
Como uma boa cidade histórica aos seus 304 anos recém-completados, Sabará sempre esteve sob os holofotes da mídia e no gosto de turistas do Brasil e do mundo. Enquanto os moradores buscam cultura em outros locais, a cidade recebe e abraça os olhares atentos vindos de fora.
Além de seus casarões históricos espalhados por todo o centro – dentre eles alguns recebem órgãos públicos como Prefeitura, Biblioteca Municipal, Câmara e até a sede da Caixa Econômica Federal; Sabará conta ainda com espaços responsáveis por manter viva a memória da cidade, como o Museu do Ouro e a Casa Borba Gato, o Museu de Arte Sacra e o espaço de visitas da Igreja Nossa Senhora do Carmo, onde ficam expostas algumas das principais obras do mestre do barroco mineiro, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Às vezes esses espaços tão importantes acabam passando despercebidos, até mesmo pelos sabarenses natos. Em um município com mais de 120 mil habitantes, poucos conhecem os locais que guardam uma arte centenária daqueles que passaram pela cidade, ainda antes dela receber o nome: Sabará.
A aposentada Dona Santana, de 58 anos, moradora do bairro de Fátima, é um exemplo. Residente na cidade há mais de 20 anos ela não sabia o endereço do Museu do Ouro. Sua filha, a estudante Karlla S. Chagas, de 17 anos, conhece o local, mas desconhece o que de história tem dentro das paredes da casa Borba Gato e nem sabia da existência do Museu de Artes Sacras, mesmo estando a poucos metros da Igreja do Rosário - no ponto de ônibus da Praça Melo Viana. “Eu já fui ao Museu do Ouro em uma excursão com a escola onde estudava, mas tem muitos anos. Nem sei chegar lá para falar a verdade. Tenho vontade de entrar aqui no Museu de Artes Sacras, mas sempre passamos pelo centro em momentos de correria”, disse a estudante.
Ary dos Anjos Maielo, de 70 anos, trabalha há nove anos como recepcionista do espaço de visitas da Igreja do Carmo. Segundo ele, em alguns meses o local não chega a receber 20 pessoas, e os visitantes que vão até o espaço quase sempre são turistas. “Mesmo aberto até aos sábados, tem dia que não aparece ninguém por aqui. No mês de junho e julho, período de férias, a igreja recebeu cerca de 50 pessoas cada mês. Geralmente os sabarenses optam por visitar outros lugares fora da cidade”, explica.
No interior da Igreja do Carmo estão guardadas diversas peças centenárias como as imagens de São Simão Stock e São João da Cruz, feitas pelas mãos do mestre Aleijadinho; além do quadro do cônego Antônio Firmino de Souza, datado de 1867, e um altar feito de madeira policromada com revestimentos de ouro, prata e ferro fundido, do século XVIII, entre outras obras.
Segundo Leonardo Miranda Paternost, bibliotecário da Casa Borba Gato, a visita ao local é ainda menor; em média duas por mês. O espaço, que é um anexo do Museu do Ouro, funciona como uma casa de pesquisa onde ficam arquivados registros dos séculos XVIII, XIX e XX, que incluem documentos centenários que pertenciam a cartórios e irmandades da cidade como inventários, testamentos, documentos criminalísticos, igrejas, entre outros. O espaço é gerenciado pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) que é um órgão do Ministério da Cultura (MinC).
Já o Museu de Artes Sacras, vinculado a Paróquia Nossa Senhora do Rosário, tem em média um público mensal de 180 pessoas. De acordo com Fabiano Dias, funcionário da Casa Paroquial, tem turistas que vem a cidade apenas para ver as obras deste museu. “Recebemos pessoas do mundo todo aqui. Temos um total de 30 peças, a maioria pertencia a Igreja Santa Rita, que ficava na pracinha do coreto e foi demolida há muitos anos”, ressalta Fabiano que mostra o livro de visitas onde, no mês de julho, nenhuma assinatura pertencia aos moradores da cidade.
O Museu do Ouro
Localizado na Rua da Intendência, próximo à Santa Casa, o Museu do Ouro foi criado em 1945, mas oficialmente inaugurado em maio de 1946. O espaço funciona em um prédio em estilo colonial de meados do século XVIII; o local era a antiga Casa da Real Intendência e Fundição do Ouro de Sabará.
Dentre os espaços de preservação a cultura aberto na cidade, o Museu do Ouro é o que mais recebe turista; pessoas que vêm de diversas cidades mineiras, além de outros estados e países. Segundo Ângelo Lanza, chefe de serviços do local, o museu recebe em média 1.200 visitantes por mês.
“O público aqui é diversificado; o carro chefe de visitas são as escolas, porque estamos muito perto de Belo Horizonte – esse público corresponde a 70% das visitas, que são previamente agendadas. Os outros 30% correspondem a um público que chamamos de comum; que são entradas esporádicas de todo tipo de visitante: nacional, estrangeiros, idosos, moradores do município, além de pesquisadores. Realmente os moradores da cidade nos visitam com menos frequência; às vezes aparecem apenas quando traz um amigo ou parente. Principalmente aqueles que moram nos bairros ao entorno do centro. Parece que essas pessoas não se identificam tanto com a história da cidade”, explica.
Ainda segundo Lanza, o espaço tem trabalhado para que essa estatística mude; e assim os moradores passam a conhecer um pouco mais da importância do museu. “Os museus estão direcionando essa questão de ser um simples depositário de peças antigas e tentando trabalhar mais em conjunto com a comunidade. Tanto o museu ir para fora quanto a comunidade vir para dentro do espaço; este é um trabalho que estamos desenvolvendo há algum tempo, mas claro que isso prevê um retorno em médio ou longo prazo”, ressalta.
O Museu do Ouro, que é gerenciado pelo IBRAM, possui uma rica exposição permanente de peças do mobiliário e arte sacra no pavimento superior, e no térreo ficam peças relacionadas à extração, processo de fundição, cunhagem e controle do ouro. Ao todo, entre as obras em exposição e em reserva, o espaço tem hoje 879 itens em seu acervo. O local está aberto a visitações de terça à sexta-feira, das 10h às 17h, e sábados e domingos, das 12h às 17h; a entrada custa apenas R$1,00.
A Casa Borba Gato fica aberta a pesquisas de segunda à sexta-feira, das 9h às 15h. O Museu de Artes Sacras (na lateral da Igreja do Rosário) abre de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h – entrada R$ 2,00. Já as visitas a Igreja do Carmo acontecem de terça a sábado, das 9h às 17h – a entrada custa R$ 3,00.