“Eu sempre evitei o desperdício”, diz a arquiteta sabarense Luciane Oliveira. Baseada neste conceito ela constrói há quatro anos uma casa no bairro Francisco de Moura com materiais disponíveis, ou seja, aqueles que são encontrados e podem ser reutilizados.
Todo o material usado na construção da casa foi retirado de restos de outras construções, encontrados em caçambas de Belo Horizonte, doados por amigos que estavam fazendo algum tipo de reformas ou comprados por valores bem abaixo do mercado. E ainda, achados no depósito de material de construção da família, como algumas ripas que não são vendidas, pois têm tamanhos irregulares e por isso ficaram paradas no galpão por muito tempo.
Além de uma casa no mínimo surpreendente, pela forma que está sendo construída, quem chega ao local se deslumbra também com a paisagem. Do segundo andar a vista é privilegiada, onde se vê todo o Centro Histórico de Sabará, com destaque para a fachada das igrejas do Carmo, Mercês, Rosário e São Francisco.
Bem, agora vamos entrar nos detalhes curiosos dessa casa de 32m² e dois andares. As paredes são variadas, elas foram feitas de terra crua, utilizando a técnica taipa de pilão, de adobe, de entulhos é até de portas. Exatamente, portas antigas que juntas se transformaram em uma parede, dando um aspecto totalmente diferente para o cômodo e até mesmo divertido, já que as maçanetas não foram retiradas e é praticamente impossível chegar no local e não tentar abrir aquela “porta parede”.
A ideia do barro foi a primeira, talvez inspirada nas construções sabarenses, onde muitas foram feitas nesse estilo. Ela destaca que uma casa construída na forma de taipa é muito agradável e resistente, o que podemos constatar nas construções centenárias da cidade. Outra vantagem que Luciana enxerga nessa forma de construção é que mesmo que a casa seja derrubada um dia, não existirá muito entulho, já que boa parte foi feita de terra, “ela vai voltar, de onde ela veio”, diz.
Já o material da parede de entulho foi conseguido nos bota-foras que existem no Marzagão, no caminho entre Belo Horizonte e Sabará. Ela conta que foram duas semanas para levantar a parede, como morava em BH, Luciane pegava o pedreiro no Cafezal e vinham por esse caminho, eles paravam, recolhiam os entulhos e trabalhavam com o material recolhido no dia.
O telhado do primeiro andar foi feito com pisos de tábuas corridas encontradas em uma caçamba, Luciane considera a caçamba a mais preciosa de sua vida. Por cima a cobertura é de plantas, utilizando o conceito de telhado verde.
Luciane morava em um prédio em Belo Horizonte, os moradores decidiram trocar todas as janelas do prédio, foi a chance da arquiteta trazer mais materiais disponíveis. Hoje são elas, as janelas de sua casa.
Até placas de um prédio comercial de Belo Horizonte estão no local, elas trazem várias indicações, como andar, números de salas e outras e na casa de Luciane serviu para fechar parte do banheiro. Do mesmo prédio veio também uma porta com a indicação toillete, que vai se integrar à “parede de portas”.
Luciane faz coleta da água de chuva, são quatro caixas d’água que são alimentadas apenas pela água da chuva, claro, todas elas foram encontradas “por aí“. Além das caixas, existe um galão que também armazena a água da chuva. Essa água é usada na manutenção da casa.
Embora a casa não esteja pronta, já existe uma moradora no local. A artista plástica e professora de alemão, Thais Valadares, diz achar muito bom morar na casa. Ela fala que o ambiente é muito bom e que transmite muita paz o que contribui para seu trabalho, tanto como artista plástica como para o estudo do alemão queé preciso concentração.
A ideia de fazer a casa aconteceu no momento em que Luciane deixava uma empresa da qual era sócia, em Belo Horizonte. A princípio o lote comprado com os sócios, seria para a construção de quatro moradias geminadas, para investimento, com o fim da sociedade, comprou a parte dos sócios e se viu livre para fazer o quisesse
Luciane pretende mudar para casa daqui cinco anos, por enquanto ela se divide entre o Brasil e a Suíça, onde mora com o marido suíço.
A arquiteta afirma que a primeira parte da casa foi toda feita com materiais disponíveis, mas foi muito demorado, apesar de ser exatamente esse o conceito, já a segunda,que está sendo feita agora, Luciane quer a construção rápida e seca, ou seja, sem utilizar argamassa, usando estrutura de metal.
Para terreno de 450m², Luciane ainda tem algumas ideias, como a construção de habitáculos, que seriam habitações de apenas 12m², com cama e guarda-roupas, banheiro e cozinha seriam comunitários.
Para Luciane, a construção da casa mostrou que quando queremos algo as coisas acontecem, tudo vai bem, as relações, o financeiro aparece, tudo se encaixa. Ela conta que durante a obra muita coisa muda, “eu subo para a obra com um planejamento, com um pensamento, quando chego aqui, tudo muda, acontece várias surpresas e, o bom é que é sempre para melhor, é surpreendente. A certeza é que a casa é exatamente do jeito que eu quero”, afirma. Para ela, a casa é onde tudo está certo, onde consegue se sentir livre.
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