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“O crack não aceita ter amigos”

“O crack não aceita ter amigos”

19/03/2015 10h50
Por: Glaucia Melo Clark
“O crack não aceita ter amigos”

Gustavo Henrique Leite de Oliveira tem 34 anos, atualmente ele é estudante de psicologia, palestrante, empresário, funcionário da Câmara Municipal de Sabará e ministro da Eucaristia, mas nem sempre sua vida foi tão agitada assim. Por quase 20 anos ele esteve envolvido no mundo das drogas e chegou a um ponto que a única coisa que importava em sua vida era se drogar, ?eu vivia para usar e usava para viver?, diz em relação ao crack. Em uma bate papo ele nos conta como entrou, viveu, sobreviveu e saiu de uma vida que muitos infelizmente não encontram saída.

Gustavo diz que a primeira pergunta das pessoas em relação aos usuários de drogas é porque as pessoas entraram nessa, ?baseado na minha experiência e também em estudos eu aproximei da resposta: é a falta de amor?. O estudante de psicologia conta que a entrada para as drogas no seu caso se deu justamente pela falta de amor, mas ressalta que isso não era real, foi ele quem criou em sua mente que não era amado, mas na verdade o amor que recebia da família não era da forma que gostaria.

A droga que abriu as portas para Gustavo foi o álcool, como é comum na maior parte dos casos, por ser bem aceita pela sociedade. Ele tinha entre nove e dez anos quando começou a bebericar a cerveja de seu pai, ?ele nos levava para os botecos e comprava refrigerante pra gente, mas quando saía da mesa para jogar sinuca, eu bebia a cerveja dele. Eu ficava chateado, e me perguntava: Por que meu pai não está aqui comigo? Será que ele não me ama? Então, eu bebia?, conta.

Já aos 13 anos Gustavo consumia o álcool escondido, nas festinhas de amigos, sempre querendo contrariar os pais, mas ao mesmo tempo, escondendo da família, ?para todos estava tudo bem, eu era o Gustavo ?bonzinho?, mas já estava construindo o Gustavo ?malvado??, lembra. Foi nessa época que ele conheceu a maconha, a primeira experiência foi frustrante, ?me enganaram, falaram que eu ia ver borboleta, elefante voando, e não vi nada disso?.

Apesar de ter sido frustrante, o fato de estar com os amigos compartilhando algo ?legal? e sentindo certo prazer, ajudava a suprir a necessidade de amor que ele desejava receber da família, ?me senti um privilegiado, porque aquelas pessoas me deram a droga, não me cobraram nada e aquilo me fazia bem?, diz.

Não demorou muito, Gustavo conheceu a cocaína, foram quase dois anos usando álcool e maconha, para depois acrescentar a nova droga em sua vida. Além disso, passou por vários tipos de drogas, como loló, tinner, cola de sapateiro, chás alucinógenos e outras.

Por volta dos 19 anos, ele conheceu a mais temível das drogas: o crack. A princípio era usada apenas nos finais de semana, depois começou a usá-la em algumas reuniões de usuários, até passar a usar todos os dias.

Foram quase dez anos de dependência do crack. Gustavo conta que quando começou a usá-lo, parou com a maconha, a cocaína e até o álcool, ?eu considero o crack como auto suficiente, ele não aceita ter amigos, quem é usuário de crack raramente usa cocaína ou bebe, porque a reação química da droga é a pessoa se recuar, então ela não se interage e nem busca outras drogas?, conta.

O estudante explica que o crack aumenta em sete vezes o sentido da audição, logo, o usuário se isola. O efeito é rápido, algo em torno de 15 segundos, em seguida a euforia diminui até chegar à depressão, então a pessoa quer de novo e faz tudo para obter, por isso chega até a cometer crimes.

Apesar de fazer uso constante da droga, ele continuava tendo uma vida normal, trabalhando e estudando. Até que chegou um ponto, onde não conseguiu mais conciliar o uso intensivo do crack com seu dia a dia de trabalho e estudo. Então aos 25 anos decidiu ficar só com a droga. O vício era tão forte que antes de seu pai morrer, o médico convocou toda a família pra se despedir, pois não havia mais solução, mas Gustavo não conseguiu largar o crack para despedir de seu pai. Quando chegou nesse ponto a família dele finalmente descobriu, até então, os familiares não desconfiavam.

