
Há 145 anos, no dia 5 de abril de 1881, chegava a Sabará o imperador do Brasil, D. Pedro II, acompanhado de sua esposa, a imperatriz Dona Teresa Cristina.
Foram recebidos no Arraial Velho com grande entusiasmo e muitos vivas por um grupo de ilustres sabarenses. Durante todo o percurso até o Solar do Padre Correa, a comitiva era saudada com alegria pela população.
Na chegada ao solar, que à época pertencia ao tenente-coronel Jacinto Dias, foram recebidos pela população ao som de dobrados executados pela Sociedade Musical Santa Cecília.
Durante sua passagem pela cidade, D. Pedro II visitou o colégio de Mestre Caetano, a Santa Casa de Misericórdia, localizada à época na Rua do Fogo — atual Rua Comendador Viana —, e a casa do Marquês de Sapucaí, construção que não chegou aos nossos dias.
No dia 6 de abril, ainda muito cedo, seguiu em direção a Santa Luzia, de barco, pelo Rio das Velhas. Ao retornar a Sabará, no dia 9, assistiu a espetáculos no teatro e a cerimônias religiosas na Igreja do Carmo. Almoçou no Cuiabá e, depois, seguiu para uma visita à mina de ouro que ainda existe e é explorada atualmente pela AngloGold Ashanti.
A antiga Rua Direita recebeu o nome de D. Pedro II em uma das cerimônias programadas para homenagear o imperador durante sua passagem pela cidade.
O Marquês de Sapucaí foi um dos responsáveis pela formação de D. Pedro II, o que fez nascer no imperador uma admiração que carregaria por toda a vida. Essa relação também pode ser percebida na escolha de uma das filhas do marquês, Dona Cândida de Araújo Viana, para ser dama de honra da imperatriz Dona Teresa Cristina durante sua visita a Minas Gerais, como registra o Dr. Mário de Lima Guerra, sabarense que será sempre lembrado por seu grande amor por Sabará.
Em 2021, fui convidado pelo meu amigo e irmão de batalhas Túlio Damacena a participar do concurso de microcontos “Imagens Textuais de Sabará”. Naquele ano, completavam-se 140 anos da visita de D. Pedro II à cidade, e isso me inspirou a escrever um conto: uma história de amor tendo como pano de fundo os preparativos para a chegada e a passagem do imperador por Sabará.
Bem, não venci o concurso, mas meu conto recebeu do Túlio o título de “maior microconto do mundo” (risos)!
Curiosamente, em agosto, mais precisamente no dia 22, comemora-se o Dia do Folclore Brasileiro. E o conto traz como testemunha de um grande amor o Chafariz do Kaquende, cercado de histórias, crenças e mistérios.
Ao final da narrativa, encontramos uma releitura da lenda do “fantasma” que sairia do chafariz às sextas-feiras, em noites claras, em busca de seu grande amor. O conto também dialoga com a conhecida crença de que “quem toma da água do Kaquende retorna a Sabará ou para cá acaba se mudando”.
E nós gostamos de acreditar que seja verdade.
Uma ótima leitura a todos!
O ano é 1881.
A Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará havia se tornado cidade pouco mais de quatro décadas antes. Era agora Sabará e se preparava para receber a visita do imperador D. Pedro II.
Antônio João era um jovem negro, nascido em 13 de junho, dia de Santo Antônio, e batizado em Roça Grande. Sensível, amante da poesia e tubista da Banda Santa Cecília, apesar do pouco tempo de ofício já era também um admirável artesão.
Trabalhava em uma das muitas ourivesarias da Rua São Pedro, bem próxima ao Chafariz do Kaquende.
Era filho de Josefa de Angola, escrava liberta, e de Sebastião Divino, que havia morrido em busca de uma mina que acreditava existir no Segredo, região do Pompéu.
Certa tarde, ao buscar água no Kaquende para a oficina, Antônio viu Maria Clara.
Era a mais linda e perfeita poesia que seus olhos já haviam contemplado. Podia quase ouvir a música que envolvia o seu caminhar.
Ela passou por ele, e seu olhar pousou no de Antônio.
Nascia no coração dos dois uma paz perturbadora.
Maria Clara — Clarinha, como era chamada pela família — era a mais nova das três filhas do coronel Anastácio Symphronio, rico e influente minerador, homem de temperamento rude. Sua mãe, Dona Consolação, era habilidosa na confecção de peças em renda turca de bicos.
Encontraram-se novamente na Rua do Carmo, em frente à sede da Sociedade Musical Santa Cecília. Ele chegava para o ensaio; ela voltava da missa na Igreja do Carmo.
Não conseguiam falar. Apenas se olhavam com grande ternura.
Até que Antônio, reunindo coragem, esboçou um “bom-dia”.
Ela apenas sorriu como resposta.
Maria Clara estava sempre acompanhada pela negra Esmeralda, que era muito mais amiga do que dama de companhia.
Clara tinha perfume de flor de jabuticaba… doce, inebriante.
Os encontros tornaram-se mais frequentes. Aos domingos, depois da missa do Carmo e antes do ensaio da banda. Às terças-feiras, após a reza do terço, às três da tarde, na Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho.
