
Existe uma velha frase que diz que o ser humano se acostuma com tudo. Talvez ela tenha sido escrita pensando em Sabará.
Porque não é normal uma cidade conviver com interrupções frequentes no abastecimento de água, vazamentos que duram dias, buracos esquecidos nas ruas, obras intermináveis e comunicados divulgados praticamente quando a água já está deixando de sair das torneiras.
Mas, de tanto acontecer, parece que tudo isso passou a ser tratado como parte da paisagem.
E não é.
A Copasa conseguiu um feito difícil: transformar o inesperado em rotina.
Toda semana existe uma manutenção.
Quando não é "programada", é "emergencial".
Quando não é emergencial, é operacional.
Quando termina uma, começa outra.
A única coisa realmente previsível é que haverá um novo comunicado.
Aliás, sobre os comunicados...
A Copasa parece acreditar que informar a população significa enviar um e-mail para a imprensa perto do horário em que o abastecimento será interrompido.
Pronto.
Missão cumprida.
O cidadão que descubra sozinho.
O comerciante que se organize como puder.
O restaurante que improvise.
A padaria que explique aos clientes.
A dona de casa que altere toda a rotina.
O trabalhador que chegue em casa torcendo para encontrar uma gota d'água.
Se der certo, ótimo.
Se não der...
"A normalização ocorrerá gradativamente."
Poucas palavras resumem tão bem a relação entre a empresa e o consumidor quanto essa.
Gradativamente.
Ela serve para tudo.
A água não voltou?
Gradativamente.
Passaram-se dois dias?
Gradativamente.
O prazo informado acabou?
Gradativamente.
Virou quase um modo de vida.
Somente nas últimas semanas, Sabará recebeu sucessivos comunicados de interrupção no abastecimento.
Bairros inteiros ficaram sem água.
Em vários casos, moradores relataram que o fornecimento demorou muito além do prazo inicialmente divulgado.
No Centro Histórico, por exemplo, restaurantes, bares, padarias, moradores e comerciantes foram surpreendidos por mais uma interrupção sem qualquer planejamento prévio que lhes permitisse minimizar os prejuízos.
Mas talvez a água seja apenas parte do problema.
Porque existe outro patrimônio que a Copasa insiste em deixar para a cidade.
Os buracos.
Eles aparecem em praticamente todos os bairros.
Abre a rua.
Abre o passeio.
Executa o serviço.
Fecha de qualquer jeito.
Quando fecha.
Depois vem a chuva.
O asfalto cede.
O buraco aumenta.
E o cidadão continua desviando.
Enquanto isso, vazamentos seguem escorrendo durante dias.
Água tratada sendo desperdiçada.
Esgoto chegando aos cursos d'água.
Tudo isso enquanto campanhas pedem que a população economize cada litro.
É curioso.
Para o consumidor existe responsabilidade.
Para a concessionária parece existir apenas justificativa.
Aliás, faça um teste.
Atrasar a conta de água.
Veja se a Copasa também trabalha "gradativamente" na hora da cobrança.
Veja se a multa espera.
Veja se o vencimento pode ser prorrogado porque você teve um imprevisto.
Não pode.
O cidadão precisa cumprir rigorosamente seus deveres.
Mas quando o serviço falha, resta apenas esperar.
Gradativamente.
E aqui cabe uma pergunta que incomoda.
Onde está a fiscalização política?
Não basta publicar notas de indignação quando a crise explode.
Fiscalizar é agir antes.
É cobrar antes.
É acompanhar antes.
No ano passado, o vereador Thiago Rodrigues promoveu uma audiência pública justamente para discutir os inúmeros problemas da Copasa em Sabará.
Era uma oportunidade rara.
Talvez a melhor oportunidade dos últimos anos para que os representantes da população comparecessem, ouvissem moradores, pressionassem a empresa, exigissem investimentos e construíssem soluções concretas.
Mas boa parte dos vereadores simplesmente não apareceu.
Cadeiras vazias.
E cadeiras vazias não fazem perguntas.
Não cobram cronogramas.
Não exigem investimentos.
Não representam o cidadão que ficou dias sem água.
Agora a Câmara está em recesso.
Mas seria injusto colocar a culpa apenas nas férias.
Afinal, quando houve uma oportunidade concreta de enfrentar o problema de frente, muitos preferiram a ausência.
O problema da Copasa não começou agora.
E também não entrou em recesso.
A obra na entrada de Sabará, próxima à Ponte da Paciência, tornou-se quase uma metáfora da relação entre a cidade e a concessionária.
Escava.
Fecha.
Abre novamente.
Coloca terra.
Retira terra.
Refaz o asfalto.
Quebra outra vez.
Os meses passam.
Os anos passam.
E ninguém consegue explicar, com clareza, quando aquilo terminará.
Enquanto isso, a população segue pagando.
Pagando pela água.
Pagando pelos prejuízos.
Pagando pelos remendos.
Pagando pela falta de respostas.
E, curiosamente, sendo sempre orientada a compreender.
Chega uma hora em que compreensão deixa de ser virtude.
Passa a ser conformismo.
Sabará não precisa de mais comunicados.
Precisa de planejamento.
Precisa de investimentos.
Precisa de respeito.
E precisa, sobretudo, que seus representantes entendam que fiscalizar concessionárias não é favor.
É obrigação.
Porque água não é luxo.
Não é privilégio.
Não é benefício.
É um serviço essencial.
E serviço essencial não pode funcionar na lógica do improviso permanente.
A pergunta que deixamos aos leitores é simples.
Até quando a população de Sabará continuará aceitando que a falta de água, os buracos, os vazamentos e as explicações prontas sejam tratados como algo normal?
A Copasa precisa responder.
Os vereadores precisam fiscalizar.
E a população precisa decidir se continuará apenas esperando... gradativamente...