Quem anda pelo Centro Histórico de Sabará talvez não imagine que, além das igrejas, casarões e ruas antigas, o próprio chão guarda segredos que contam a história da cidade.
Os diferentes tipos de calçamento espalhados pelas ruas não são apenas detalhes urbanos — eles são verdadeiros registros do tempo.
Sabará, como outras cidades históricas, possui tipos de calçamento curiosos, cada um com sua função, sua origem e sua importância na construção da cidade.
O mais conhecido é o paralelepípedo, elaborado manualmente a partir de rochas como granito e basalto — materiais duros e altamente resistentes, ideais para vias com grande fluxo de veículos e pedestres.
Com formato retangular e peso aproximado de 8 quilos, esse tipo de calçamento pode ser observado em várias ruas de Sabará, especialmente no Centro Histórico, como na Rua Dom Pedro II (antiga Rua Direita) e na Praça Santa Rita.
Outro tipo de calçamento, muito comum em cidades históricas, é o chamado “pé de moleque”, uma característica marcante do conjunto arquitetônico de Sabará, que remonta ao período colonial e ao ciclo do ouro.
São pedras irregulares e arredondadas, colocadas manualmente, de forma artesanal.
O nome “pé de moleque” é curioso e tem diferentes explicações. Pode estar relacionado à aparência irregular do piso, semelhante ao doce tradicional. Mas também há relatos de que essas pedras eram ajustadas com os pés por filhos de pessoas escravizadas, o que revela um pedaço importante — e duro — da nossa história. Esse tipo de calçamento pode ser observado em locais como a Praça Melo Viana e nas ruas da República (atrás do Chafariz do Kaquende) e Intendência, onde se localiza o Museu do Ouro.
Mas há uma curiosidade que poucos sabarenses conhecem. Em algumas ruas do Centro Histórico, existe um tipo de calçamento feito com sobras e pedaços de mármore. Esse detalhe se tornou uma característica única e marcante da cidade, dando às calçadas um visual diferenciado e muito bonito, especialmente pelo tom rosado das pedras.
O material era proveniente de uma antiga jazida localizada no alto do Morro São Francisco. Esse tipo de calçamento foi executado por determinação do primeiro prefeito de Sabará, João Francisco Ferreira, conhecido como “Seu Joãozinho”, nomeado em 1930 pelo Presidente Getúlio Vargas1.
Curiosamente, muito antes disso, o explorador britânico Sir Richard Francis Burton, ao visitar Sabará em 1862, fez uma interessante previsão ao analisar a arquitetura da cidade: “passou da taipa à pedra e à argamassa. Dentre em pouco será de mármore”2.
De certa forma, ele não estava errado.
Fique atento quando passar pela Rua Mestre Caetano ou pelo Largo São Francisco.
Você pode se surpreender com a história que está logo ali — debaixo dos seus pés.
*Omar dos Santos Carvalho
*José Arcanjo Bouzas
1- Livro das Sessões da Câmara Municipal de Sabará. Acervo da Prefeitura Municipal de Sabará.
2 - Burton, sir Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao oceano Atlântico. Belo Horizonte/MG. 2019.







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