Nessa época, ele sentiu que precisava mudar de vida, ?o que foi primordial, foi quando olhei para mim e vi que eu estava derrotado, ela tinha me vencido?. O tratamento não foi tão fácil assim, foram três anos tentando se livrar, para entrar definitivamente para uma clínica e se recuperar de verdade.

Ele encontrou esse caminho na Ampare, instituição que o amparou e o salvou. O tratamento não foi feito apenas com Gustavo, mas também com sua família, que mesmo antes do estudante se internar definitivamente, passou a frequentar reuniões para reconhecer a importância da família na recuperação do dependente e descobrir a melhor forma de agir. Ele diz que o tratamento da família é tão importante quanto o do usuário, pois os familiares também ficam doentes, são chamados de co-dependentes, ou seja, são os dependentes do dependente.

Na primeira tentativa, Gustavo ficou apenas dois meses internado, disse que estava bem e saiu. Após quase três anos, finalmente decidiu se internar e levar a sério o tratamento, mas não foi nada fácil voltar para a instituição.

Ele diz que quando decidiu finalmente voltar para a Ampare, descobriu que não tinha vaga, então foi levado para outra clínica, localizada em Itabirito, ?cheguei nesse lugar em uma sexta-feira, às duas da tarde, no sábado ás seis da manhã fugi, porque eu queria ir para Ampare. Então fui caminhando pela estrada e consegui uma carona com um casal de idosos. Quando cheguei na porta da Ampare ela estava fechada, pois todos estavam em um congresso. Esperei até chegarem, mas não me deixaram entrar, pois não tinha vaga. Tentei até pular o muro, chamaram a polícia, a minha família, então fugi e passei aquela noite na rua.

No dia seguinte, descobri que conseguiram uma vaga para mim, mas só poderia entrar na segunda-feira. Queriam me trazer de volta para Sabará, mas eu não podia vir pra cá, porque iria voltar a usar. Tinham que me internar em algum lugar. Conceição Arruda, mãe de minha noiva, conseguiu no Galba Veloso, era o único lugar disponível. Para conseguir me internar no Galba até segunda-feira tive que fingir de louco. No dia seguinte, finalmente me internei na Ampare?, conta.

Depois de entrar na Ampare pela primeira vez há quase sete anos, o vínculo com a instituição continuou forte. Gustavo começou como interno, foram 10 meses dessa forma, em seguida foi coordenador de reunião, monitor da triagem e monitor da fazenda, que foi quando passou a receber pelo serviço, ?quando recebi meu primeiro salário não acreditei. Para quem entrou como interno e depois passa a receber para trabalhar no local, é super gratificante, isso não tem preço!?, conta.

Atualmente, o estudante de psicologia continua coordenando reuniões, faz estágio na instituição e ainda realizar palestras sobre o assunto pela instituição em empresas e escolas.

Ele diz que a psicologia foi uma área que descobriu na instituição e se apaixonou, por isso a escolheu como profissão. Além disso, Gustavo é um talentoso churrasqueiro e possui um buffet de churrasco.

Gustavo afirma que sua recuperação se deve muito ao apoio de sua noiva Renata e da família dela que o acolheu em casa, ?quando eu não tinha nada, foram eles que me acolheram. A mãe dela olhava em meus olhos e dizia: ? Eu tenho certeza que você vai mudar. Eu tenho certeza que você vai conseguir!?, lembra.

Ele diz que a recuperação é contínua, pois a todo momento se depara com situações que pode levar qualquer dependente a fraquejar, principalmente diante do álcool. Por trabalhar como churrasqueiro, os convites para tomar a famosa cervejinha são constantes, mas sempre recusados, pois ele sabe que entrar por esta porta é muito agradável, mas para sair é um caminho árduo.

Com tamanha experiência, Gustavo destaca que a política anti-drogas em Sabará infelizmente é muito fraca. Ele diz que até mesmo para realizar palestras nas escolas do município é complicado. O estudante acredita que palestras que mostram a realidade do mundo das drogas para crianças e adolescentes seria uma forma de evitar que jovens entrem para esse mundo tão cruel.

Apesar das dificuldades, ele afirma que está trabalhando para construir um projeto em Sabará voltado para o esporte que pode contribuir no combate as drogas. E espera contar com o apoio das escolas do município para levar sua palavra aos estudantes.

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