Não eram nem oito horas e os tambores dos Congados já anunciavam que aquele não seria um domingo comum – era o som da festa de Nossa Senhora do Rosário. O andor para a Virgem desfilar começou a ser enfeitado ainda na madrugada; o cheiro dos cravos e das margaridas exalavam pelo ar.
A praça Melo Viana não ficou lotada como no ano passado, mas ainda assim, cerca de 250 pessoas acompanharam a celebração que aconteceu no adro da Paróquia. Ao todo, dez grupos de Congado participaram do evento este ano, sendo três de Sabará e os restantes vindos de cidades vizinhas como Raposos, Caeté, Belo Horizonte, Nova Lima, entre outras.
O evento é um dos mais tradicionais acontecimentos na cidade, sendo recentemente a festa registrada como Patrimônio Imaterial de Sabará. Toda a celebração é cantada e tocada em ritmo congo – estilo de missa que põe em diálogo a liturgia da Igreja Católica e a religiosidade popular. As melodias assim como os instrumentos das rezas e ladainhas são feitas através dos tambores e pandeiros dos congados, o que deixa a missa ainda mais alegre.
De acordo com o padre José Geraldo Neto, responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Rosário, a adoração a Virgem é uma das mais antigas manifestações de fé da Igreja Católica.
“A festa de Nossa Senhora do Rosário foi instituída pelo Papa Pio V em 1571 para lembrar a vitória dos cristãos na Batalha de Lepanto (conflito naval travado entre uma esquadra da Liga Santa da Igreja Católica e o Império Otomano em 1571); quando a Espanha junto com outros estados impediu o avanço da estação islâmica no mediterrâneo. A partir daí começou esta festa para lembrar aquele grande dia, onde os cristãos em um só coração pediram a interseção da Mãe para que pudessem assim vencer aquela batalha. Se nós observarmos um pouco, veremos que a devoção ao Santo Rosário está em vários países, sendo ele recitado em vários idiomas, tamanha sua importância para a igreja e para o povo”, explicou o pároco durante a celebração.
O anúncio do próximo casal de reis e mordomos foi feito antes da procissão. Para 2017 foram escolhidos como mordomos o casal Dirléia e Marcílio dos Santos; os reis serão Geraldo Orlando de Souza e Consolação Costa Joaquim. Para a rainha escolhida, que sempre participou da festa, é uma alegria muito grande assumir uma missão tão importante. “Essa é uma maneira diferente de viver esse Deus que é só ternura. Nós sabemos do trabalho pela frente, mas é uma festa bonita que não é só cultura, tem também um lado espiritual muito forte que tem que ser revivido, porque daqui a pouco nossos jovens e adolescentes não terão oportunidade de vivenciar isso”, disse Consolação.
No final da missa, a Virgem do Rosário foi coroada ainda na Praça; em seguida os fiéis saíram em procissão com a imagem da Santa acompanhada pelas guardas de congado, mucamas da rainha e do Rosário, Lavadeiras e ainda as mucaminhas, meninas que também se vestem de mucamas para celebrar a devoção à Nossa Senhora. Como é o caso da jovem Priscila de 13 anos que estava com a vestimenta e coroou a imagem do Rosário. Também participou do evento o grupo Mucamas de Sinhá e a Sociedade Musical Santa Cecília.
Este ano a cortejo foi composto ainda pelos reis, rainhas e mordomos do Rosário das festas anteriores, pois o casal eleito para conduzir a festa deste ano desistiu. Antônio José da Silva, mais conhecido como Tunella, e Lourdes Oliveira, reis em 2015, desfilaram novamente. Tunella explicou que diante da desistência dos reis, a comissão organizadora e os reis de outros anos se uniram e em pouco mais de 20 dias organizaram a festa com o apoio da comunidade. Para o casal é muito emocionante participar da celebração. “Para representar o casal de rei e rainha, é preciso ter muita fé e perseverança é isso que nos move, isso que nos fez trabalhar ano passado e segurar este ano para evitar que a festa perdesse o brilhantismo”, falou Lourdes.
Além do casal, estavam presentes os reis de 1993, Pedro e Geralda, a rainha Maria do Carmo que foi sozinha, Gilson que foi rei em 2004 e formou um novo casal com Júnia, rainha em 2013.
Apesar dos acontecimentos, a festa não perdeu seu brilhantismo, a beleza, a alegria e acima de tudo a fé puderam ser vistas e sentidas durante a procissão que percorreu as ruas do Centro Histórico, que se enfeitaram para receber Nossa Senhora do Rosário.
Faltou respeito!
O andor de Nossa Senhora teve que se esquivar de carros estacionados nas ruas, pois alguns motoristas não tiraram os veículos para a passagem da procissão. Na praça Melo Viana, mesmo após o pedido dos padres, os taxistas também não retiraram os carros o que atrapalhou um pouco o brilho da festa. Também houve um deslize na organização do evento que, na última hora, mudou o trajeto da procissão que não passou pela rua Pedro II, onde os moradores haviam enfeitado as janelas para passagem da imagem da Santa.
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