Quinta, 22 de Outubro de 2026
18°C 26°C
Sabará, MG
Publicidade

Ela cuidou deles por 25 anos. Agora, quem vai cuidar?

Sem condições familiares e estruturais para continuar à frente do abrigo, Vera Lúcia pede intervenção do Ministério Público. Prefeitura reconhece o trabalho da associação e diz buscar uma solução para que os animais tenham uma transição segura.

Por: Glaucia Melo Clark Fonte: FOLHA DE SABARÁ
01/09/2026 às 09h44
Ela cuidou deles por 25 anos. Agora, quem vai cuidar?

Foram 25 anos acolhendo cães e gatos abandonados, doentes, vítimas de maus-tratos ou simplesmente deixados à própria sorte. Agora, uma das mais antigas iniciativas de proteção animal de Sabará chega a um momento decisivo: quem cuidará dos animais quando quem dedicou uma vida a eles já não consegue continuar?


A Associação Sabarense Protetora dos Animais e da Natureza, fundada em novembro de 2001, mantém atualmente cerca de 60 animais, entre cães e gatos. Mas a presidente da entidade, Vera Lúcia Ferreira Pinto Alves, afirma que chegou ao limite e não possui mais condições de manter o trabalho da mesma forma.
Durante todos esses anos, Vera contou principalmente com o marido, Renato Dionízio Alves, na manutenção do espaço e nos cuidados diários. Aos 80 anos, após sofrer dois AVCs, ele já não consegue desempenhar as atividades como antes.
“Eu não tenho condições de continuar”, afirma Vera.
A realidade familiar mudou e, além dos animais, ela agora precisa dedicar seu tempo aos cuidados com o marido e à própria família.

ASSOCIAÇÃO PEDE INTERVENÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

Diante da situação, Vera procurou o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). No relato formal apresentado à Promotoria de Justiça, ela informou que a situação da Associação se tornou insustentável. Segundo o documento, a entidade recebia da Prefeitura de Sabará uma ajuda de custo de R$ 60 mil anuais, o equivalente a R$ 5 mil por mês, destinada principalmente à compra de ração. Ainda conforme o relato, esse valor representava a única ajuda financeira recebida pela Associação. Vera informou também que, desde 2025, os repasses deixaram de ser realizados e que, desde então, a entidade passou a arcar com os custos de ração e demais despesas mensais, situação que, segundo ela, tornou inviável a continuidade do trabalho nos mesmos moldes.Com a situação considerada insustentável, Vera pediu a intervenção do Ministério Público.O documento registra ainda que a presidente gostaria que o Município assumisse o recolhimento dos animais que permanecem sob responsabilidade da Associação.
Isso não significa, entretanto, que exista uma determinação do Ministério Público para que a Prefeitura faça o recolhimento. Trata-se do pedido apresentado pela Associação, que deverá ser analisado institucionalmente.

O QUE ACONTECEU COM OS REPASSES?

Outro ponto importante envolve a subvenção destinada à Associação.
Segundo o relato apresentado ao Ministério Público, a entidade recebia R$ 60 mil anuais, correspondentes a R$ 5 mil mensais, principalmente para auxiliar na compra de ração. Os repasses deixaram de ocorrer em 2025 e, segundo Vera, a Associação passou a arcar com as despesas.
A Folha de Sabará procurou a Prefeitura para entender o que ocorreu.
Em nota, o Município explicou que o repasse de 2025 não pôde ser realizado porque a Associação não protocolou, dentro do prazo legal, o plano de trabalho necessário para formalizar a transferência do recurso.
Segundo a Prefeitura, o documento deveria ter sido apresentado e aprovado até o fim de setembro. Sem essa etapa, o Município ficou legalmente impedido de efetuar o pagamento.
Portanto, a regularização da documentação era necessária para que o recurso público pudesse ser liberado.

REGULARIZAÇÃO

Em 2026, houve avanço.
Segundo a própria Vera, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente auxiliou a Associação na análise e regularização das pendências documentais.
A Prefeitura também informou que encaminhou neste ano projeto de lei autorizando nova subvenção à instituição, posteriormente aprovado pela Câmara Municipal.
Em relação aos valores que não foram repassados anteriormente, o Município esclareceu que a regularização posterior não gera automaticamente direito ao pagamento retroativo. Apesar disso, informou que está disposto a verificar, por meio das áreas técnica e jurídica, se existe alguma alternativa legal para a situação.
Vera reconhece o apoio recebido na regularização e afirma que não pretende transformar o momento em confronto.
“Eu não quero briga, não quero cobranças. Isso me desgasta”, diz.

