A chamada casa de "Melo Viana" está situada na atual rua Francisco Lopes Azeredo, antiga rua da Ponte Pequena, que já foi rua dos Esportes. Esta última denominação vem da existência, nas proximidades, de um campo chamado “Alves Nogueira”, onde os homens da cidade jogavam futebol de “pelada” e, posteriormente, foi construída a Praça de Esportes de Sabará-PRAESA.
Sua característica arquitetônica é típica dos sobrados de fins do século XVIII para o XIX, em alvenaria de pedra, com argamassa de terra. O telhado, em quatro águas, era coberto por telha canal de barro. À frente, no térreo, encontram-se cinco portas e uma janela. Provavelmente eram para acesso direto ao interior da casa, e talvez comércio. O acesso dos escravos para a senzala, era feito pela parte de trás da casa. No andar superior, possuem sacadas e parapeito em ferro batido ou forjado, artisticamente trabalhadas, curiosamente distribuídas sem simetria com as portas de baixo, como se vê em outros prédios da cidade.
O piso da entrada, segundo depoimento oral de uma antiga sabarense, era calçado com seixos rolados de duas cores – preto e branco com desenho geométrico - e a escada de acesso aos quartos, subia em dois vãos, que se contrapunham em forma de arco, se ajuntando no andar superior. Todas as portas tinham vergas em arco pleno, e as janelas, com o mesmo acabamento, eram com “guilhotinas” em madeira e vidro.
A construção tem várias seteiras – quando retas -, e olhais ou óculos - quando redondas -uma característica dessas construções, com a função de vigiar o terreno ou os serviçais, ou clarear algum cômodo ou corredor. Antes da construção do Ramal Ferroviário Santa Bárbara, em 1895, as terras do sobrado, se estendiam por boa parte baixa do Morro da Cruz, até o final da atual rua Pereira Vieira, junto ao antigo Matadouro, local onde os bois eram abatidos para consumo da cidade.
“O bonito e grande sobrado, foi construído pelo Coronel Pedro Gomes Nogueira, vereador à Câmara da Vila Real, que em 1831, propôs e conseguiu criar a Guarda Nacional local – várias vezes chegou a afirmar nas sessões camaristas, que a referida guarda era para defender o povo, e não atacar os pobres - e, junto ao Padre Mariano de Souza Silvino, Cônego e Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Sabará, criou uma Companhia de Teatro, para administrar e manter a combalida Casa da Ópera sabarense, quando esta entrou em decadência, em meados do século XIX. O atuante vereador, que apoiou os liberais na Revolução de 1842, de acordo com o próprio testemunho, forçado pelos revoltosos, passou posteriormente para o lado dos conservadores de Sabará, aliando-se ao Coronel Manoel Antônio Pacheco, futuro Barão de Sabará e José Joaquim de Meirelles Freire, Barão do Curvelo, no combate àquele movimento insurrecional mineiro”, explicou José Bouzas, historiador sabarense.
Pedro Gomes Nogueira, pela sua atuação política e social, acabou envolvendo-se com a Secreta do Kaquende – denominação de uma das duas lojas maçônicas - a outra era a Secreta da Rua do Fogo - em 1834, em cuja residência instalou a sua sede, bem como um jornal combativo, denominado “O Vigilante”, além de uma “Sociedade Protetora da Defesa da Legalidade e do 07 de abril” (o Dia do Fico ), denominada “Sociedade Pacificadora e Filantrópica Defensora da Liberdade e Constituição”. Faleceu no século XIX, e foi sepultado no Cemitério de Catacumbas da Ordem Terceira do Carmo de Sabará, segundo consta no livro de óbito.
Muitos anos depois, ainda no século XIX, a casa foi comprada pelo comerciante e Comendador Manoel Pereira de Melo Viana, apelidado de Piaba - segundo o explorador Richard Burton - , era forte comerciante da rua do Fogo, onde morava em um sobrado que ainda existe, pai de dez filhos, entre eles Fernando de Melo Viana, Governador de Minas nos anos 20, Vice-Presidente do Brasil em 1929, e que foi deposto e exilado, juntamente com o Presidente Washington Luís, por Getúlio Vargas na Revolução de 1930.
O comendador, que morou pouco tempo no sobrado da rua da Ponte Pequena, faleceu poucos anos depois da compra da casa, e seus filhos transferiram-se, com a mãe, Dona Blandina Augusta de Melo Viana, para a nova Capital. Ficou na casa, sua irmã, Augusta de Melo Viana, que morou no local com o marido comerciante, Heraldo Aguiar, até a década de 1930 do século XX, deixando então a bela casa, já muito prejudicada pela construção do ramal ferroviário, que cortava os fundos do terreno da residência.
Segundo Bouzas, “a ruína serviu um bom tempo para guardar animais como cavalos, mulas, bois, e até elefantes dos circos que ficavam no campo Alves Nogueira e na Praça de Esportes, e por isso, ficou conhecida durante muitos anos como Sobrado dos Elefantes”.
Uma casa de muita história e que deveria ser preservada para que os sabarenses ou visitantes e as gerações futuras possam conhecer ainda mais sobre história de Sabará e de Minas. A casa é, atualmente, propriedade dos descendentes de um antigo antiquário e colecionador de objetos de arte.
*Por José Arcanjo Bouzas - Historiador
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