Fiéis lotam a Igreja de São Francisco na Quinta-Feira Santa e perfumam o ambiente de manjericão e alecrim durante a celebração que representa o velório de Cristo
A Quinta-Feira Santa em Sabará amanheceu com o dia claro, ao meio dia o sol esquentava as ladeiras da cidade e era quase um sacrifício caminhar sob tal. Ao se aproximar das três da tarde, o dia se entristeceu, nuvens tomaram conta do céu e às duas e meia uma chuva fina começou a cair sobre a cidade. O tempo parecia que preconizava o momento fúnebre que estava para acontecer na Igreja São Francisco.
Ao entrar na Igreja o clima era de tristeza, mas também de esperança, fé e devoção daqueles que estavam dispostos a assistirem e participarem de um momento único, vivido pelo sabarense há mais de duzentos anos: a Abertura do Santo Sepulcro.
Às quinze horas em ponto, a matraca anunciou a entrada de Padre Rogério, pároco da Igreja Nossa Senhora do Rosário, o ambiente que cheirava a manjericão e alecrim, ganhou o perfume do incenso e o silêncio tomou conta da Igreja.
Este ano a cerimônia teve um diferencial o escritor e professor Luiz Alves fez uma explanação explicando o motivo da abertura do sepulcro na Quinta-Feira Santa. Ele disse que os sabarenses inventaram essa cerimônia um dia antes da Morte de Cristo para não confrontar com os horários já estipulados da Igreja Católica. Na Sexta-Feira da Paixão já eram vários os acontecimentos; a Cerimônia da Crucificação, o Sermão das Sete Palavras, o Descendimento da Cruz e a Procissão de Enterro. No sábado a Igreja preceituava recolhimento e silêncio. Logo, o melhor dia seria na quinta-feira.
Luiz explicou ainda todos os elementos que envolvem a cerimônia. A presença do manjericão serve para perfumar o velório de Jesus, pois se respira a natureza e a vida, ?essa plantinha que o sabarense traz pra cá e leva para casa, está morta, pois foi arrancada do caule. Mas as pessoas vêm trazem algumas e levam outras que serão plantadas. Dessa forma, ela revigora, renasce, rebrota e volta à vida. Está aí uma bela imagem da ressurreição de Jesus?, disse.
Já a troca de moedas, segundo o que foi contado, seria para ajudar a nossa travessia pela vida terrena, antes do túmulo, para a nossa a vida eterna, após o túmulo. Os fiéis levam algumas moedas e pegam outras que foram oferecidas.
O coral Flos Carmeli representa as carpideiras. Todos de luto, vestidos de preto, entoam canções em latim retiradas dos salmos da Paixão.
Já a vigília que vai das 15 horas da Quinta-Feira Santa às 18 horas da Sexta-Feira da Paixão demonstra a solidariedade do povo sabarense com Cristo. Luiz relembra que logo após, Jesus entrar em Jerusalém aclamado pelo povo e saudado com ramos, começou sua dolorosa solidão. ?Ele foi traído por Judas, Pedro o negou. Cristo foi para o Monte das Oliveiras, onde destilou sangue sozinho. Sua caminhada para o calvário foi solitária. As pessoas que Jesus livrou da lepra, resgatou para a vida física e espiritual, resgatou a visão o abandonaram. Ele se sente abandonado até pelo próprio Pai. Oh Pai! Por que me abandonaste??.
O escritor ressaltou em sua explicação que antes que os anjos afastassem a pedra e aquele corpo massacrado voltasse para a vida e retornasse a sua glória. O povo de Sabará entrou naquele templo de solidão, postou-se ao lado do corpo de Cristo solitário e montou vigília como se dissesse: ?Aqui estamos Senhor e vamos lhe fazer o velório que a história lhe negou! Nós somos os amigos que ousaram não fugir!?.
Após a apresentação de Luiz Alves, Padre Rogério fez orações, falou sobre a importância da cerimônia e finalmente retirou o pano que cobria o corpo de Cristo ao som das músicas fúnebres cantadas em latim pelo coral.
Para o pároco participar dessa cerimônia que só acontece em Sabará é um momento único e especial. Ele afirma que celebrar a devoção de seu povo é uma alegria muito grande. ?Aquele padre que não caminha com seu povo, eu acredito, ele deve ser muito infeliz. Então prefiro caminhar com o povo, aquilo que está totalmente errado cabe ao padre ensinar, mas o que não fere, como velar o Corpo de Jesus, não há problema. Porque a semana trata da vida, da paixão e da morte de Cristo?, diz.
Devoção
A igreja estava repleta de fiéis que fazem questão de participar dessa cerimônia especial de fé e tradição na cidade.
Maria de Fátima dos Santos ministra da eucaristia há dez anos em Roça Grande faz a vigília à Nossa Senhora das Dores há três anos. Para ela participar desse momento especial é muito emocionante. A ministra foi convidada a participar da vigília pela amiga Maria Auxiliadora da Silva Ferreira que há 12 anos participa da cerimônia. Ela diz que fazia parte do coral Flos Carmeli e agora faz a vigília. Segundo ela, a cada ano que passa sua fé aumenta mais.
José Salvador Pereira, 88, participa da cerimônia desde sua infância e há mais de 50 anos é responsável pela troca de guarda dos homens que velam o corpo de Cristo.
Chiquinho da TV Muro há 35 anos é o matraqueiro oficial da cerimônia. A função herdada do avô tem o objetivo de dá uma conotação mais triste e fúnebre à celebração. Nascido e criado ?dentro da Igreja?, Chiquinho participa de várias celebrações realizadas durante a Semana Santa na cidade. E para ele é uma alegria fazer parte da cerimônia.
O regente da Flos Carmeli, Luis Fernando, diz que se sente honrado em fazer parte da cerimônia e fala que sendo sabarense se sente na obrigação de se dedicar à cerimônia.
Gustavo Henrique, 22, é o mais jovem a participar da guarda do Corpo de Cristo. Ele começou a participar da cerimônia aos 10 anos acompanhando seu avô que há décadas faz a vigília. Para ele velar o corpo de Cristo é um momento de reflexão, ?é a chance que eu tenho de pensar tudo que fiz, agradecer e pedir o que ainda tenho para realizar?, diz.
Iracema Rodrigues Neves, 95, conta que desde criança participa da cerimônia e sempre leva manjericão e alecrim para a Igreja. Este ano ofereceu uma braçada das plantas e saiu da igreja com folhas que serão plantadas e usadas durante o ano em chás, mas ano que vem levará novamente para a celebração.
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