Em 2015 confirmaram-se 147.657 casos de dengue com 67 mortos no Estado de Minas Gerais. No 2º semestre de 2015 acelerou a incidência de Zica Vírus e Chikungunya, com o pavor e alarme para a Microcefalia. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 100 milhões de pessoas se infectaram em mais de 100 países, sendo que cerca de 550 mil pessoas foram tratadas em hospitais. Um tremendo prejuízo humano. Apesar desse aumento epidêmico, se compararmos somente os casos laboratorialmente confirmados em Sabará, tivemos uma redução de 97% (64 casos confirmados de dengue) em 2015.
Os arbovírus são vírus terceiro-mundistas, poupam bastante a Europa e EUA. Gostam de nossa sujeira. Governo e população brasileiros são fortes aliados do Aedes.
Oficialmente fui o primeiro agente de saúde/MG a ser comunicado que a Dengue chegaria para ficar. Isto foi em 1989 (26 anos atrás), durante um seminário ocorrido na Funed. O Dr. Hélio Gelli Pereira* me alertou de que a Dengue estava se expandindo e seria certamente um grande problema de saúde pública no Brasil. Eu era superintendente da Funed e fomos estruturar o problema. Mandei ao Rio o pesquisador Dr. Serufo que trouxe amostras do vírus, técnicas de manejo e iniciamos o controle de diagnósticos sorológicos. Até hoje, 26 anos depois, não temos um antiviral específico. Nossa pesquisa médica já domina o controle do HIV, hepatite B e C. A gripe suína quando foi anunciada, já veio acompanhada do Tamiflu R (agente efetivo), mas nenhum avanço significativo para arbovírus. Continuamos sem uma droga específica (antiviral) ou vacinas testadas. Nem testes certificados disponíveis ainda temos, para o Zica vírus. A Dengue e suas acompanhantes Zica e Chikungunya são tratadas com Paracetamol (Tylenol R), Dipirona, (Novalgina R), drogas inocentes, seculares e sintomáticas. Levamos anos para aprendemos que a hidratação vigorosa evita a dengue hemorrágica (experiência copiada do norte do país). Como disse Sintonia de Moraes Moreira, essas doenças “não tem remédio, não tem remédio, não tem remédio não”.
Em BH, onde sou médico do PSF, passamos semanas e semanas tratando sintomaticamente os pacientes, incapacitados para o trabalho e escola. A média é de 2 semanas de absenteísmo, enorme prejuízo. Todo paciente com 3 dos seis sintomas e sinais seguintes devem sofrer notificação: febre, cefaleia, dor retro ocular, artralgia, mialgia, exantemas. Acompanha ainda indisposição geral, náuseas, prurido.
Pior, o Aedes Aegypti é uma “mula”. Transporta e dissemina 4 tipos de dengue (sorotipos I a IV) Chikungunya, Zica Vírus e Febre Amarela, e só a fêmea do mosquito faz este estrago todo. Um ovo do mosquito pode aguardar mais de 1 ano por condições favoráveis, e quando encontra água e temperatura favoráveis, com mais ou menos 1 semana, já é transformado em pupa e já adquire a condição de transmissor. O que fazer diante de tanto desamparo popular? De tanto despreparo governamental e científico? De tanta gente adoecendo de forma tão grave. De tantas gestantes e bebês ameaçados pela microcefalia – calamidade.
Em janeiro/2013 assumi a Prefeitura de Sabará em meio a uma epidemia de dengue: 8 mil notificações/2.593 casos confirmados e 1 óbito. Em 2014 e 2015 tivemos uma redução de 97% (64 casos em 2015). Estamos comprando emergencialmente repelentes para todas as nossas gestantes de 0 a 4 meses. Sendo cidade dormitório, usamos Drone para “visitar” as casas fechadas. Desde então estamos fazendo mutirões de limpeza e muitas outras atividades. A mobilização popular é fundamental. Nosso empenho tem tido resultados não deixando o mosquito nascer.
Vendo o problema de três ângulos (pesquisa, prática clínica e ação política) pude enxergar que a melhor solução é o mutirão. Ação de mobilização e caça ao mosquito. Este é nosso alerta.
Finalizando, o que resta ao povo fazer é matar o mosquito, ou ainda mais, nem deixar ele nascer.
* Hélio Gelli Pereira Petrópolis * 1918 - Rio de Janeiro ✝ 1994. Contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento da Virologia. Fez descobertas que modificaram a ciência tanto no Brasil como no exterior. Naturalizado cidadão da Inglaterra em 1957, onde foi Chefe da Divisão de Virologia do Instituto Nacional de Pesquisas Médicas e chefe de Departamento de Virologia em universidade. Teve sua carreira no Instituto Oswaldo Cruz marcada por dois períodos: entre 1948 e 1951, quando iniciou sua carreira, e na sua volta após a sua aposentadoria na Inglaterra, onde aqui permaneceu de 1979 a 1994, quando faleceu.
Diógenes G. Fantini
Médico (UFMG 1975) e Prefeito de Sabará
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