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Especiais Largo do Ó

Falas diferentes constroem a história de todos

Falas diferentes constroem a história de todos

05/08/2016 17h24
Por: Glaucia Melo Clark
Falas diferentes constroem a história de todos

Cada diálogo um novo detalhe vai surgindo; a versão de quem está no largo há muitos anos se contrasta com os novatos que neste espaço sempre quiseram estar. Aos poucos as lembranças de cada vizinho da Senhora do Ó vão se cruzando e nos ajudando a traçar talvez uma parte da história do Largo

CASA 22: Dona Arízia Correia da Silva tem 83 anos e mora há quase sete décadas no Largo. Arízia nasceu na terra de Chico Xavier, em Pedro Leopoldo; ela conta que perdeu o pai quando tinha seis anos e a mãe com 24. Com poucas condições para ela e para os irmãos, com influencia do médium ela veio parar em Sabará, no abrigo Irmã Teresa. Foi Chico Xavier que apoiou a família quando passou por momentos de dificuldades.

“Mudei para esta casa do Largo quando me casei, meu marido trabalhava na Vale e depois passou a ser operário da Companhia Belgo Mineira, onde se aposentou. Quando viemos para cá eram quatro cômodos, como tive sete filhos tivemos que ampliar o imóvel. Meus filhos cresceram aqui, hoje todos estão casados. Chamo nosso Largo do Ó de ‘Pedacinho do Céu’, pois aqui é maravilhoso. Lembro de tudo como se fosse hoje, das festas de São João, dos meus filhos indo e vindo da casa dos vizinhos, lembro ainda da gente aprendendo tricô e crochê no meio da rua, era lindo. Dei muitas aulas de tricô aqui na minha casa, os vizinhos são ótimos. Nosso pedaço do céu sempre foi motivo de orgulho para a cidade, embora somente mais tarde isso foi completamente reconhecido”, ressalta.

CASA 26: “Se eu fosse contar tudo que vi e vivi aqui poderia escrever um livro; quando mudei aqui não tinha água e os banheiros eram ainda de fossa. Quando compramos a casa pagávamos muito pouco por mês, depois fomos contemplados pela Belgo e compramos. Aqui eu tive meus nove filhos e todos foram criados aqui. A meninada cresceu correndo por essas ruas que antes eram terras; a igreja não tinha a importância que tem hoje, na verdade ainda não se imaginava que seria o cartão postal da cidade. Antes eram pedras grandes na rua, quando chovia fazia buracos grandes e a gente tinha que ficar tampando. Essas casas eram de Antônio Geo e depois foi para as mãos da Belgo e da empresa veio para os moradores. Aqui é um local abençoado, melhor lugar do mundo para se morar”. Nair Augusta, 80 anos de idade, 61 morando no Largo.

CASA 32: Há cerca de três meses o imóvel recebe a sede da Cooperativa de Artesanatos de Sabará (COOPERARTES). Antes a associação funcionava na Praça Melo Viana, no Centro, mas segundo a funcionária do local, Alana Ferreira, há pouco tempo a sede passou para o Largo do Ó para reduzir custos com aluguel e também a fim de aproveitar o movimento turístico, que é bem maior no Largo do que em outros pontos da cidade. “Muitos turistas passam direto pela cidade e vem visitar a Igreja do Ó; com isso o movimento aqui neste local é bem maior”, explica a atendente. Em todos os cômodos da casa, incluindo o banheiro, estão expostos os objetos dos artesãos sabarenses.

CASA 38: Maria Madalena de Freitas tem 85 anos e mora no Largo da igreja do Ó com os sobrinhos há três décadas; de poucas palavras ela diz que as festas da igreja são a alegria da comunidade. Já a sobrinha, Lidiane Maia de 38 anos, diz que mora no Largo desde quando nasceu. “O Largo foi praticamente construído pela Belgo Mineira, todos os donos eram ex-funcionários da fábrica, meu avô e meu pai trabalharam na companhia e hoje a casa continua com a família. Minhas lembranças são mais recentes, as mudanças no canteiro, nossas brincadeiras de criança em torno da igreja e os diversos turistas que por aqui passaram”.

