A rotina de qualquer professor já é difícil, somente aqueles que possuem o dom de ensinar conseguem lidar com as dificuldades encontradas diariamente no caminho da educação. Apesar dos desafios, existem algumas pessoas que vão além, elas dedicam seu tempo ensinando criança, jovens e adultos que possuem diferentes tipos de deficiência que influenciam diretamente no aprendizado. E esses guerreiros que se superam a cada dia têm muito orgulho daquilo que fazem.
Por isso, nesse 15 de outubro, Dia do Professor, resolvemos fazer uma homenagem a esses mestres especiais que estão dentro das sala de aulas ensinando desde a formação de uma palavra a “simples” ações como escovar os dentes ou segurar um talher.
Em Sabará, encontramos com alguns professores especiais na APAE, que há 31 anos desenvolve um belíssimo trabalho na cidade.
Alegria em
ensinar
A semana era de festa, antecedendo o Dia das Crianças e dos Professores, por isso fomos presenteados com apresentações de danças e teatrais, e muita felicidade.
A emoção, alegria e satisfação podiam ser vistas em cada gesto daqueles alunos, em cada olhar, não só daqueles que apresentavam, mas também daqueles que assistiam. A plateia vibrou com as encenações. Os colegas cantavam o nome dos artistas do momento ao fim de cada interpretação e os atores e músicos saiam do palco improvisado “nas nuvens”, naquele momento eles eram os artistas mais famosos que existiam.
Os professores? Ah, esses eram os mais entusiasmados, empolgados e também emocionados, era fácil ver um ou outro com os olhos cheios de lágrimas.
Andréia é um exemplo. A professora trabalha há dois anos na APAE e disse que esse tempo está sendo maravilhoso e de muito aprendizado. “Todos os dias é uma degrau a mais para o meu conhecimento e também dos alunos. O meu dia a dia é uma troca de conhecimento entre eu e esses meninos”, diz. Para a professora, que trabalha com a turma de convivência, que são alunos mais velhos e mais comprometidos, o grande desafio é superar as limitações dos alunos, “cada conquista por menor que seja, é muito grande!”. Na sala de aula são trabalhadas tarefas do dia a dia, como pentear os cabelos, arrumar uma cama, varrer a casa, escovar os dentes. O objetivo é encaminhar os alunos, em sua maioria adultos, para a vida, socializá-los e dar mais independência para exercitar tarefas do cotidiano.
A felicidade da professora está em quando através de seu trabalho os alunos conseguem mostrar seus sentimentos. “Para mim a maior alegria é ver o que eles mostraram hoje”, diz. No teatro uma das alunas de Andréia interpretou de forma brilhante Rose, personagem principal do filme Titanic, e conseguiu emocionar muita gente.
Pequenos passos,
grandes conquistas
Vânia Lúcia Batista se orgulha em trabalhar na APAE. São trinta e um anos dedicados aos seus alunos que são mais que especiais. A professora começou junto com a própria instituição na cidade, ela diz que apesar de ter lecionado paralelamente em outras escolas, chamadas regulares, sua grande paixão sempre foi a APAE.
Para ela, os desafios são vários, a professora diz que muitas crianças não têm a apoio necessário da família, o que dificulta muito seu trabalho. Afirmou que é impossível trabalhar sozinha com essas crianças, por isso a família é tão importante. Ressaltou que na APAE o trabalho é integrado. Além de Lúcia, que é pedagoga e estimula o lado cognitivo de seus alunos, os meninos têm o acompanhamento de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e outros profissionais da área de saúde.
Se os desafios são muitos, as alegrias são imensas, pois afinal um pequeno passo (literalmente) se torna gigantesco. “Todos meus alunos são cadeirantes, eles têm paralisia cerebral. Uma aluna nossa que hoje está com seis anos, não andava até há pouco tempo e agora está dando seus primeiros passos, isso é uma alegria enorme, e mostra um trabalho de dedicação de toda equipe”, conta.
“Eles nos ajudam”. É dessa forma que Denise Morais define a relação com seus alunos. A professora entrou para a sala de aula este ano, mas já esta na APAE desde 2009. Para Denise a experiência é ótima, ela diz que a sua missão e dos outros professores da instituição não é só alfabetizar, é ensinar a viver.
Denise diz que as dificuldades são superadas com pequenos gestos dos alunos. “Eu tenho um aluno que fez o desenho de uma pessoa com uma capa e escreveu a letra D, me deu e me disse: ‘Tia eu te coloquei com a capa, porque você é uma super professora’, é esse carinho que nos emociona”, conta.
Há 20 anos na profissão, Edna Batista passou a trabalhar com crianças especiais há pouco mais de um ano, após se especializar, e para ela a experiência esta sendo ótima. A professora diz que o carinho recebido pelos alunos, supera qualquer dificuldade. “A alegria e a recompensa vêm naquela hora, que a gente pensa: ‘ Será que eles vão conseguir? ’. E eles conseguem. Eu gosto muito de trabalhar aqui”, diz.
Irene Magalhães é completamente apaixonada pelos meninos da APAE, pois mesmo após ficar 18 anos se dedicando à instituição e se aposentar, retornou para trabalhar de forma voluntária. Ela diz que por ter passado todos esses anos na APAE, trabalhou com crianças com diferentes tipos de síndrome e deficiências e tudo isso serviu como um grande aprendizado. “Tudo que eles fazem me emociona, uma apresentação de teatro como esta que vimos hoje é super emocionante. Ver a intensidade da entrega dos meninos, eles saberem que são o centro das atenções e que têm capacidade para fazer algo. Isso me faz muito bem”, afirma.
Esses são apenas alguns depoimentos desses heróis que dedicam horas, dias, meses e anos de suas vidas à educação, mais do que ensinar a ler e escrever; esses mestres ensinam a falar, caminhar e viver!
APAE
A Associação de Pais Amigos dos Excepcionais (APAE) está em Sabará há 31 anos. Atualmente, sua presidente é a pedagoga e psicóloga Martha Del Rio, que exerce a função desde janeiro de 2014.
Marta explica que a APAE recebe alunos com deficiência intelectual, deficiências múltiplas e com aspectos de autismo e ressalta que a predominância da instituição é a assistência social a essas pessoas. O local oferece atendimento clínico para os alunos e outros usuários da comunidade que podem receber o acolhimento desde recém nascido. Oferece atendimento com psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, psiquiatra, técnico de enfermagem, assistente social e médico generalista. Além disso, na instituição funciona a escola (ESAE), onde é ensinada a educação formal e também atividades da vida diária. Alguns alunos participam ainda de oficinas, como a de culinária, onde são feitos doces e sorvetes que são vendidos na própria instituição. Já outros fazem jardinagem ou trabalham com reciclagem.
Para manter toda a essa estrutura presidente diz que depende muito da contribuição e apoio da população e das empresas localizadas na cidade.
Dona Marta afirma que algumas organizações fizeram parceria com a APAE empregando alunos do local. Atualmente, 53 estudantes da instituição estão no mercado de trabalho.
O esporte também é valorizado na APAE. Alguns alunos já subiram ao pódio em competições estaduais e nacionais no futsal e atletismo.
Trabalhando voluntariamente, Marta diz que o carinho e o retorno dos meninos valem mais do que tudo. “Quando os vi maquiando para o teatro, eles estavam tão felizes e isso me faz muito bem. Eles precisam de muito pouco para serem felizes, isso é um grande aprendizado”, diz. A presidente ressaltou que o carinho dessas crianças é motivante. “E uma obra muito difícil, mas é muito recompensadora”, concluiu.
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