Como acontece a asfixia perinatal, como identificá-la na fase inicial, quais os fatores de risco e como prevenir o problema foram algumas das questões apresentadas por internautas e que nortearam o debate na audiência pública promovida pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) nesta quarta-feira (8).
A audiência foi marcada para instruir um projeto de lei (PL 5.034/2020) sobre a criação do Dia Nacional de Prevenção da Asfixia Perinatal (25 de setembro), diante de uma condição que é hoje a terceira causa de morte entre os bebês.
— Esse é um grande debate, necessário para promover a vida e a saúde, e por outro lado para prevenir as deficiências, porque são situações que, em muitos casos, podem ser prevenidas. O que queremos é ter a possibilidade de diminuir os casos — afirmou o senador Flávio Arns (Podemos-PR), autor do PL 5.034 e do requerimento para a audiência pública.
A asfixia perinatal é um agravo causado ao bebê devido à falta de oxigenação em período próximo ao nascimento, podendo ocorrer antes, durante ou imediatamente após o parto.
No Brasil, cerca de 20 mil bebês nascem por ano com encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI) — nome dado à síndrome clínica neonatal decorrente da falta de fornecimento sanguíneo para um tecido orgânico. A asfixia perinatal acarreta sérias lesões neurológicas em um a cada cinco casos. Entre as sequelas, constatam-se diversos graus de perda motora ou sensorial e de anormalidade na função cognitiva.
Segundo o fundador do Instituto Protegendo Cérebros e Salvando Futuros, Gabriel Variane, esse é um problema que atinge o mundo inteiro, afetando todos os anos 1,5 milhão de bebês, dos quais 230 mil deverão evoluir com graves sequelas. Entre elas, estão a paralisia cerebral, cegueira, surdez e deficiência cognitiva importante.
Os 20 mil casos/ano no Brasil perfazem uma média de aproximadamente dois bebês com EHI por hora, segundo Variane. Ele lembra que na última Paralimpíada, conforme noticiado, 25% dos atletas brasileiros tinham alguma deficiência devido a asfixia perinatal.
Os impactos são gigantescos, de acordo com o debatedor.
— Seja social, para a família, mas também o econômico. O custo de uma criança com deficiência envolve acompanhamento multidisciplinar, internações mais frequentes, número enorme de cirurgias e uso da UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).
Como prevenção da asfixia são necessários pré-natal adequado (diminui os fatores de risco) e assistência ao nascimento (obstetra e pediatra). Quando a criança é diagnosticada com asfixia é preciso tratamento especializado na UTI e, posteriormente, acompanhamento e reabilitação pós-alta da maternidade.
— Existe, sim, como melhorar as possibilidades para essas crianças, e a criação desse dia nacional vai nos ajudar a realmente mudar essa condição — expôs Variane.
Chefe do serviço de neonatologia do Departamento de Pediatria da Santa Casa de São Paulo, Maurício Magalhães alertou para a necessidade de reanimação adequada da criança ao nascer com asfixia.
Além de ser encaminhada para uma UTI — porque, além do cérebro, outros órgãos também sofrem, como o coração e o fígado —, existem tratamentos para tentar diminuir a sequela neurológica. Essas medidas iniciais devem ser adotadas em um período máximo de seis horas, pois na sequência o bebê entre numa fase mais crítica.
— Para bloquear essa segunda fase, se faz a hipotermia neuro-corpórea da criança, por 72 horas, e com isso conseguimos diminuir a chance de sequela. Aumentamos em 68% a chance de essa criança ser normal e diminuímos em 38% as chances de ter paralisia cerebral no futuro.
Outro recurso é a neuromonitorização, tecnologia usada para monitorar o cérebro da criança, porque 80% das crises convulsivas no período neonatal são subclínicas, segundo Magalhães.
— Vamos tentar evitar. Se aconteceu, vamos cuidar e mudar o panorama dessa criança e dessa família. Devemos continuar desenvolvendo técnicas de neuroproteção.
Emocionado, Magalhães disse que os médicos vivem isso no dia a dia e que “é realmente muito impactante entregar para a família uma criança com sequela neurológica”.
Coordenadora de Saúde da Criança e Aleitamento Materno do Ministério da Saúde, Janini Selva Ginani apontou a satisfação de ver o trabalho desenvolvido reverberando em um dia nacional de prevenção.
— Vemos famílias se desestruturando, mulheres que deixam o mercado de trabalho para cuidar das crianças, é realmente um problema social grave — disse.
De acordo com a coordenadora, desde 2011, com o início da Rede Cegonha, o Ministério da Saúde tem trabalhado neste e em outros problemas relacionados ao pré-natal, como na qualificação dos profissionais da saúde e da gestão e na vinculação da gestante ao hospital onde ela vai dar à luz.
— Atendimento pré-natal bem-feito é essencial para prevenir a asfixia perinatal. É preciso que tenhamos minimamente um pediatra em todas as salas de parto do nosso país. Precisamos do apoio para a construção de leis que nos ajudem a avançar cada vez mais.
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