CASA 56: O casal, dona Maria Irene de Melo e sr. Unias de Melo, moram no Largo há 54 anos. Ela com 75 anos de idade e ele 85, eles adoram a comunidade e todas as histórias que rodeiam a Capela de Nossa senhora do Ó. “Esta casa pertencia a família do meu marido, eu morava perto de Rezende Costa, na Cachoeira dos Forro, mas vim para Sabará quando ainda tinha nove anos. Minha família morou inicialmente na rua de trás, depois que casei com Unias viemos para esta casa, daqui nunca saímos nem pretendo sair. Tudo no Largo é muito bom, uma paz maravilhosa e nunca tive problemas na criação dos meus filhos, sem dúvida um pedaço do céu realmente”, disse dona Irene.

Sr. Unias lembra que o espaço é lindo, mas precisa de mais atenção para não se acabar com o tempo. “é preciso mais cuidados com as ruas, casas e principalmente com a igreja. A Igreja do Ó é muito antiga e precisa de cuidados constantes, não podemos esperar as coisas caírem para consertar, nossa igreja representa o Estado e temos que ficar implorando atenção; a comunidade sozinha não dá conta infelizmente. Ela é o destaque da cidade”, ressalta o morador.

CASA 69: O Largo do Ó também abraça novos moradores, ainda mais os que sempre foram apaixonados pelo local, mesmo antes de se tonar um vizinho da Senhora do Ó. É o caso do militar sabarense, Rodrigo Guimarães; ele comprou a casa em 2010 e sempre sonhou em morar nesta comunidade. “Esta casa parece que foi guardada para mim, quando teve um concurso de fotografia da polícia eu fiquei entre os finalistas com uma foto da igreja tirada em frente esta casa, nem sonhava em vir para cá. Realizamos algumas obras, mas fizemos questão de preservar ao máximo sua arquitetura original, temos aqui paredes ainda de adobe. Tenho dois filhos e eles adoram morar aqui; uma tranquilidade muito boa”.

CASA 75: A esportista Evelyn Cristina de Souza também é uma recém-chegada ao Largo, está na comunidade há apenas quatro anos. Ela é filha de dona Luzia das Graças de Souza Neves e vieram para a casa 75 após o imóvel ser arrendado e dividido entre os parentes de seu pai. Ela conta que não tem muita relação com o local, apesar de seu pai ter sido criado no Largo, mas diz que para quem busca tranquilidade, o Largo do Ó sem dúvida é o melhor local da cidade.

CASA 81: Antônio Leonardo Jacinto, 71 anos, é conhecido no Largo como “Tonico Biroska”, nome também que recebe seu bar que é um dos pontos de encontros e bate papo mais conhecidos do local, o “Bar Biroska”. Casado com Cleia Ramalho, o casal mora na comunidade há 38 anos. O sabarense também é ex-funcionário da Belgo Mineira, aposentado há 26 anos. “Eu mesmo construir esta casa, pois morava em Ravena e depois de pronta viemos para cá”. Cleia diz que o local mudou muito pouco, mas o movimento de turistas reduziu. “Como temos o bar há mais de 20 anos percebemos a redução dos visitantes á igreja; as festas também caíram muito de produção, é uma pena”.

CASA 84: A professora Inês Paiva Xavier e sua mãe, a dona Maria da Conceição mais conhecida como “dona Mariinha” também chegaram ao Largo do Ó há quase 60 anos. A filha tem 52 anos de idade e conta que cresceu brincando no local; conheceu o Largo ainda quando as ruas eram de terra pura. “No Largo tinha um parquinho e uma árvore enorme no meio da praça, brincávamos o dia todo neste espaço. Meu pai também trabalhava na Companhia Belgo Mineira e teve preferencia na compra desta casa. Lembro também que as postas da Igreja do Ó eram vermelhas, com o tempo foram pintadas de azul, não sei por que”.

Dona Mariinha tem 82 anos, ela diz que o local mudou um pouco fisicamente, mas aumentou ainda mais a sua importância para a cidade. “Acho que foi o prefeito Marcelo Dias que fez este calçamento há muitos anos e ainda está assim. Antes todo mundo sentava na porta da igreja para bater papo, isso se perdeu com o tempo, mas os vizinhos ainda são ótimos. Antigamente tinha muitos cabritos nessa praça, eram criados pelos moradores do lado esquerdo, era bonito demais”, completou.

CASA 90: Maria da Conceição do Carmo é uma das principais defensoras das tradições, arquitetura e do bem estar do Largo, principalmente da Igreja. Ela é a zeladora da Capela do Ó há alguns anos. Dona Biá, como é conhecida por todos, nasceu em Itabirito e mora no Largo há mais de 50 anos. “Tenho uma experiência muito boa aqui, uma tranquilidade bonita, uma paz, é um local de se viver para sempre. A igreja é uma joia rara da cidade e que lutamos por ela. Eu mesmo faço tudo que é possível pela comunidade. Estou à frente da Capela como zeladora há mais de 30 anos, nunca desanimei”, disse.

