O hipotreoidismo é uma síndrome clínica resultante da deficiência de produção ou ação dos hormônios da tireóide. Os dois principais hormônios tireoidianos são a Tri-iodotironina (T3) e a Tetra-iodotironina (T4 ou tiroxina). A produção e secreção desses hormônios é controlada por outro hormônio chamado TSH (hormônio estimulador da tireóide na sigla em inglês) produzido em uma pequena glândula junto ao cérebro chamada hipófise. Quando faltam hormônios tireoidianos, a hipófise produz mais TSH para estimular a tireóide e quando estes hormônios estão em excesso, ela libera menos TSH.
Mas e o
hipotireoidismo?
Como disse antes, o hipotireoidismo é caracterizado pela ?falta? ou ?baixa quantidade? de produção e liberação dos hormônios pela tireóide. Existem diversas causas de hipotireoidismo, mas a mais comum é uma doença chamada ?Tireoidite de Hashimoto?, na qual o sistema de defesa de nosso organismo, ?ataca? a tireóide por engano, enfraquecendo-a e destruindo-a aos poucos. Com a falta dos hormônios da tireóide, várias alterações podem ir surgindo gradativamente, sendo as mais comuns a pele seca e áspera, sensação de frio, cansaço e sonolência excessivos, inchaço nas pálpebras, fraqueza.
Contudo, é muito comum (e provavelmente você já ouviu falar) associar o hipotireoidismo ao ganho de peso e a obesidade. Na TV, nas rádios, revistas e jornais, lemos e escutamos falar que ?estou muito acima do peso porque tenho tireóide?. Inclusive várias celebridades nacionais e internacionais propagam esse conceito.
Bem, vamos discutir algumas coisinhas.
Primeiro, tireóide todo mundo tem, exceto quem fez algum tipo de cirurgia e retirou a tireóide.
Segundo, será que o tal excesso de peso é realmente culpa da tireóide?
Não vou dar aqui a minha opinião. Vou dar alguns dados para que vocês possam refletir.
Uma queixa comum em pacientes com hipotireoidismo é a redução do apetite, porém de modo contraditório cerca de dois terços dos pacientes relatam ganho de peso.
De acordo com um importante livro de Endocrinologia escrito por um renomado médico brasileiro, ocorre ganho de peso em 59% dos pacientes, sendo que esse ganho de peso é devido principalmente a retenção de líquidos e não ao acúmulo de gordura. Vejam bem uma frase encontrada no livro: ?Ao contrário do que se acredita, obesidade não faz parte do quadro do hipotireoidismo?.
Citando ainda mais algumas importantes referências da literatura médica, no livro ?Williams Textbook of Endocrinology ? 12ª Ed? o autor relata o mesmo dado: o ganho de peso é devido principalmente a retenção de líquidos, sendo que é pequeno e não ultrapassa 10% do peso corporal inicial (ou seja, uma pessoa de 60kg não ganharia mais do que 6kg de peso devido ao hipotireoidismo), e isso em casos de hipotireoidismo descontrolado, não levando em conta os casos de hipotireoidismo discreto que conseguem ser compensados pela tireóide ? o chamado ?Hipotireoidismo Subclínico?, no qual os níveis de hormônios tireoidianos no sangue são NORMAIS (ou seja, função normal da tireóide) às custas de um maior estímulo pelo TSH.
Por fim, gostaria de citar um texto disponível na íntegra na internet em www.thyroidmanager.org, site este de autoria do Dr Leslie DeGroot, reconhecido pela maioria dos Endocrinologistas como o maior especialista em tireóide no mundo. Neste texto, podemos ler que ?o efeito da deficiência de hormônios tireoidianos no apetite não é precisamente conhecido, mas certamente há diminuição do gasto energético, levando a um leve (repito, LEVE) aumento dos estoques energéticos, com aumento do peso devido a aumento (lembrem-se : LEVE) da gordura corporal e da retenção de água?.
Será, então, que a culpa
é da tireóide?
Como nós engordamos?
Obviamente sempre devemos levar em conta a possibilidade de fatores genéticos. Uma analogia legal a se considerar é a de que ?os genes carregam a arma, mas é o ambiente que puxa o gatilho?.
Nós obtemos toda nossa energia através dos alimentos e bebidas que consumimos, o que é influenciado por uma série de fatores. A partir da década de 1970, o custo de alimentos ricos em gorduras e açucares (que chamamos alimentos de alta densidade energética, pois tem muitas calorias) se reduziu bastante em relação a outros alimentos. Além disso, a disponibilidade e a quantidade de alimentos ingeridos aumentaram significativamente. Para se ter uma idéia de como isso é importante, 1kg de tecido adiposo (as gorduras no corpo)contém cerca e 7000 Kcal. Se assumirmos, por exemplo, que gastamos metade das calorias ingeridas e acumulamos a outra metade, seria necessário ingerir 14000kcal para acumular esse 1kg. Se o ano tem 365 dias, ingerindo 40kcal a mais por dia vamos obter esse valor. Isso equivale a 8 colheres de chá de açúcar.
Devemos lembrar também do tamanho das porções. Hoje encontramos em todos os lugares ?Big-sanduiches?, ?Mega-sanduiches?, ?Batatas-monstros?, Pizzas Gigantes?, copos de refrigerante de 700mL e de 1 litro (isso mesmo ? copo de 1 litro). Essas refeições servidas em FAST FOODs e restaurantes em nossas cidades são ricas em gorduras e açucares, tem custo relativamente pequeno e facilidade de acesso. Em nosso mundo contemporâneo em que não temos tempo para nada e no qual muitas vezes comer e beber é um compromisso social, muitas vezes optamos por refeições rápidas e calóricas em detrimento de uma dieta saudável.
Alguém aí já pediu uma porção de alface e tomate para servir de tira gosto para uma cervejinha com os amigos em um bar? Ou preferiu um torresmo, lingüiça, mandioquinha frita?
Para finalizar, devemos lembrar que nosso gasto de energia varia com a quantidade de atividade física que realizamos. Atualmente temos a disposição elevadores, escadas rolantes, carros, ônibus e uma série outra de aparelhos que reduzem nosso trabalho e esforço no dia a dia. Além disso, temos jornadas diárias cada vez maiores. Trabalhamos de dia e estudamos a noite (às vezes de madrugada), cuidamos dos filhos e da casa. Que horas faremos um esporte ou uma academia?
Quando poderemos fazer uma caminhada agradável em uma tarde de céu azul à beira da lagoa? Ou correr de manhã no parque?
E você, caro leitor, tem feito atividade física diariamente ou não tem tempo para isso? Sua dieta é saudável ou você prefere pedir um lanche para viagem (duplo, claro, com 1 real extra para aumentar a batata)?
Assim, prezados, quando forem colocar a culpa na tireóide, mesmo tendo hipotireoidismo, pensem em se perguntar se a culpa é mesmo da tireóide. Nem sempre precisa haver um culpado. Converse com seu médico, tenha hábitos saudáveis e faça exames periódicos quando necessário.
Contatos:
Hospital Felício Rocho:
3514-7000
IPSEMG ? 155
Santa Casa - Sabará
3671-5444
Consultório - 3671-2714
Referências
Bibliográficas
Willians Textbook of Endocrinology, 12ª edição
Tireóide e suas Doenças, Dr. Leslie DeGroot, disponível em www.thyroidmanager.org
Endocrinologia Clínica, 5ª edição, Lúcio Vilar
Textbook of Diabetes, 4ª edição ?Cap8, Controlo f Weght: How do we get fat?
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