Como sempre, a Semana Santa em Sabará foi um espetáculo em que nossas melhores tradições se fizeram presentes. Desde a Procissão de Ramos até a Missa da Ressurreição, o que se viu foi a séria participação dos católicos, que saíram às ruas e encheram os templos para expressar sua fé naquele que, através de pregação revolucionária, mudou o mundo e por isso foi condenado à mais infame das mortes.
Padre João Carlos, pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, explica que a Semana Santa é chamada dessa forma por causa da instituição da Eucaristia, pois é o ponto mais forte, mas dentro do contexto existe a morte de Jesus e sua ressurreição a qual a Igreja vive em sua função. Logo, a Semana Santa celebra o fundamento desse tripé, a instituição da Eucaristia, a morte de Jesus e Sua ressurreição.
Como não poderia ser diferente, os destaques das comemorações foram, entre outras, a Cerimônia de Lava-Pés, as procissões de Enterro e de Encontro, a Via-Sacra na madrugada de Sexta-Feira ao Morro da Cruz, a Missa da Ressurreição, a encenação das Cenas da Paixão, pelo Grupo de Teatro Cena Aberta, e a Abertura do Sepulcro. A Folha, atendendo sugestão de inúmeros leitores, permitiu-se não só registrar os eventos, mas também discutir alguns aspectos que foram observados. Com isso pretendemos contribuir para que a Semana Santa em Sabará continue com seu brilho. Nossos parabéns aos organizadores.
Algumas Reflexões
Procuramos conversar com sabarenses antigos, para colher deles alguns dados que nos permitissem confrontar as manifestações religiosas do seu tempo com as atuais. Alguns falaram sobre o afluxo do público, principalmente nas procissões. Outros discorreram sobre mudanças que aconteceram ou precisam acontecer. Vamos às opiniões colhidas nos templos e ruas.
1. As procissões se esvaziaram. Isso porque a religião católica perdeu muitos adeptos. Todavia, a maioria dos que preservam a fé romana insistem em dizer que foram os infiéis, os chamados católicos de fachada, que mudaram de camisa - se é que vestiam alguma camisa - que não mais comparecem aos eventos.
2. Hoje em dia a mídia nos oferece mil atrativos. Naqueles tempos as cerimônias da Semana Santa representavam um acontecimento, uma obrigação social a que se deveria comparecer. As pessoas compravam roupas, se embonecavam para participar da festa. Hoje em dia, explicam alguns respirando aliviados, a participação é mais espontânea, mais autêntica. Se houve queda na quantidade dos fiéis, ganhou-se, muito, na qualidade deles.
3. Alguns ainda estranham o fato de a cerimônia de Lava-Pès, na paróquia do Rosário, ser celebrada em uma quadra esportiva e não numa das muitas e belíssimas igrejas da cidade. Mas a justificativa dada pelos organizadores convence muita gente. Dizem eles que o comparecimento do público tem sido tão grande que nossas igrejas não forneceriam aos fiéis o devido conforto para acompanhar mais intensamente tão tocante comemoração.
4. A encenação das Cenas da Paixão, mais uma vez, reuniu uma multidão nas ruas e praças. O Grupo, que passa meses ensaiando, apresenta um espetáculo que é muito querido da população sabarense e que vem atraindo gente de toda a região. Alguns ônibus especiais trouxeram muitas pessoas de cidades próximas. O Grupo está feliz com o resultado de seu esforço e promete novidades no próximo ano.
5. Conversamos com um senhor, gente humilde e sábia, que fez algumas observações sobre a Abertura do Sepulcro. Ele pediu que seu nome não fosse revelado, pois tem medo de ser mal interpretado. Ele disse que vê com alegria a igreja a cada ano mais cheia nas quintas-feiras, quando tradicionalmente acontece a mais sabarense das manifestações religiosas. Ele se encanta ao ouvir o Coral Flos Carmeli, ao ver as pessoas com ramos de manjericão, os sabarenses fazendo vigília ao Senhor Morto e, mais recentemente, ver o Fechamento do Sepulcro, cerimônia que ainda não tem a divulgação que merece. Todavia, esse senhor faz uma crítica que precisa ser ouvida com bastante atenção. Vamos transcrever suas palavras.
“A Abertura do Sepulcro, como eu aprendi, é coisa do povo sabarense. É criação popular, não faz parte da agenda oficial da Igreja Católica. Me lembro com “tristura” quando alguns vigários falavam mal da “Abertura”, como se a gente estivesse cometendo um pecado. Hoje, graças a Deus, temos o Padre Rogério, um vigário que participa de tudo e valoriza o evento. Mas eu acho que as pessoas que organizam a cerimônia estão tirando “ela” da mão do povo e entregando pra Igreja. Sempre um sabarense falava na Abertura, explicando a origem e o significado da cerimônia. No dia em que o seu Luiz Alves falou, todo mundo adorou. Por que isso acabou? ‘Tão’ tirando o povo da jogada? Neste ano o padre fez a abertura. Felizmente ele ‘tava’ lá, valorizando. Porém, apesar de adorar o nosso vigário, foi tudo muito frio, sem qualquer emoção. Mas e se esse padre, que é gente nossa, for embora e vier pro seu lugar um daqueles que acham que a Abertura do Sepulcro é idolatria, como diziam? Sei não.”
Reflitamos sobre as interessantes observações desse devoto do Senhor Morto.
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