Dona Maria da Conceição foi morar na casa 90 do Largo quando se casou, teve cinco filhos e todos foram criados no local. Ela conta que a comunidade só existe devido à fábrica Belgo Mineira, que era conhecida na cidade como “Belgo Mãe”. “Com exceção dos moradores novos, todos os antigos eram ex-funcionários desta empresa; e foi através dela que viemos morar nestas casas. A Belgo facilitou a venda destes imóveis para os funcionários aí o pessoal foi comprando e assim foi se formando a comunidade do Largo”, explica.

Dona Biá também tem lembranças de como era o Largo antes das transformações pelo tempo. “Existia uma árvore muito grande no meio da praça, o local ainda era de terra. A igreja não tinha celebrações e ficava sempre fechada, fedia mofo. Sempre foi uma capela linda, mas não era interessante para visitantes; depois começamos a movimentá-la e passou a ter celebrações, com os anos a Igreja virou o cartão postal da cidade. Depois chegou um dos prefeitos aí fez um jardim no meio da praça, em frente à igreja; parecia um túmulo – todos os moradores acharam ruim e desmanchou. Mais tarde outro prefeito trouxe este calçamento para o local e está até o momento. Aqui tinham um aspecto de roça mesmo, cabritos no meio da praça, crianças brincando nas ruas, hoje tudo isso se passou, evoluiu. Mas as tradições permaneceram, lutamos diariamente pelo nosso cantinho”, finaliza.

CASA 95- O imóvel é muito antigo, mas a moradora é a mais nova a fazer parte da família do Ó, é assim que Ângela Cruz, que está no local há pouco mais de um ano define os moradores do Largo. Ela diz que adora o lugar e os vizinhos. “A sensação que eu tive quando mudei foi a que eu estava voltando para casa, porque aqui todo mundo se conhece, as famílias se conhecem. Foi um encaixe perfeito”, diz. Aqui, realmente é como uma família, como diz Dona Arízia é um pedacinho do céu. Ângela conta do evento “Ó Paladarte” que acontece mensalmente no Largo. Os moradores organizam uma feira de artesanato e gastronomia, onde são vendidos produtos feitos por eles.

CASA 96 – A dona da casa é a senhora Gertrudes da Silva; em uma tarde fria com sol quase não aparecendo, aos 95 anos de idade dona Gertrudes prefere não sair do quarto – o que é muito compreensível. Quem conversa um pouco conosco é o genro, Helí Rodrigues da Silva, de 68 anos. Ele é casado com dona Regina Célia Silva e moram na rua atrás do Largo, mas conta que também viu as transformações do local.

“Minha esposa conta que cresceu brincando neste Largo, como o espaço sempre foi muito tranquilo ele é propício para as brincadeiras da criançada; foi também aqui neste espaço que eu a conheci e mais tarde nos casamos. Minha sogra mora nesta casa há cerca de 75 anos, de lá para cá muita coisa mudou. Muitos vizinhos se foram outros chegaram e também nem aqui estão mais. As casinhas eram mais iguais, hoje algumas coisas mudaram, algumas arquiteturas, embora o local seja tombado. Aqui deveria ser mais zelado, falta limpeza; a Igreja do Ó é o cartão postal da cidade, mas é um dos últimos locais observados pelo poder público. Mas ainda sim, as festas, as tradições e tudo que é ligado a Igreja a comunidade faz questão de preservar”, ressalta.

CASA 100: Vanusa Araújo tem 39 anos e desde os três mora com uma tia no largo. Ela conta que viu parte da transformação do local, viu o transporte mudar de carroça para carros pesados, as casas receberem cores vivas, além da troca do curral para garagem. “Em frente à igreja era um espaço grande com terra onde brincávamos muito. Aqui era um local mais calmo, podia largar tudo aberto e sair – não tinha roubos; hoje as coisas mudaram. Todas as casas criavam porcos, galinhas, cavalos; agora não é mais permitido. As festas eram mais organizadas e lotavam o Largo. Os amigos que cresceram brincando comigo, casaram, mudaram, não há mais aquela convivência de antes apesar dos vizinhos serem todos conhecidos e tranquilos. Mas o local é eterno – a essência não modificou”, relembra.

