Na Semana Santa, em Sabará, existe a Cerimônia de Abertura do Sepulcro. É evento único, criação ancestral do povo sabarense. Acontece que seu significado foi-se perdendo ao longo do tempo. Atualmente, a maioria da população ignora o sentido das preciosas simbologias que envolvem a cerimônia. Os fiéis ainda comparecem ao evento. Às vezes apenas repetindo hábitos; às vezes alimentando mera curiosidade. Mas pensemos nas novas gerações. Sem o conhecimento da geração que virá, e os consequentes amor e compromisso, a Abertura do Sepulcro corre o risco de desaparecer do calendário da Semana Santa! Se a gente desconhece, não tem como amar. E se não amamos, não nos incomoda aceitar o desaparecimento.
A “Folha de Sabará”, sempre comprometida com os nossos valores culturais, se faz presente na luta por essa tradição. Ao publicar o resultado da pesquisa elaborada pelo Professor Luiz Alves - baseada em registros escritos de Zoroastro Passos, Antônio Santa Rosa, antigos jornais, tradição oral e deduções - nosso jornal reforça a certeza de que o triângulo conhecer-amar-preservar se faz absolutamente necessário na continuidade de uma das mais ricas de nossas tradições.
Leia, medite e comprometa-se!
Gláucia Melo - Diretora da “Folha de Sabará”
Mais do que uma cerimônia, a Abertura do Sepulcro é um dos momentos mais profundos e singulares da Semana Santa em Sabará. Trata-se de uma tradição que atravessa gerações, carregando em cada gesto, silêncio e símbolo uma forma única de vivenciar a fé.Ao longo dos anos, o rito foi sendo preservado pelo povo sabarense, que transformou a dor da Paixão de Cristo em presença, companhia e devoção.
Diferente das narrativas tradicionais, aqui não há abandono — há permanência. Não há silêncio vazio — há vigília.Para compreender a força dessa tradição, é preciso voltar à origem de seu significado, mergulhar em suas simbologias e entender o gesto que atravessa o tempo: o de um povo que decide não deixar Cristo sozinho.
É nesse contexto que nasce uma das mais emocionantes expressões da religiosidade sabarense.
Nasce uma Tradição
Aprisionado no Monte das Oliveiras, Jesus, começa a amargar dolorosa solidão. Os amigos traem , negam, fogem. Ele é levado a julgamento caminhando sozinho em meio a furiosas multidões doutrinadas pelos sacerdotes. Arrasta solitário sua cruz e, no Calvário, sente-se até desamparado pelo Pai:
- Meu Deus, por que me abandonaste?
Consumado o sacrifício, ganha a sepultura o corpo do Santo Renegado. Mas antes que os anjos afastem a pedra e a ressurreição glorifique aquele homem massacrado, o sabarense entra no seplcro, posta-se ao lado do Divino Solitário e faz o velório que a História Lhe negou, dizendo:
- Aqui estamos, Senhor. Somos os amigos que ousaram não fugir.
A Idade da Cerimônia
A origem da Abertura do Sepulcro, segundo poucos registros escritos, se perde na noite de nossa História. Por certo a cerimônia é mais que bicentenária.
Por que quinta-feira?
Indaga-se o porquê de a Abertura do Sepulcro acontecer na quinta-feira, já que na sexta é que se rememora a morte de Jesus. Analisemos os fatos:
1. A cerimônia, por ser criação sabarense, não faz parte das celebrações oficiais da Igreja Romana. Obviamente, seus criadores, fiéis católicos, não deveriam competir com a agenda de sua Igreja. Na sexta-feira da Paixão, a programação estava fechada: Cerimônia da Cruz, Sermão das Sete Palavra, Descendimento da Cruz, Procissão do Enterro. Impossível na Sexta-Feira da Paixão.
2. Por que não no Sábado? A igreja recomenda recolhimento nesse dia. Também aos judeus não lhes era permitido certas atividades a partir das 18 horas de sexta-feira. Os sacerdotes até acusavam Jesus de permitir aos discípulos colher espigas no sábado. Por isso o corpo de Jesus foi retirado antes das dezoito horas da sexta-feira, e as mulheres só foram ungir o corpo de Cristo no início do domingo. No nosso caso, a irreverência popular queimava simbólica e festivamente o Judas, desaconselhando a celebração do dramático evento na data. Restou a tarde da Quinta-Feira Santa, pois à noite haveria a cerimônia do Lava-Pés.
Sábia decisão. A Procissão do Encontro entre Jesus e Maria aqui ocorre na terça-feira. Será que o Mestre carregou sua cruz de terça até sexta-feira? Mais que rígidas datas, importa refletir, em uma semana, os momentos finais da vida terrena de Jesus.
Ações e Simbologias
1. A Vigília
Representa o velório que o povo sabarense presta ao corpo de Jesus. Muitos dos homens que ali se revezam, montando guarda ao morto, repetem gesto de muitos de seus antepassados. É tradição perpetuada por famílias sabarenses.
2. As Lamentações do Coro
O coral “Flos Carmeli”, ao entoar lamentos em latim, relembra as carpideiras, mulheres que, na cultura dos judeus e outras culturas, compareciam para lamentar a morte nos velórios e enterros.
3. O Manjericão
O sabarense deposita ramos de manjericão aos pés do Senhor Morto. Ele também retira um galho que ali se encontra depositado por outra pessoa e o leva para ser plantado em casa. Esse galho rebrota e no anos seguinte o processo se repete. O rebrotar da planta evoca a ressurreição. Além disso, o perfume que toma conta do recinto nos diz que ali se respira, não o cheiro da morte, mas o perfume da natureza, a essência da vida.
4. A Troca de Moedas
Rezamos no “Credo” que, antes de subir aos céus, Jesus visitou a Mansão dos Mortos. Podemos especular. A mitologia grega dizia que havia um rio separando o mundo dos vivos do mundo dos mortos. A alma, para ultrapassar o tal rio, deveria pagar o transporte ao barqueiro Caronte. Por isso era costume colocar moeda nos olhos ou na boca dos defuntos. Era a paga ao barqueiro. O Sabarense, ao colocar sua moeda ao lado do corpo de Jesus, está como a dizer que Cristo é o barqueiro que irá nos transportar desse mundo dos vivos para nossa morada eterna, o mundo dos fiéis defuntos.
É comum o fiel sabarense trocar a moeda que traz por uma que ali se encontra. Essa moeda lhe trará muitas outras, dinheiro que deverá ser usado em ações de caridade.
Epílogo
Representa tudo Isso a Abertura do Sepulcro. Além da mistura de fé, tradição e muita cultura, significa o momento maior da religiosidade sabarense. Orgulhemo-nos deste patrimônio que nos foi legado pelos nossos antepassados. E o preservemos.
(Texto De Luiz Alves, para a “Folha de Sabará)
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