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Religião JOSÉ ANCHIETA:

José de Anchieta – o Santo do Brasil

José de Anchieta – o Santo do Brasil

19/03/2015 10h50
Por: Glaucia Melo Clark
José de Anchieta – o Santo do Brasil

(*)CELSO PYRAMO

19 de março de 1534.

Há 480 anos passados, nascia em Tenerife, arquipélago das Canárias, José de Anchieta, agora o ?Santo do Brasil?

Filho de pais nobres, possuidores de grande riqueza, foi mandado para Universidade de Coimbra. Dotado de inteligência brilhante e dedicação extremada aos estudos, entrou com 16 anos para o Colégio dos Jesuítas. A disciplina férrea, o regime severo de comportamento e o rigor imposto à prática de atos de penitência afetaram sensivelmente sua saúde e os médicos aconselharam seus superiores a alternativa de mudança para ares mais salutares. A congregação já tinha um grande trabalho nas terras de Santa Cruz e decidiu enviá-lo para cá.

Em 1553, aos 19 anos, partiu para a colônia, desembarcando na Bahia, onde iniciou de imediato sua missão.

Rapidamente aprendeu o linguajar nativo e progressivamente e ao mesmo tempo, ensinava aos índios a língua latina.

O clima da terra foi generoso restituindo-lhe a saúde o que lhe proporcionou as condições necessárias para desenvolver o seu apostolado que se estendeu pelas capitanias do Espírito Santo, Rio de Janeiro e de São Paulo

Dedicou sua vida à catequese dos nossos indígenas com profundo desprendimento de alma, onde a caridade predominou com as cores mais fortes que emanam dos ensinamentos de Cristo.

Foi um ?homem santo? e ?virtuoso taumaturgo?. Pouco se conhece e se fala dele, hoje, do que representou para o desenvolvimento da cultura e para evolução da humanização das tribos indígenas

No museu da cidade de Anchieta onde viveu grande parte da sua existência estão preservados os aposentos que ele ocupou inclusive o genuflectório em que, ajoelhado, fazia suas orações. Restam lá muitas reminiscências de sua passagem e uma extensa bibliografia sobre sua vida

O Escritor

O que mais se conhece de sua obra é a gramática e um vocabulário da língua tupi. Fez também poesias e permanece famoso o ?Poema à Virgem? escrito nas areias da praia de Iperoígue em Ubatuba.

Sua vasta produção em informações, cartas e sermões têm grande significado na literatura colonial brasileira e ?seus poemas valem em si mesmos como estruturas literárias, no conceito do professor Alfredo Bosi da USP.

Uma parte de sua obra foi escrita em forma de vilancicos, os pequenos poemas que se cantavam em festas religiosas mais importantes na Idade Média , em Portugal e Espanha.

Escrevia autos para catequização do índio e doutrinação do branco nas cerimônias religiosas. O ritual litúrgico se estendia para fora da igreja, para o adro, mais amplo, e onde eram feitas as representações dos atos de fé. Na festa de São Lourenço, por exemplo, o auto se compunha de uma dança cantada em procissão. Era preciso envolver os participantes da cerimônia materializando o sentido das pregações apostólicas porque os rituais criavam o clima propício para que as palavras fossem entendidas em toda sua plenitude. É o que ficou como tradição, até hoje, nas nossas solenidades religiosas porque o povo anseia por uma participação mais interativa nesses momentos de manifestação de religiosidade.

O Médico

e enfermeiro

A sua acuidade mental e sua ilimitada disposição de trabalho levaram-no à realização de obra que foi além dos atos de catequese. Sua atuação na prática da cura de enfermidades e assistência a acidentados è relatada por ele, de forma candente, em carta a seus superiores com os dizeres: ?acudimos a todo o gênero de pessoas, portuguesas e brasis, servo e livre, assim nas coisas espirituais como nas corporais, curando-os, sangrando-os porque não há quem o faça?.

É considerado o fundador da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro porque em 1583 atendeu em modesta casa da vila os navegantes doentes da esquadra do espanhol Valdez.

O Naturalista

Como naturalista foi um dos primeiros sábios a fazer descrição de nossa flora catalogando plantas purgativas e outras para curar ferimentos. A partir da observação junto aos índios reconheceu e aplicou o poder curativo de vários vegetais. Também diversos animais da fauna foram descritos com notável e surpreendente objetividade e clareza: serpentes, o tapir, abelhas, formigas, o boiquiba e a piracema.

Foi ele por estas atividades, reconhecidamente, quem lançou os fundamentos de nossa ?história natural?.

Registrou os solistícios: 11 de junho - o dia mais curto que tem 10 horas - e 13 de dezembro, o mais longo que tem 14 horas. As estações climáticas ele as descreveu dessa forma curiosa:?ao mesmo tempo há verão e há inverno, e o contrário; mas de tal modo equilibrados que nem faltam os raios de sol nem os frescos aguaceiros?

O Virtuoso

No seu cotidiano condenava-se a severíssimos castigos corporais, jejuns e abstinências para que a Virgem lhe desse forças para resistir às tentações que o cercavam. Seus instantes livres eram dedicados às orações que fervorosamente recitava. Não poucas vezes foi encontrado orando em enlevo sobrenatural e outras em meio a resplendores, aquelas luzes intensas que irradiavam dele em completa união com o Senhor.

Muitas profecias suas se realizaram, muitas curas foram feitas pela sua fé. Esses prodígios vinham de sua santidade e de sua profunda crença.

A Beatificação

A campanha para a sua beatificação teve início na Capitania da Bahia em 1617, e sua canonização pedida em 1736 ao Papa Clemente XII. Pelo que se compreende, a perseguição do marquês de Pombal aos jesuítas havia impedido, até então, o trâmite do processo iniciado no século XVII

Em sua pastoral de 17 de janeiro de 1758 o bispo de Mariana D. Manoel da Cruz exortava os fiéis ?que com fervorosa devoção se encomendem ao Veneravel Servo de Deus e que aqueles que conseguirem algum benefício, prodígio ou milagre que Deus for servido obrar por interseção dele o vão depor perante seus párocos ?

Só foi beatificado em Junho de 1980 pelo papa João Paulo II.

José de Anchieta é amplamente reverenciado tanto no Brasil, quanto nas Ilhas Canárias (local de seu nascimento). Na cidade de San Cristóbal de La Laguna há uma imponente estátua de bronze em sua homenagem, trabalho do artista brasileiro Bruno Giorgi. A estátua foi um presente do Governo do Brasil para a sua cidade natal.

A Santificação

A 27 de fevereiro de 2014, o Papa Francisco anunciou que o Padre Anchieta seria canonizado em Roma, em abril de 2014. O processo durou 417 anos e foi um dos mais longos da história.

O decreto foi assinado a 3 de abril de 2014. Em 24 de abril será a cerimônia de Ação de Graças, presidida pelo Papa e será realizada na Igreja de Santo Inácio de Loyola.

O "Caminho de Anchieta"

A sua disposição em caminhar levava-o a que percorresse, duas vezes por mês, a trilha litorânea entre Iriritiba, e a ilha de Vitória, com pequenas paradas para pregação e repouso nas localidades de Anchieta (que foi chamada também Reritiba) Guarapari, Setiba, Ponta da Fruta e Barra do Jucu.

Modernamente, esse percurso, com cerca de 105 quilômetros, vem sendo percorrido a pé por turistas e peregrinos, à semelhança do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.

(*)Do IHGCO-Instituo Histórico e Geográfico do Ciclo do Ouro

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