Vanusa diz ainda que a Capela sempre recebeu dezenas de turistas por dia, e esse movimento não acabou; o que mudou foi o lucro da dona de casa com os olhares curiosos. “A gente pegava umas pedras preta e vermelha num matagal que tinha atrás da igreja, aí vendia para os turistas. Falávamos que as pedras eram da igreja e milagrosas, coisas de criança né? Hoje os turistas não gastam, são ‘pão duros’”, conta ela aos risos. É Vanuza que lembra ainda de Juca Doceiro; ela guarda em suas dezenas de fotografias uma imagem em preto e banco de Juca vendendo seus famosos doces no Largo do Ó. “Ele passava aqui todos os dias com seu burrinho vendendo os doces, eram deliciosos. Eu comprava os doces quando era jovem e depois passei a comprar para meus filhos”, completou.

CASA 118: Jorge Duarte Laje, o “Seu Jorge”, é mais uma figura ilustre do Lardo do Ó, há 60 anos mora no local. A casa do aposentado não é a mais antiga, mas foi construída em 1937, uma placa simbólica ostenta a idade da construção. Sr. Jorge nasceu em Conceição do Mato Dentro e veio para a cidade quando também começou a trabalhar na antiga Belgo Mineira. “fui operário da Belgo por 29 anos e tenho 43 de aposentado. Na época eu já estava nesta casa e não queria ficar atoa, além disso precisava aumentar a renda da aposentadoria, aí abrir o bar”.

O “Bar do Seu Jorge” tem 40 anos e é um ponto quase que oficial do Largo; ele conta ainda que seus oito filhos foram todos criados nesta casa e brincando ao lado das paredes da igreja; e as festas sempre foram uma maravilha a parte. “Vejo tudo da minha varanda, os festejos e os turistas. O Largo é o coração de Sabará, sem a igreja de Nossa Senhora do Ó acho que ninguém conheceria esta cidade” finalizou.

CASA 140: “Moro aqui desde quando nasci, brincava com meus cinco irmãos por esta ladeira. Esta casa está com nossa família tem mais de cem anos. Como não fico muito em casa, não tive muito contato com os turistas, mas os moradores são todos muito amigos”, conta um dos moradores da casa 140, José Luiz Matias Filho, de 69 anos.

CASA 155: Olga Teixeira pode não ser a moradora mais antiga do local, já que tem 55 anos de idade, mas sua casa talvez seja o imóvel mais antigo. Em local privilegiado, a casa 155 está localizada atrás da igreja e tem escritura datada de 1903, são 113 anos nas mãos da família Teixeira.

Olga é uma das produtoras sabarenses de produtos derivados da Jabuticaba; com um pomar lindo e cheio de opções, ela conta que quase não brincava no Largo, pois era proibida pelo pai. “Ele não deixava a gente sair por que nosso terreno é muito grande e ele dizia que não havia necessidade. A gente esperava ele sair para a Belgo e fugíamos para a rua para brincar, soltávamos papagaio até as onze da noite, era uma alegria. Essa casa era dos meus avós, Luiz França Alves, depois passou para meus pais”.

A família de Olga criavam os cabritos citados por outros moradores acima, ela diz que o leite das cabras salvou a vida de muitas crianças não só do Largo, mas da cidade. “Muitos bebês eram alérgicos e naquela época as pessoas não sabiam, ficavam desnutridos e vinham correndo pedir minha mãe e tias o leite das cabras; era um excelente remédio”, diz. Olga tem oito irmãos e todos foram criados no local; no Largo ainda tem um dos irmãos de Olga, o comerciante Vitor Teixeira, 71 anos, hoje mora na rua Joaquim Siqueira, que é uma extensão do Largo.

“Eu aprontava todas aqui neste Largo, essa igreja faz parte da vida da gente; as noites eram as melhores. Juntava uma meninada nesta praça e todo mundo ficava brincando. Arranquei muitas unhas jogando bola nas gramas em torno da igreja e nas terras. Meus filhos graças a Deus tiveram o privilégio de também crescer nesta comunidade. Sentávamos na porta dessa igreja e os mais velhos contavam “causos” de lobisomem, mula sem cabeça; falavam que a igreja era mal assombrada. Hoje em dia não fica ninguém mais nas ruas, as crianças não brincam, gostam é de tecnologias”, disse o senhor Vitor.

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