
Aos 90 anos, Aidda Pustilnik, moradora do distrito de Ravena, em Sabará, decidiu emprestar sua voz a uma causa que considera essencial para o futuro da comunidade onde escolheu viver: a preservação das nascentes e dos recursos hídricos da região.
Psicóloga de formação e atuante na comunidade como motivadora social, Aidda publicou na última semana um vídeo nas redes sociais que chama atenção não apenas pela mensagem, mas também pela força de uma mulher de 90 anos que decidiu pedir ajuda para proteger o lugar que escolheu para viver.
“Eu escolhi esse lugar maravilhoso, que fica na base da Serra da Piedade, para passar os últimos anos da minha vida calma, tranquila, num lugar onde as pessoas cuidam umas das outras”, afirma.
Preocupação com uma nova atividade minerária
No vídeo, Aidda relata preocupação com o que descreve como a chegada de uma nova atividade minerária à região.
Segundo ela, o empreendimento poderia provocar impactos ambientais e atingir recursos hídricos utilizados pelas comunidades locais.
As afirmações representam o relato da moradora. Até o momento, nas informações disponibilizadas no vídeo, não foram apresentados documentos técnicos que permitam identificar com precisão o empreendimento mencionado, a etapa de eventual licenciamento ambiental ou confirmar a dimensão dos impactos apontados por Aidda.
A preocupação, entretanto, ocorre em uma região que já convive historicamente com discussões relacionadas à atividade minerária.
Em 2025, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou requerimento solicitando informações à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Sabará sobre um Projeto de Recuperação de Área Degradada (PRAD) na antiga Fazenda dos Macacos, no território da Pedra Rachada. O documento menciona as comunidades de Ravena, Pompéu, Cuiabá e Gaia, questiona a retirada prevista de 50 mil toneladas de minério e pede informações sobre participação das comunidades, fiscalização e medidas relacionadas a extrações irregulares anteriormente identificadas.
“A água é um bem comum”
É quando fala sobre a água que o depoimento de Aidda ganha ainda mais força.
Para a moradora, preservar as nascentes significa preservar não somente o abastecimento humano, mas todo o ecossistema existente ao redor delas.
“A água não pertence a quem possui a terra, não pertence a nenhuma empresa. Ela é um bem comum.”
Aidda afirma que muitos moradores dependem de nascentes e poços e relata preocupação com a redução da disponibilidade de água na região.
Segundo ela, uma eventual perda desses recursos atingiria diretamente famílias que escolheram Ravena para viver, incluindo moradores idosos e comunidades de menor renda.
“Quando uma nascente desaparece, a gente não perde somente aquela água. A gente perde toda a mata, os animais silvestres, o equilíbrio do ambiente e, sobretudo, compromete a vida das pessoas que dependem daquele território”, argumenta.
Ravena já registrou ocorrências envolvendo exploração de recursos naturais
A preocupação ambiental não surge em um território sem antecedentes.
Em abril de 2022, a própria Prefeitura de Sabará informou ter apreendido uma retroescavadeira após denúncia de exploração irregular de recursos naturais na estrada que liga Sabará ao distrito de Ravena. Na ocasião, fiscais municipais e agentes da Polícia Ambiental estiveram no local, e a administração municipal informou que o auto de infração tinha como foco impedir exploração de recursos minerais sem prévia autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
Há também registros históricos de atividades minerárias na região de Ravena e da Serra da Piedade, o que reforça a importância do acompanhamento público dos processos ambientais que possam afetar o território.
Aos 90 anos, um pedido de mobilização
Aidda poderia ter guardado sua preocupação para si. Preferiu transformá-la em um chamado público.
Ao final do vídeo, pede que moradores de Sabará e de outras cidades, autoridades, órgãos ambientais e instituições responsáveis pela proteção do meio ambiente prestem atenção ao que acontece em Ravena.
“Estou emprestando a minha voz para falar sobre isso para todos”, afirma.
E faz um pedido simples aos seguidores: que compartilhem o vídeo e ajudem a ampliar a discussão sobre a preservação das nascentes.
Mais do que uma manifestação nas redes sociais, o depoimento de Aidda levanta uma questão que merece respostas objetivas: qual empreendimento está sendo planejado para a região, quais recursos hídricos poderão ser afetados e quais estudos ambientais foram realizados?
A Folha de Sabará considera fundamental que essas informações sejam esclarecidas pelos órgãos competentes e que as comunidades potencialmente atingidas tenham acesso aos estudos e aos processos relacionados ao empreendimento mencionado.
Aos 90 anos, Aidda encerra sua mensagem defendendo algo que atravessa gerações.
Salvar uma nascente hoje é garantir que ainda exista água para quem viverá em Ravena amanhã.