E ali tinham como testemunha o Chafariz do Kaquende.
O primeiro beijo aconteceu na Travessa Santa Rita.
Foi um encontro inesperado, carregado de emoção. Um beijo rápido, intenso… expressão máxima daquele amor.
Estranhamente, uma pesada nuvem cobriu o sol naquele exato momento.
Não se sabe se foi o próprio sol que se escondeu diante do brilho magnífico provocado por aquele beijo ou se aquilo seria o prenúncio de uma tragédia.
Eles não perceberam.
Naquele instante, o mundo perdeu seus contornos.
Apenas o beijo.
Apenas o beijo existia.
O imperador chegou à cidade e foi recebido pelo coronel Jacinto Dias e seus convidados no Solar do Padre Correa, na Rua Direita. Naquele mesmo dia, a via passaria a se chamar Rua D. Pedro II, em mais uma homenagem do povo sabarense a Sua Majestade.
Seu pai, D. Pedro I, também havia se hospedado ali exatos 50 anos antes.
Entre os convidados estavam o coronel Symphronio e Clara.
Antônio observava de longe.
Ao avistar Maria Clara, pensou:
— Está mais linda que Dona Teresa Cristina.
E sorriu.
Ao vê-lo, Clarinha se desconcertou. Seu pai percebeu imediatamente o motivo daquele tropeço.
Durante sua estadia, D. Pedro II visitou o Carmo, o teatro, a escola de Mestre Herculano, a Santa Casa de Misericórdia e outros pontos da cidade. Depois, seguiu rumo a Santa Luzia, retornando a Sabará alguns dias mais tarde.
O olhar intenso e cheio de luz dos dois já não escondia aquele amor.
Eles próprios já não se preocupavam tanto em escondê-lo.
Logo, o romance despertou a curiosidade popular. Foi por meio de amigos que o coronel Anastácio teve a confirmação daquilo que já desconfiava — ou que, talvez, no fundo, já soubesse.
Providências deveriam ser tomadas.
Aquele romance precisava chegar ao fim.
Era impossível permitir tamanho absurdo, diziam.
A princípio, Maria Clara não poderia mais sair de casa. Nem mesmo chegar à janela. A proibição se estendeu também a Esmeralda.
Ao chegar em casa, Antônio foi recebido pela mãe, que trazia nas mãos ramos de arruda. O ambiente estava tomado pelo perfume da planta.
Ela o benzeu com devoção incomum.
Em suas orações, misturava palavras em banto e português, tamanha era a aflição que tomava seu coração de mãe.
Antônio era consumido pela situação.
Não ver Clara, não sentir seu perfume, não olhar em seus olhos era um verdadeiro martírio.
A humanidade já destroçou grandes amores, mas nunca conseguiu sepultá-los.
Duarte Costa, dono da ourivesaria onde Antônio trabalhava, percebia sua profunda tristeza e sofria com ele aquele momento de dor.
Tentava fazê-lo voltar à vida. Incentivava-o, conversava com ele, mas nada parecia funcionar.
Antônio definhava.
Não tinha notícias de Clara.
Um dia, ao chegar para trabalhar, estava desfigurado.
O senhor Duarte não se conteve diante de tamanha dor. Sentiu-se obrigado a revelar a dolorosa verdade:
— Filho amado, Clarinha se foi. Não está mais na cidade. Foi mandada para Portugal.
Antônio ficou petrificado.
Tomado por uma palidez de morte, seus olhos fitavam o nada.
Então veio o choro.
Com a cabeça entre as mãos, foi consolado por Duarte, que, sem conseguir conter a própria emoção, também chorava.
Maria Clara seria recebida em um convento no norte de Portugal para iniciar a vida religiosa.
Desde então, Antônio passou a caminhar cabisbaixo. A cada dia estava mais magro, mais triste, sem alegria.
Já não saía de casa, a não ser para trabalhar.
Não raro, era visto à noite próximo ao Kaquende, certamente se lembrando de Clara.
Não se passaram dois anos — ou pouco mais que isso — e Antônio veio a falecer.
— Desgosto! — diziam muitos.
Outros afirmavam:
— Morreu de amor!
De Clara, tinha-se notícia de que era conhecida por sua extrema bondade e pela caridade com os pobres.
Era amada por todos.
Poucos anos depois da morte de Antônio, começou-se a ouvir, nas rodas de conversa, que, nas noites de lua “clarinha”, seu espírito saía do Chafariz do Kaquende na esperança de encontrar novamente o seu grande amor e, assim, recuperar a paz.
Muitos anos mais tarde, a notícia da morte de Maria Clara trouxe consternação aos mais velhos, testemunhas daquela linda história de amor.
Dizem que, a partir de então, quem toma da água do Chafariz do Kaquende acaba retornando a Sabará — e há quem diga que termina até se mudando para a antiga Vila Real.
Acredita-se que, assim, se cumpra o desejo de Maria Clara de voltar ao Brasil.
Voltar a Sabará.
Voltar para o seu grande amor.
E essa história ainda será contada por muitas gerações, perpetuando o amor de Antônio e Maria Clara.
Sérgio Alexandre Silva