O PROBLEMA VAI ALÉM DO DINHEIRO

Mesmo com a documentação regularizada, existe uma dificuldade que o recurso financeiro, sozinho, não resolve.
A manutenção de dezenas de animais exige trabalho diário.
“Precisa de limpeza, precisa de manutenção. Tudo isso meu marido fazia”, relata Vera.
Com Renato impossibilitado de continuar ajudando, Vera afirma que não consegue mais assumir essa rotina e também não pretende manter permanentemente o abrigo funcionando em sua propriedade.
É justamente aí que surge o maior desafio: encontrar um destino seguro para os animais.

PREFEITURA AINDA NÃO POSSUI ESTRUTURA PARA RECEBER TODOS

A Prefeitura reconheceu a importância do trabalho desenvolvido pela Associação ao longo de aproximadamente 25 anos, mas informou que o Município ainda não possui estrutura própria capaz de receber imediatamente todos esses animais.
Segundo a administração, estão sendo trabalhadas ações para estruturar uma política permanente para a causa animal, envolvendo controle populacional, acolhimento temporário, atendimento, adoção, combate aos maus-tratos e parcerias com entidades.
O objetivo, conforme a Prefeitura, é construir uma transição segura e uma política que não dependa exclusivamente do esforço individual de protetores e organizações.

UMA HISTÓRIA QUE AGORA PRECISA SER CONSTRUÍDA POR MUITAS MÃOS

O caso não precisa se transformar em uma disputa entre Associação e Prefeitura.
Há uma protetora que dedicou 25 anos à causa e hoje reconhece que não consegue mais continuar. Há exigências legais que precisam ser cumpridas para a utilização de recursos públicos. Há um Município que admite ainda não possuir estrutura para receber imediatamente dezenas de animais. E há um pedido formal apresentado ao Ministério Público.
Mas, acima de tudo, há cerca de 60 animais que continuam precisando de alimentação, limpeza, proteção e cuidados todos os dias.
A situação exige agora diálogo entre Associação, Prefeitura, Ministério Público e demais setores envolvidos com a causa animal, para que uma transição seja construída de forma responsável.
Depois de um quarto de século, um ciclo está chegando ao fim. O desafio de Sabará será garantir que o encerramento dessa história para uma família não represente o abandono de quem durante todos esses anos encontrou ali um lugar para ser cuidado.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
REPRODUÇÃO REDES SOCIAIS
ESPANCADO Há 21 horas

Assessor parlamentar denuncia agressões de policiais militares dentro de casa em Sabará; PMMG abre investigação

Laender Luciano, de 53 anos, afirma ter sido espancado e ameaçado durante operação no bairro Nações Unidas. Polícia Militar apresenta versão diferente, diz que houve resistência à prisão de um homem de 28 anos e anuncia apuração dos fatos.

FESTIVAL DE CIRCO Há 21 horas

Festival de Circo Mambus leva espetáculos, oficinas e Noite de Arte Assombrada a Sabará

Programação gratuita acontece nos dias 30 e 31 de outubro no Teatro Municipal e no Solar do Padre Corrêa, com circo contemporâneo, acrobacia, cortejo e performances inspiradas no Halloween.

VINSCOL Há 2 dias

Vinscol encerra operação em Sabará nesta terça-feira (20); vans continuam gratuitas e Prefeitura prepara chegada de novos ônibus

Prefeito Sargento Rodolfo anuncia segunda fase da implantação do novo transporte público de Sabará. A partir de quarta-feira (21), vans deverão reforçar os horários de pico e atender passageiros das antigas linhas da Vinscol.

LIXO ELETRÔNICO Há 2 dias

Sabará passa a ter descarte gratuito de eletrônicos em três agências dos Correios

Serviço já está disponível no município e permite entregar celulares, notebooks, tablets, fones, cabos e outros eletrônicos de pequeno porte sem custo e sem agendamento

DESPEDIDA Há 2 dias

A última viagem: Vinscol se despede de Sabará após 62 anos de histórias que ficarão na memória da cidade

Em vídeo emocionante, empresa encerra sua trajetória no transporte público municipal nesta terça-feira (20), agradece aos passageiros e homenageia os profissionais que fizeram parte de gerações de sabarenses.

Lenium - Criar site de notícias