No dia 25 de julho de 2025, Sabará se despediu de uma de suas maiores referências de fé, trabalho e solidariedade: D. Maria do Moínho D’Água. Como era bom conversar e ouvir suas histórias.
É por isso que a Folha de Sabará pediu uma ajuda super especial ao seu filho e nosso amigo, Silas Fonseca, para deixar registrado este tributo. Com seu dom de narrar e fazer poesia, Silas nos contou a história de sua mãe e nos ajudou a eternizar essa homenagem.
Nas páginas da Folha, D. Maria sempre foi sinônimo de orgulho, inspiração e boas notícias. Não poderíamos, de maneira alguma, deixar de registrar este marco em nossa memória coletiva.
Maria Torres da Fonseca nasceu em 12 de setembro de 1930, em Taquaraçu de Minas. Filha de agricultores, cresceu ajudando os pais e os 18 irmãos na lida com a terra. Aos 20 anos, casou-se com Ismael da Fonseca e permaneceu alguns anos na fazenda da família, até que, em busca de melhores oportunidades para os filhos, mudaram-se para Sabará, mais precisamente para Pompéu.
O início foi duro: durante a viagem, o dinheiro da venda da fazenda foi furtado. Sem recursos, Ismael passou a viver de biscates, enquanto D. Maria se reinventava na cozinha, produzindo quitandas que os filhos vendiam para ajudar no sustento da casa.
A família cresceu — foram 13 filhos de D. Maria, além dos três do primeiro casamento de Ismael. Em 1973, ela perdeu o marido e assumiu sozinha a criação de 16 filhos, enfrentando a vida com coragem e fé.
Solidariedade que alimentou gerações
Apesar das dificuldades, D. Maria nunca deixou de ajudar os vizinhos. Da horta de casa e do moinho, saíam verduras e fubá que socorriam famílias inteiras. Foi assim que construiu, além de sua história, uma reputação de mulher solidária, que dividia o pouco que tinha.
Nos anos 1980, participou da Feira de Produtores em Sabará, onde suas broas, fubá, canjiquinha e farinha torrada passaram a ser disputados. Logo ficou conhecida como D. Maria do Pompéu.
Do improviso ao prato símbolo de Sabará
Nos anos 1990, um episódio inesperado mudaria sua trajetória. Um argentino lhe deixou 1.500 marrecos no sítio e desapareceu. Sem condições de alimentar as aves, D. Maria transformou a dificuldade em oportunidade: apresentou no Festival da Cachaça o prato ora-pro-nóbis com marreco, que foi um sucesso absoluto.
A receita projetou seu nome e deu origem, em 1997, ao Festival do Ora-pro-nóbis de Sabará, evento que se tornou uma das marcas culturais e gastronômicas da cidade. No mesmo ano, D. Maria abriu seu restaurante, que cresceu e passou a receber centenas de clientes todos os fins de semana.
Coração generoso, mesa farta
D. Maria dizia que o restaurante nunca a tornou rica, mas lhe permitiu ajudar quem precisava. Igrejas, escolas, times de futebol, grupos da terceira idade e entidades culturais sempre contaram com sua colaboração.
O presidente do Conselho Pastoral Comunitário de Pompéu, Gilberto Pinto, resumiu sua importância:
“Quisera Deus que tivéssemos três mulheres como D. Maria em Pompéu. A comunidade seria outra, muito melhor”.
Despedida e memória
Aos 94 anos, D. Maria partiu cercada por seus filhos, netos e bisnetos, deixando um exemplo de vida pautada no trabalho, na fé e na generosidade. Reconhecida como Cidadã Honorária de Sabará, recebia semanalmente cerca de 1.200 pessoas em seu restaurante, que buscavam não apenas comida, mas também histórias, carinho e acolhida.
Em suas próprias palavras, pouco antes de partir:
“Tenho orgulho de tudo que fiz e agradeço a Deus por me ter possibilitado vencer”.
Nas páginas da Folha de Sabará, D. Maria sempre foi motivo de orgulho. Hoje, sua despedida se transforma em memória escrita, para que sua história continue inspirando Sabará e Minas Gerais.
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