As dificuldades enfrentadas diariamente pelos motoristas de ônibus em Belo Horizonte, que também representam riscos para os passageiros, foram detalhadas em um estudo realizado pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro). Os resultados e recomendações foram apresentados nesta quinta-feira (18/9/25) à Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
A pesquisa, conduzida pelo pesquisador Eugênio Paceli Diniz, foi solicitada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo teve início em 2019, foi interrompido pela pandemia e concluído apenas em 2023.
O levantamento confirma denúncias antigas dos profissionais, especialmente após a retirada dos cobradores em 2012, substituídos pela bilhetagem eletrônica. Além da condução, os motoristas passaram a acumular funções como cobrar passagens, dar troco, orientar passageiros, operar o elevador para pessoas com deficiência e, muitas vezes, arrancar com o ônibus sem a devida visibilidade de embarque e desembarque.
Segundo o pesquisador, os cobradores atuavam como verdadeiros copilotos, auxiliando em trocas de faixa, manobras em ruas estreitas e organização do fluxo de passageiros. Sem esse apoio, aumentaram os riscos de acidentes e a sobrecarga mental dos motoristas.
O estudo deu origem à publicação “Apertem os cintos, o copiloto sumiu: o impacto da dupla função na segurança e saúde do motorista de ônibus e na qualidade dos serviços do transporte coletivo urbano e metropolitano de Belo Horizonte”.
Para José Márcio Ferreira, do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Belo Horizonte (STTRBH), a precarização da profissão tem levado motoristas a abandonarem a carreira, o que pode comprometer o funcionamento do sistema:
— Ter uma instituição de Estado olhando para isso e ampliando nossa voz nos dá esperança.
Representantes sindicais de outros municípios também reforçaram que a retirada dos cobradores ocorreu em diversas cidades do interior e pediram que o estudo seja apresentado em câmaras municipais para alertar sobre os riscos.
A Fundacentro elaborou também o documento “Recomendações técnicas para melhoria dos serviços e das condições de trabalho dos motoristas do transporte coletivo urbano e metropolitano de Belo Horizonte”, com propostas que envolvem tanto o poder público quanto as empresas de transporte.
Entre as medidas voltadas aos governos estão:
melhoria da sinalização viária;
revisão das regras de estacionamento em ruas estreitas;
fiscalização das condições de trabalho e dos veículos;
ampliação da distribuição de cartões de gratuidade.
Para as empresas, as recomendações incluem:
incentivo ao uso de cartões eletrônicos e maior número de pontos de recarga;
instalação de câmeras para aumentar a visibilidade dos motoristas;
maior intervalo entre viagens;
oferta de banheiros adequados;
criação de um grupo permanente de motoristas experientes para opinar sobre decisões técnicas, como a compra de novos veículos.
Apesar do apoio às propostas, os sindicatos reforçaram que nenhuma medida substitui a presença dos cobradores nos ônibus.
O deputado Celinho do Sintrocel (PCdoB), autor do requerimento da visita ao Fundacentro, destacou que a atividade dos motoristas é penosa e insalubre, gerando adoecimento físico e psicológico. Ele defendeu o retorno dos cobradores e a implementação da tarifa zero, por meio de subsídios governamentais, como forma de garantir um transporte público de qualidade para todos.
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