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HISTÓRIA

Chafariz do Kaquende:

conheça os mistérios e lendas que cercam esta bela construção de 1.757, tombada pelo IPHAN

27/08/2021 09h10Atualizado há 5 anos
Por: Glaucia Melo Clark
Fonte: Por José Arcanjo Bouzas - Historiador

Para o abastecimento de água nas vilas mineiras, no início da colonização, os chafarizes foram os primeiros equipamentos públicos implantados. Em Sabará, foram construídos pela Câmara, inúmeros chafarizes, num total de onze, possíveis identificar documentalmente, entre os séculos XVIII e XIX.  Mas, depois de muitos anos servindo, precariamente, à população com água sempre límpida e cristalina, os chafarizes perderam sua função, com a implantação, no início do século XX, do abastecimento domiciliar, com água encanada, restando no presente, apenas quatro deles, públicos, além de dois, particulares. 

Destes, três tornaram-se apenas elementos de decoração dos espaços públicos, com suas belas formas escultóricas. Um único, o Kaquende, continua jorrando água. Ele foi construído em 1757, em pedra, com duas torres e a tradicional cruz, ao alto, com uma grande bacia desgastada pelo tempo, pintado na cor cinza, uma das cores da Casa de Bragança. A água é transportada através de um canal fechado, também em pedra. A sua captação, entretanto, é feita no antigo beco que sai atrás do chafariz, numa grande bacia, coberta de pedra e argamassa, em local fechado por muro alto. Segundo uma lenda, a sua nascente é debaixo da igreja de São Francisco, há uns 300 metros. Podemos acreditar nisso, porque é um milagre mesmo, até hoje, o famoso chafariz jorrar, sempre no mesmo volume, água pura e fresca pelas suas gárgulas, matando a sede do povo sabarense e do passante. 

Na região onde está o chafariz, existiu um Mercado de Escravos - ao lado do prédio da atual Biblioteca Municipal -, parecido com o que ainda existe em Diamantina. Ali, no mercado, tropeiros descarregavam produtos secos e molhados, frutas, animais, escravos e escravas, vindos por estradas ou pelo rio das Velhas.  Os mercadores falavam: “aqui se vende de tudo”. Com o tempo, a rica mistura linguística, portuguesa, africana e indígena, que resultou no falar característico dos mineiros – o mineirêz, para os puristas - transformou aquela expressão em “Caa se vende”, e daí, simplificadamente em “Caaquende” e, posteriormente, Kaquende. 

O Largo do Jogo da Bola, onde está o chafariz, é uma denominação popular do início do século XX, pois até fins do século XIX, o local era chamado simplesmente: Largo “Atrás do Xafaris. O nome dado no século XX é bem mais bonito e gracioso. 

 

Curiosidades e lendas do Chafariz

Chafariz do Kaquende passa por reformas e vistoria técnica

Até poucos anos atrás, na tarja central do chafariz, em pedra sabão esverdeada, havia uma inscrição com cinco letras e uma data: “PSDAD 1757”, cuja transcrição em latim é: “Populum Sabarensis Donatio Anno Dominum 1757”, gravada debaixo de onde existia uma coroa com as armas portuguesas, cuja tradução livre é: “O Povo Sabarense doou no ano de Jesus Christo de 1757”. A coroa foi arrancada e destruída após a independência do Brasil. Este tipo de manifestação radical não é novo, como se vê. 

Reza a lenda que “depois de beber o seu precioso líquido, o visitante voltará sempre à cidade”. Outras lendas povoam o imaginário popular. D. Lúcia Machado de Almeida registra uma lenda sobre um “fantasma que sai das suas gárgulas, à meia-noite, devorando pessoas e engravidando moças e, após o serviço, retorna a seu refrescante descanso”. 

Tem muito sabarense, antigo usuário do chafariz, que não bebe, de jeito nenhum, a água que sai da gárgula à esquerda de quem olha para o bebedouro. Não sabemos o motivo, mas esta superstição é velha.   

O “milagre” do Kaquende existe até hoje, por causa de dois conscientes vereadores, que no início do século XX, não aprovaram um projeto da Câmara, que pretendia canalizar a água, até o próximo edifício da antiga Casa da Câmara e Cadeia para matar a sede dos presos, dos vereadores e do Tribunal do Júri. Eis um bom motivo para a sua conservação e cuidados. 

Chafariz do Kaquende passa por reformas e vistoria técnica 

 

No mês de julho, atendendo a um pedido da administração municipal, o escultor, canteiro e restaurador de elementos em pedra, Rinaldo Urzedo, esteve no Chafariz do Kaquende para uma vistoria técnica, com o objetivo de reunir informações sobre algumas intervenções que precisam ser realizadas no chafariz e buscando um trabalho de restauração criterioso, que respeite a história do monumento. O profissional, indicação do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que atua em diversas cidades históricas de Minas Gerais, foi acompanhado pelo secretário municipal de Cultura e Turismo, André Alves, e pela arquiteta, Milene Pinto.

André Alves explicou que as obras do Kaquende foram feitas em duas etapas. A primeira foi uma reforma simples. “Fizemos a prospecção para descobrir a cor original do monumento. Foram realizadas raspagens e descoberto que o chafariz foi pintado nove vezes, em cores diferentes, até chegar a cor original que é cinza. Fizemos também a raspagem no muro da canalização da água que estava degradável”, disse. 

De acordo com o secretário, a segunda etapa está em andamento e se trata da recuperação dos elementos artísticos. “O brasão de pedra que fica na fachada do chafariz caiu em novembro de 2013, nesta época os elementos artísticos se perderam”, explicou. 

No que se refere aos elementos artísticos do chafariz, o mestre canteiro Rinaldo Urzedo, identificou que além da questão do brasão, será preciso realizar intervenções na pia que está desgastada. “Na bacia do bojo há a necessidade de fazer a consolidação da fissura e um rebaixo em torno de 2,5 a 3,0 centímetros na parte anterior do lugar onde cai a água, para evitar o derramamento que está ocorrendo na lateral do chafariz”, explicou Urzedo.

O Chafariz do Kaquende é patrimônio federal, portanto, é preciso autorização do IPHAN para realizar qualquer tipo de intervenção. O pedido para tais reformas já foi encaminhado ao órgão.  

 

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