O levantamento feito em Sabará, conduzido por Andreia Ribeiro (historiadora e mestre em ciências sociais), Rildo César Souza (historiador) e Grace de Paula Gonzaga (Mam’etu do Inzo Kisaba Mukua Ujitu), realizado entre julho e novembro de 2025 identificou 47 comunidades tradicionais de terreiro no município. O projeto “Mapeamento e inventário das comunidades tradicionais de terreiro” entrevistou 38 lideranças, além de registrar 15 casas em “condição de memória” – espaços que tiveram suas atividades interrompidas por sucessão ou deslocamento territorial.
A pesquisa começou com buscas digitais que apontaram 15 terreiros como ponto de partida. A partir das visitas a esses locais, utilizou-se a metodologia “bola de neve”, na qual cada comunidade indicava outras. Dessa forma, a lista inicial saltou para 47 comunidades distribuídas por todo o território municipal.
O resultado é um diagnóstico detalhado que inclui nomes dos terreiros, religiões professadas, nações de Candomblé e fichas individuais de cada comunidade. Os registros trazem informações sobre lideranças, festividades, membros, uso de ervas e folhas sagradas, além de relatos sobre intolerância religiosa, sentidos, significados e vivências.
Luzia Pinta: a sacerdotisa que desafiou a Inquisição
O resgate histórico das comunidades de terreiro em Sabará passa obrigatoriamente pelo nome de Luzia Pinta, natural de Luanda (Angola) e praticante do calundu – fenômeno religioso de fundamental importância na cultura das comunidades de africanos escravizados e libertos no Brasil colonial.
Nascida livre por volta de 1690, Luzia Pinta foi escravizada aos 12 anos e enviada ao Brasil em 1712, sendo levada para a Vila de Nossa Senhora da Conceição do Sabará. Em 1718, comprou sua própria liberdade e passou a viver no Córrego do Cordeiro, próximo à capela de Nossa Senhora da Soledade.
“Luzia Pinta pode ser considerada uma das poucas curandeiras ou praticantes da herança cultural e religiosa centro-africana que deixou para a história seu registro de passagem pela cidade de Sabará no século XVIII”, afirma o relatório da pesquisa. A sacerdotisa também era devota de Santo Antônio e São Gonçalo, evidenciando o sincretismo religioso característico da época.
Um mapa da resistência

O mapeamento conclui que, apesar das dificuldades históricas e da persistência do racismo religioso, as comunidades tradicionais de terreiro em Sabará mantêm-se vivas e atuantes. As fichas detalhadas de cada casa – que serão disponibilizadas para consulta – oferecem não apenas um retrato da situação atual, mas também um instrumento de valorização e proteção desses territórios sagrados.
A pesquisa reforça ainda o papel central das lideranças religiosas na transmissão de saberes tradicionais, na formação de novas gerações e na luta contra desigualdades simbólicas que historicamente atingem as religiões de matriz africana no Brasil.
A entrega dos dados da pesquisa ocorrerá no dia 11 de abril às 9h30 no Solar Padre Correia, situado à rua Dom Pedro II, 200. Centro.


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