A autoridade municipal brigou com representantes da autoridade federal. Ninguém fazia e ninguém deixava fazer. Enquanto isso a igreja do Carmo sangrava: telhado em ruína, paredes encharcadas, fios elétricos desencapados, orgia de cupins. E as obras do Aleijadinho enroladas em lonas pretas. Do lado de fora do templo, frustrados amantes da arte. Do lado de dentro, a arte envolta em luto.
Após 6 anos de abandono irresponsável, o Ivan Silva entra no gabinete de um prefeito que havia tomado posse há poucos dias e diz:
- Se você quiser, dentro de um ano e meio a igreja estará prontinha para ser reaberta. Só preciso disto, disso e daquilo.
Topam. E mãos à obra. Ele pega sua equipe, seu amor às nossas coisas, aliados ao seu formidável talento, e põe tudo a serviço do precioso resgate. Um ano e meio depois, exatamente num 16 de julho, dia da Santa, a Igreja do Carmo é reaberta ao público. Dentro do prazo.
E igreja estava brilhando como nunca. Nas pinturas do teto, nas talhas em ouro, no novo telhado, na madeira livre das traças, víamos, emocionados, o amor de um sabarense honorário se mostrando, esplendoroso. Os olhos de Simão Stock e João da Cruz nunca estiveram tão arregalados. Milagre! Puro milagre! No adro da igreja, em meio ao estrondar dos fogos, descerrou-se uma placa. Nela, constavam os nomes do Ivan Silva, de outras pessoas e referências à história da reabertura do templo. Pouco tempo depois, a placa foi cuidadosamente retirada e oficialmente jogada no lixo. Nada de espantar, pois o reconhecimento nunca foi característica do ser humano.
Tive a honra de acompanhar o trabalho do Ivan Silva na DIPHAM, Divisão do Patrimônio Histórico e Artístico Municipal. É verdade, amigos, havia um setor da prefeitura que cuidava do nosso patrimônio. O restaurador Ivan Silva era o Chefe. Incalculável a importância do serviço que foi prestado pela Divisão na catalogação, preservação e restauro de nossos bens culturais. Mas acabaram com a DIPHAM. Entenderam que... Sei lá o que entenderam.
Do meu cantinho traço um paralelo ente a vida do Ivan Silva e o destino da placa retirada do adro da Igreja do Carmo. Diferem quando constatamos que esta foi arrancada e jogada por aí. Já o Ivan está ali, na Rua da Intendência. Enquanto a placa vai se enferrujando no lixo, o artista brilha em meio à arte que produz e enobrece sua bela casa. Mas num ponto podemos aproximar os destinos dos dois. Ao retirarem a placa, disseram que a história nela contada não merece qualquer valor. Ao esnobarmos o talento do Ivan Silva, também damos uma banana para a preservação de nossa história. Uma história que, parece, talvez nem a mereçamos.
Luiz Alves