
Há histórias que o tempo tenta esconder, mas que insistem em renascer. Histórias que permanecem como uma brasa acesa sob as cinzas — esperando o sopro certo para voltar a iluminar. E foi exatamente isso que aconteceu em Sabará com Luzia Pinta, uma mulher negra, curandeira, sacerdotisa e símbolo de resistência, cuja trajetória foi marcada pela dor, fé e coragem de existir.
No dia 15 de janeiro de 2026, no Solar dos Sepúlvedas, o sabarense Argemiro Ramos, casado com Maria do Carmo, pai de três filhos e avô de cinco netos, professor de Física e médico veterinário aposentado, lançou oficialmente o livro “Luzia Pinta: a mulher que enfrentou a Inquisição no Brasil”. Um romance histórico escrito com rigor de pesquisa e, principalmente, com emoção — daquelas que atravessam o leitor e deixam marcas.
A Folha de Sabará recebeu Argemiro em sua sede para uma entrevista. E bastou ouvi-lo narrar sua pesquisa, suas descobertas e o processo de criação para surgir uma certeza: este é um livro que provoca curiosidade imediata. Um romance que dá vontade de abrir e devorar página por página.
O nome de Luzia Pinta já aparecia em alguns espaços da cidade. Na Casa Amarela, por exemplo, há uma sala dedicada a ela — um gesto simbólico que revela sua relevância. Mesmo assim, para muitos sabarenses, Luzia era apenas um nome distante, mencionado sem detalhes.
E foi justamente essa contradição que chamou a atenção do autor: Luzia surgia repetidamente em livros e pesquisas acadêmicas, mas nunca como protagonista. “Todo mundo cita a Luzia, mas é só citação… uma ou duas páginas falando dela. Aí eu pensei: essa mulher é importante. Vou pesquisar mais”, contou Argemiro.
A ideia do livro nasceu no início da pandemia, quando Argemiro, leitor apaixonado pela história de Sabará, mergulhou ainda mais em obras sobre os séculos XVII e XVIII. Entre leituras e pesquisas, dois trabalhos o impactaram: um do pesquisador Eduardo Paiva e outro de Douglas Lima, ambos tratando de mulheres negras escravizadas que conquistaram alforria. Luzia era citada, mas nunca contada.
Depois vieram outros textos, como os estudos sobre feitiçaria e perseguições no período colonial. Aos poucos, a inquietação se transformou em missão: descobrir quem foi Luzia, entender sua grandeza e tirá-la do lugar de rodapé da história.
Argemiro foi além: pesquisou o acervo digital da Torre do Tombo, em Portugal, onde estão preservados documentos históricos e processos inquisitoriais. Foi ali que encontrou um material determinante: o processo de Luzia, com depoimentos, interrogatórios e relatos da violência sofrida por ela.
Durante a entrevista, Argemiro revelou detalhes que arrepiam.
Luzia nasceu em Angola. Com apenas cinco anos, foi capturada e escravizada. Aos 12 anos, atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil. Passou por Belmonte, próximo ao litoral, e depois foi levada à Vila de Sabará.
Aqui, tornou-se escrava de ganho e começou a se destacar por seus conhecimentos espirituais. O autor conta que ela tinha visões, entrava em transe e carregava uma fé ancestral, firmada em sua espiritualidade.
Nos registros históricos, há dois momentos citados: o transe em Angola e outro transe já em Sabará, dentro da Igreja da Matriz. Mas os livros não explicam os detalhes. O romance, então, faz o que a história oficial não fez: cria cena, voz, caminho e sentimento.
Argemiro explica que, embora a pesquisa histórica seja essencial, muitas vezes ela não chega ao leitor comum. “São livros secos, cheios de tabelas, fontes… o leitor normal evita”, afirmou.
O romance permite preencher lacunas sem trair os fatos. Permite imaginar o que os documentos apenas registram. Permite tornar humano aquilo que ficou técnico. E nesse ponto está uma das forças do livro: ele dá ao leitor a chance de sentir a história.
Em Sabará, Luzia conquistou algo raro: respeito e influência. Ela curava, dava chás, realizava práticas espirituais e ajudava pessoas — principalmente os mais pobres. Comprou a própria liberdade e passou a acolher quem não tinha para onde ir.
Segundo o autor, Luzia auxiliava mulheres alforriadas, dava comida, abrigo e orientação. Também acolhia homens que fugiam da escravidão — não para escondê-los, mas para ajudá-los a seguir caminho. Era uma rede de proteção num tempo cruel.
“Não foi o crime da cura. Foi o medo do poder que ela representava”, disse Argemiro.
E foi esse medo que a levou à denúncia.
Quando fala da prisão e tortura de Luzia, Argemiro se emociona. Engasga. Faz pausa. As lágrimas aparecem.
O autor descreve com respeito, mas sem esconder a crueldade da Inquisição. Um dos trechos mais impactantes é o relato do aparelho conhecido como “potro” — uma tábua em que a pessoa era esticada por cordas, braços puxados para trás e pernas para frente, até o corpo quase “rachar”.
Depois, vinha o sufocamento com água: um funil na boca, água jogada continuamente, enquanto os inquisidores perguntavam se ela era “bruxa”. Era dor física e terror psicológico. “Foi um milagre ela não ter morrido”, afirmou.
E a maior força de Luzia, segundo ele, foi a fé: “Ela enfrentou tudo e não negou sua religião, sua espiritualidade.”
No livro, Sabará aparece viva: a Matriz, o porto na Barra, o movimento nas ruas de uma cidade que chegou a ter mais de 30 mil habitantes no período colonial, com forte presença negra e intensa circulação.
Luzia teria chegado aqui em 1716. Em 1718, começou a pagar sua liberdade. Em 1721, recebeu a carta de alforria. Depois, estabeleceu-se em um sítio na região da Soledade, onde viveu por cerca de 20 anos atendendo pessoas e desenvolvendo seu território.
O local teria sido destruído após sua prisão: saqueado e apagado, como se quisessem eliminar sua lembrança.
Argemiro destaca que Luzia não foi perseguida apenas por existir — foi por representar uma fé diferente da dominante, por ter influência, por ser mulher negra livre.
E isso dialoga com o presente: até hoje religiões de matriz africana enfrentam intolerância, denúncias e preconceito. “O que aconteceu com ela ainda acontece, de outras formas”, afirmou.
O lançamento do livro reuniu muito mais gente do que o autor imaginava: 123 pessoas assinaram a lista de presença. Houve bate-papo, autógrafos, coquetel e forte repercussão nas redes sociais.
O livro já havia alcançado destaque no digital e agora caminha para novas possibilidades: convites para feiras literárias e propostas de tradução e adaptação audiovisual.
No fim da entrevista, Argemiro resumiu o sentido do romance: “A Luzia merece ser conhecida. Ela resistiu a tudo. Ela é uma heroína”.
E Sabará, finalmente, parece pronta para dizer seu nome com clareza — não como citação, mas como protagonista.
Onde comprar o livro“Luzia Pinta: a mulher que enfrentou a Inquisição no Brasil” - R$ 70,00
Argemiro Ramos: (31) 99881-2266 - Pix: mesmo número do celular