Sabará recebeu na última semana o projeto “Olhares Cruzados” que trabalhou com alunos da Escola Estadual Dona Bilu Figueiredo e da Municipal Professora Maria Aparecida Batista (General Carneiro).
Os estudantes participaram das atividades do projeto “Brasil – Gana - Olhares Cruzados” e foram estimulados a conhecerem um pouco mais sobre o lugar onde moram e a realidade da cidade de Obuasi, localizada em Gana, no continente africano. Ao todo, 27 alunos participaram das atividades que aconteceram entre os dias 18 e 26 de maio.
Ao logo de uma semana, os estudantes tiveram a oportunidade de participar de oficinas de fotografia com o fotógrafo ganense Nii Obodai, de entrevistar pessoas que contaram um pouco da história de Sabará e de conhecer lugares e culturas da cidade onde moram, mas que ainda eram desconhecidas para eles.
O fotógrafo Nii Obudai afirmou que a experiência com os alunos foi muito boa. Em relação ao seu olhar do Brasil o fotógrafo disse que de fora se tem muitos estereótipos do nosso país e quando veio para cá pensou e encontrar algum desses, mas não foi o que se viu. Obudai afirmou que tinha uma visão de pobreza, mas aqui sua experiência não está sendo pobre, mas sim muito rica, superando vários estereótipos.
A diretora da Escola Bilu Figueiredo, Vanessa Lúcia Machado, disse que o trabalho começou antes mesmo da chegada dos responsáveis pelo projeto. Ela conta que o nome da cidade, “Obuasi” foi espalhado pela escola, para aguçar a curiosidade dos alunos e logo deu resultado. Os meninos pesquisaram sobre o local e foram feitos diversos trabalhos, onde eles descobriram as semelhanças das duas cidades. Após a realização dos trabalhos, alguns alunos do 6º e do 7º ano foram selecionados para participar do projeto.
Os estudantes disseram que adoraram participar do projeto, pois além de aprenderem sobre Obuasi que era totalmente novo, aprenderam também sobre Sabará. Adoraram o convívio com o fotógrafo Obudai que apesar da língua ser diferente (em Gana se fala inglês) passou muito ensinamento para as crianças, tanto quanto fotografia, entrevistas e claro sobre a linguagem e o povo de Obuasi.
Olhares
Cruzados
Segundo a coordenadora do projeto, Dirce Carrion, o sentido é que através dessa “ponte” crianças e adolescentes brasileiros e africanos se reconheçam de uma forma diferenciada daquela que é mostrada nos livros de história, onde é retratado apenas a questão da escravidão, que embora seja muito importante é uma lado muito trágico. Para Dirce é importante mostrar uma imagem positiva do continente africano, destacando a África contemporânea e isso é feito através das crianças que desenvolvem trabalhos de entrevistas e fotografias, tanto aqui quanto lá e essas informações são trocadas entre esses estudantes, por isso o nome Olhares Cruzados.
Dirce explica que a escolha de Sabará e Obuasi, que fica em Gana, se deu pelo fato das duas cidades terem em suas histórias a mineração do ouro. Ela conta que os escravos trazidos para Sabará no início do século XVIII, saíram da Costa da Mina, atualmente Gana que era dominado pelo império Ashanti e tinha sua economia baseada na exploração do ouro, por isso esses escravos que vieram para Sabará já dominavam a tecnologia de exploração, como as das bateias, por exemplo. Além disso, assim como em Sabará, a exploração do ouro continua em Obuasi, uma das empresas que operam na cidade é AngloGold Ashanti (informação retirada no site da mineradora).
Segundo a coordenadora, o objetivo do projeto é ser um instrumento a mais no combate ao racismo, de valorização à diversidade, porque só se acaba com o “pré-conceito” a partir do momento que se conhece. Logo, a proposta é trazer um conhecimento maior da África, para que a visão distorcida que se tem do continente seja revista, podendo dessa forma valorizar o continente, os povos que vieram de lá e seus descendentes que estão no Brasil. “Os escravos não vieram apenas com a força de trabalho, eles trouxeram vários aprendizados que foram implantados na nossa cultura, como a tecnologia da cerâmica, da construção, dos tecidos e o conhecimento das propriedades medicinais das plantas. Isso acaba caracterizando que os africanos foram os verdadeiros colonizadores do Brasil, os português na verdade foram nossos espoliadores”, afirma.
Os trabalhos realizados pelos estudantes sabarenses e ganeses serão transformados em um livro, com as entrevistas e fotografias feitas por eles, para apresentar para a comunidade.
O projeto Olhares Cruzados existe desde 2004 e é realizado pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) Imagens da Vida tem o objetivo de criar uma ponte entre comunidades brasileiras e africanas e ainda com países latino- americanos. Essa é, portanto a 12ª edição, em todas, um livro foi editado. O projeto já foi realizado em diversos estados do Brasil e pela primeira vez está sendo realizado em Minas Gerais.
A realização contou com o apoio das Secretarias Estadual e Municipal de Educação e ainda do arte-educador Túlio Damascena, idealizador da Borrachalioteca, que foi convidado para contribuir na condução dos trabalhos na cidade.
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