontificar a auxiliá-lo em sua necessidade e desenvolvimento.
Falta muito para conseguirmos esta atitude de amor, mas se apenas observarmos as crianças, gentil e afetuosamente, já estaremos a meio caminho.
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